Burlas praticadas através da internet aumentaram 4% e causaram prejuízos até 154 milhões

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Macau registou 906 burlas com recurso à Internet em 2024, número que continua a subir e acabou por registar um aumento de 4% em termos anuais. A Polícia Judiciária divulgou ontem os dados e indicou ter investigado também 354 burlas telefónicas no ano passado, cujo montante de prejuízo avaliado pelas vítimas atingiu 154 milhões de patacas. Os casos de furto de dados dos cartões de crédito através de mensagens e websites de phishing duplicaram. As autoridades policiais alertam ainda para as falsas promessas de trabalho no estrangeiro.

 

A Polícia Judiciária (PJ) instaurou no ano passado um total de 14.049 processos criminais, sendo que a criminalidade subiu 13,39% em relação ao ano anterior. Entre estes verificaram-se 906 casos ligados a burlas com recursos à Internet, mais 4% do que em 2023. Recorde-se que o aumento anual desse tipo de crime tinha sido de 42,8% no ano anterior.

O abrandamento da subida dos casos, segundo as autoridades, acredita-se ser atribuível à sensibilização reforçada do público. Todavia, “embora o aumento das burlas com recurso às telecomunicações e internet em Macau tenha registado uma diminuição ligeira no ano passado, a sociedade deve estar ciente de que a situação acerca destes crimes ainda é séria e os prejuízos continuam avultados”, alertou.

Os dados de trabalho foram divulgados ontem pela PJ durante uma conferência de imprensa. A polícia afirmou ter recebido 354 queixas devido a burlas através do telefone ou telemóvel, menos 13% do que em 2023.

Estes casos originaram perdas avaliadas pelas vítimas em mais de 154 milhões de patacas, menos 1,2% do que no ano anterior. No entanto, 47,3% das vítimas denunciaram prejuízos de valor igual ou superior a 150 mil patacas, sendo que a percentagem aumentou 14,2 pontos percentuais em relação aos 33,1% registados em 2023.

Neste aspecto, mais de metade das vítimas de burlas telefónicas continuam a ser mulheres, e mais de 60% dos lesados têm idade compreendida entre 18 e 34 anos. Quase 30% das vítimas de fraudes telefónicas nos últimos dois anos eram estudantes. Ou seja, um total de 109 casos de burlas telefónicas no ano passado envolveram estudantes, que foram defraudados em 68,1 milhões de patacas, um aumento de mais de 50% em termos anuais.

Sit Chong Meng, director da PJ, mostrou-se preocupado com a situação. “A grande maioria eram estudantes com bom desempenho académico e os burlões aproveitam a confiança entre eles e os seus pais para a fraude”, analisou. O responsável explicou que as redes de burla “actualizam sempre as estratégias” e acreditam que os estudantes não locais que estudavam em Macau “eram geralmente de famílias relativamente ricas e tinham um elevado nível de confiança e respeito na polícia e noutros serviços”, pelo que utilizavam especificamente esquemas que simulam chamadas telefónicas de funcionários de “Polícia, Procuradoria e Tribunal” para burlar os estudantes.

 

CARTÕES DE CRÉDITO E ESQUEMA DE EMPREGO NO ESTRANGEIRO

 

Por outro lado, em 689 casos as vítimas revelaram aos burlões os dados de cartões de crédito quando tentavam comprar bens ou serviços ‘online’, mais do dobro do registado em 2023, causando perdas no valor de 14 milhões de patacas.

A PJ acrescentou que, graças a um mecanismo de alerta para suspensão de transacções suspeitas e cessação de pagamento, conseguiu recuperar quase 110 milhões de patacas em 597 tentativas de burla. A polícia de Macau denunciou aos bancos 680 contas suspeitas de serem usadas por burlões e bloqueou 991 portais da Internet que serviam para burlas.

“Os criminosos utilizam tecnologias avançadas com AI e actualizam constantemente as técnicas usadas na prática das burlas ou nas burlas de procura de emprego no estrangeiro”, acautelou.

Recorde-se que, em 12 de Janeiro, a PJ disse ter impedido que um residente fosse vítima de tráfico humano para um centro, no Sudeste Asiático, dedicado à burla e extorsão com recurso às telecomunicações e à Internet. Duas semanas antes, a polícia informou que cinco residentes tinham sido vítimas de tráfico humano para centros, em Taiwan e Camboja, enganados com falsas promessas de uma remuneração elevada para supostos empregos.

Na semana passada, as autoridades de Hong Kong disseram que pelo menos 28 residentes da vizinha região foram vítimas de tráfico humano para este tipo de centros em países do Sudeste Asiático. Uma equipa especial de Hong Kong viajou este mês para a Tailândia, onde se encontrou com o Comité Anti-Tráfico de Pessoas, presidido pela primeira-ministra tailandesa Paetongtarn Shinawatra.

A viagem surgiu quatro dias depois da polícia da Tailândia ter anunciado o resgate do actor chinês Wang Xing, que terá sido raptado em território tailandês e detido num centro na vizinha Myanmar. Centenas de milhares de pessoas, a maioria dos quais chineses, têm sido alvo de tráfico humano para centros no Sudeste Asiático, onde são forçados a defraudar compatriotas através da Internet, de acordo com um relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Pelo menos 120 mil pessoas foram traficadas para Myanmar e cerca de 100 mil para o Camboja, apontou-se no relatório, divulgado em Agosto de 2023.

Por ocasião da conferência de imprensa de ontem, a PJ apelou à sociedade para que esteja atenta às ofertas de emprego de salários elevados no estrangeiro que não exijam quaisquer competências ou qualificações académicas.

 

MANTIDA BAIXA INCIDÊNCIA DOS CASOS DE DROGA

 

No que diz respeito ao trabalho de combate à droga, a PJ salientou que “manteve-se baixa” a tendência para a incidência dos crimes ligados à droga. No ano passado foram instaurados 49 processos de tráfico de estupefacientes, menos um caso em relação ao ano anterior. Registaram-se também 15 casos de consumo de droga, mais seis casos comparando com 2023 e menos 27 casos face a 2019.

O número de casos de tráfico de estupefacientes detectados no Aeroporto Internacional de Macau verificou-se uma “diminuição significativa”, passando de 12 casos em 2023 para quatro casos em 2024, sendo que o número de envolvidos reduziu de 15 para cinco indivíduos detidos.

“A força e a eficácia da detecção de droga continuaram a melhorar e, este ano, as autoridades planeiam introduzir equipamento de exame rápido mais avançado para complementar a aplicação da lei, de modo a impedir rigorosamente a entrada de estupefacientes”, afirmou o organismo, assumindo que vai intensificar os esforços na sensibilização de luta contra a droga juntos aos estudantes.

A PJ disse ao mesmo tempo estar atento à contenção do consumo do etomidato, droga vulgarmente conhecida como o “óleo espacial”. Foram registados até ao momento quatro casos de etomidato. No entendimento do organismo, formou-se “um certo consenso” na comunidade sobre o controlo desta substância, pelo que vai se empenhar para avançar com a revisão legislativa este ano com vista a incluir, o mais rapidamente possível, o etomidato na lista de controlo de estupefacientes.

No relatório da PJ, destacou, por outro lado, que o organismo “preveniu e contra-atacou com eficácia a intervenção e tentativa de destruição vindas das forças externas” e “geriu e controlou efectivamente os factores de risco que afectaram a estabilidade da sociedade” no ano passado. Prometeu neste caso que este ano vai “inovar o modelo de divulgação e educação” da segurança nacional.