A Associação dos Jornalistas de Macau está “seriamente preocupada” com a opacidade do Governo liderado por Sam Hou Fai. A associação lamenta a “redução significativa” das oportunidades para entrevistar ou pedir esclarecimentos aos governantes. A Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau (AIPIM), por seu lado, prefere esperar para ver o comportamento do Governo.
Desde que o Governo de Sam Hou Fai tomou posse, a Associação dos Jornalistas de Macau (AJM) tem vindo a notar um “número crescente de eventos oficiais realizados à porta fechada”, o que resulta numa “redução significativa das oportunidades para os jornalistas entrevistarem directamente o Chefe do Executivo, os secretários e outros altos funcionários”. Num comunicado enviado ontem às redacções, a AJM diz estar “seriamente preocupada” com a situação.
“Mais uma vez, exortamos o Governo da RAEM a honrar a sua promessa de respeito pela liberdade de imprensa”, diz a associação, exigindo o diálogo com o público e com os meios de comunicação social, “para que a comunidade tenha uma melhor compreensão da sua política e visão”.
Vários jornalistas têm alertado para este “padrão anormal” no que diz respeito às disposições relativas à imprensa desde que a nova Administração assumiu funções. A AJM recorda que, “embora as restrições impostas pela pandemia de Covid-19 já tenham sido levantadas há muito tempo e a normalidade já tenha sido retomada na vida de muitas pessoas”, vários dos eventos em que o Chefe do Executivo participou não foram abertos à imprensa, como acontecia dantes. Em outras ocasiões, foram convidados apenas órgãos de comunicação social próximos do Governo, denuncia a associação. “Esta situação não tem precedentes em mais de duas décadas de existência da RAEM”, lamentam os jornalistas.
Além disso, “o Governo continua a recusar, de forma irrazoável, que as revistas mensais locais e os meios de comunicação social online façam a cobertura de algum tipo de eventos oficiais”. Por exemplo, a publicação All About Macau, que tem frequência mensal e uma versão online, fica impedida de estar presente nos eventos. O mesmo tem acontecido com publicações e agências internacionais.
O Gabinete de Comunicação Social (GCS) tem justificado estas decisões dizendo que tem havido uma maior procura por parte de órgãos de comunicação social do exterior para cobertura noticiosa de eventos oficiais e, segundo as autoridades, o espaço nas salas de conferência de imprensa não é suficiente.
“Estas respostas levantam sérias dúvidas sobre a integridade dos funcionários e a sua compreensão do papel do jornalismo, e reflectem uma falta de conhecimento das normas internacionais para um Governo aberto, acabando por minar a credibilidade e a imagem pública da RAEM”, afirma a AJM.
A associação fala numa “deterioração sistemática dos acordos de imprensa organizados pelas autoridades”, uma vez que estas situações não são “incidentes isolados nem se limitam a determinados meios de comunicação social”.
A AJM recorda ainda que o Chefe do Executivo indicou, em Janeiro, que a Lei Básica de Macau protege a liberdade de imprensa e que o Governo estava disposto a cooperar com o sector da comunicação social. “A AJM espera sinceramente que esta aspiração partilhada venha a ser concretizada”, lê-se no comunicado da associação.
A associação reitera que “os jornalistas não precisam de discursos e comunicados de imprensa, mas sim de disposições adequadas para a realização de reportagens no local, em que os jornalistas possam ouvir as vozes de todas as partes interessadas, interagir directamente com os decisores e compreender claramente a lógica e a orientação das actuais políticas públicas”.
“A AJM espera que o Governo mantenha o seu compromisso para com o Estado de Direito e que reponha, o mais rapidamente possível, os acordos com a cobertura noticiosa dos meios de comunicação social, de modo a evitar que o direito de o público estar informado seja continuamente posto em causa”, conclui a associação.
AIPIM NÃO TEM ESSA PERCEPÇÃO
Por seu lado, José Miguel Encarnação, presidente da Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau (AIPIM), diz que a associação não recebeu relatos que permitam confirmar essa maior opacidade deste Governo. “Nem temos a visão contrária nem temos a visão de que as coisas são assim, ainda não nos foi feita chegar essa ideia. Daquilo que temos falado, não ficamos com essa percepção”, comenta em declarações ao PONTO FINAL.
Encarnação salientou ainda que a AIPIM espera que, depois da apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG) – que acontece hoje – a actividade dos jornalistas “seja mais cuidada pelo Governo”.











