No ano em que se comemoram os 50 anos de restabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a Índia, a delegação da Fundação Oriente em Goa comemora três décadas de actividade. O objectivo tem sido reforçar os laços históricos que ligam Portugal e a Índia. Ao PONTO FINAL, Paulo Gomes, delegado da Fundação Oriente em Goa, destaca o papel do organismo no apoio ao ensino da língua portuguesa, nas artes e na recuperação do território, por exemplo.
André Vinagre
Celebram-se agora 30 anos desde que a Fundação Oriente estabeleceu uma delegação em Goa, na Índia. Neste ano, também se assinalam os 50 anos do restabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a Índia. Através de iniciativas ligadas às artes, ao património e à língua portuguesa, a delegação de Goa da Fundação Oriente pretende valorizar os vínculos entre os dois países.
Para assinalar a data, Carlos Monjardino, presidente do conselho de administração da Fundação Oriente, bem como João Amorim, vogal do conselho de administração, estiveram em Goa, entre os dias 27 de Janeiro e 2 de Fevereiro, marcando também presença no segundo encontro anual das delegações de Goa, de Macau e de Timor-Leste. No âmbito das celebrações, a delegação de Macau deu a conhecer em Goa as obras de uma artista da região, Tsang Tseng Tseng (ver página 12); e realizou-se também o Festival de Música do Monte, um dos mais importantes eventos do calendário cultural de Goa, que contou com a actuação da fadista portuguesa Cuca Roseta. Ainda no âmbito das efemérides, ontem realizaram-se concertos de violino e guitarra portuguesa no Indian Council for Cultural Relations (ICCR), na capital indiana, Nova Deli.
“A Fundação Oriente não é apenas uma ponte entre Oriente e Ocidente, mas também entre diferentes partes do Oriente onde se fala Português e onde tem Delegações que colaboram entre si”, lê-se na nota oficial sobre as comemorações das efemérides, que destaca também que, ao longo dos últimos 30 anos, “a delegação da Fundação Oriente na Índia tem apoiado projectos de ensino da língua portuguesa nas escolas secundárias de Goa, bem como contribuído para a difusão da cultura, não só com apoios nas áreas da música, teatro, dança e literatura, como também através da realização de festivais, concertos, seminários, conferências, publicações e exposições de artistas indianos e portugueses, com intercâmbios entre os dois países”.
UM “PAPEL DETERMINANTE” NAS RELAÇÕES PORTUGAL-ÍNDIA
Paulo Gomes é o delegado da Fundação Oriente em Goa desde Junho de 2022. Ao PONTO FINAL, destaca o “papel determinante” da delegação nas relações entre os dois países.
O responsável começa por assinalar que a presença de três décadas da instituição em Goa surgiu “num período fundamental para voltar a estabelecer os laços entre Portugal e Índia”. Depois do restabelecimento das relações diplomáticas entre a Índia e Portugal, em 1975, “praticamente nada existia, sob o ponto de vista cultural, nas relações entre Portugal e Goa e Portugal e a Índia”, e foi então que Carlos Monjardino, a sugestão de Mário Soares, decidiu implementar uma delegação da Fundação Oriente em Goa. Depois de as autoridades indianas terem percebido que a intenção não era política ou religiosa, mas sim cultural e educativa, o Governo Central indiano deu luz verde ao projecto.
Paulo Gomes destaca, em primeiro lugar, o papel da delegação no que toca ao ensino de língua portuguesa. A Fundação paga os honorários a cerca de 20 professores goeses que ministram português em 20 escolas secundárias, num universo de 1.100 alunos. “Substituímos o Governo e pagamos os honorários desses professores, que é também uma forma de manter o português vivo em Goa”, diz o responsável. A par disso, são organizados cursos e workshops de português para professores.
No âmbito do ensino da língua portuguesa, há também um programa de bolsas de estudo em que é atribuído todos os anos três ou quatro bolsas para alunos do ensino superior e para investigadores que querem ir à Índia fazer os seus estudos, ou, ao contrário, investigadores e professores indianos que querem ir para Portugal.
Depois há também a área das artes performativas: “Nós temos uma galeria de arte com uma exposição permanente de um brilhante artista goês, António Xavier Trindade, que tem sido também um bom marco de ligação até para indianos que nos visitam de outros estados e que acham a colecção lindíssima”. Há ainda prémios para projectos de artes visuais e o já referido Festival de Música do Monte, por exemplo.
Uma outra área de actuação da delegação da Fundação Oriente em Goa tem a ver com a publicação e literatura. “Nós temos as nossas próprias publicações anuais sobre a Goa, sobre a Índia, um conjunto interminável de conferências, de workshops que também desenvolvemos aqui na Fundação, com escritores, autores portugueses, brasileiros, indianos”, assinala Paulo Gomes.
Outro aspecto “essencial” tem a ver com a recuperação do património, essencialmente património com ligações a Portugal, como igrejas e capelas, mas também algum património hindu. Por fim, destaque para a acção social da delegação em Goa. “Nós temos tido aqui um papel importante, quer a apoiar organizações governamentais, quer a apoiar idosos ou orfanatos”, diz o delegado.
Para Paulo Gomes, a maior conquista da delegação tem sido a preservação do ensino da língua portuguesa: “A grande conquista foi os jovens de hoje poderem estar em escolas a aprender português, tendo novamente contacto com a língua portuguesa”. Outra vitória, refere, tem a ver com “a abertura da Fundação para a diversidade”. “Ter aceitação e reconhecimento das entidades governamentais, da sociedade civil, dos empresários, é algo que nos deixa muito satisfeitos e creio que é a maior conquista”, frisa.
Reforçando que a relação da delegação com todos os sectores da sociedade de Goa “é fantástica”, Paulo Gomes sublinha: “A nós não nos interessa política, não nos envolvemos em religião, estamos aqui para não perder aquilo que foram os quase 450 anos de presença portuguesa aqui, a herança histórica, religiosa, cultural e patrimonial que existe entre os dois países”.
O delegado da Fundação adianta que, para o futuro, está prevista uma iniciativa nova que pretenderá dar novas oportunidades a raparigas abandonadas que estão em orfanatos na vertente da formação linguística ou das artes, por exemplo.
CAIXA:
Delegação com sede no emblemático bairro das Fontainhas
A delegação da Fundação Oriente em Goa tem sede em Panjim. O edifício é uma casa senhorial goesa de influência portuguesa, localizado no bairro emblemático das Fontainhas. A sede conta com uma Galeria de Arte com a exposição permanente do artista goês António Xavier Trindade. O edifício é “um dos pontos centrais de conexão e contribuição para a vibrante vida cultural de Goa”, diz a Fundação Oriente.
CAIXA
Goa por Paulo Varela Gomes
Paulo Varela Gomes, escritor português falecido em 2016, foi o delegado da Fundação Oriente em Goa entre 1996 e 1998 e depois entre 2007 e 2009. O autor publicou vários textos sobre as suas passagens pela Índia, nomeadamente “Era Uma Vez em Goa”, vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2016. O livro acompanha Graham Greene, um cidadão britânico que chega a Goa em 1963 com escassos recursos e por meios pouco ortodoxos, sendo sistematicamente confundido com um infiltrado português. Na obra de Paulo Varela Gomes, o protagonista afirma: “É disto que eu me vou recordar melhor em Goa: a voz em concanim a contar histórias estranhas, o uivo dos cães selvagens a descer dos montes, a luz dourada do poente no arrozal, o sentimento de profunda paz campestre. A industrialização acabará por chegar”.












