Edição do dia

Sexta-feira, 5 de Junho, 2026
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
29.7 ° C
29.7 °
29.7 °
82 %
4.3kmh
47 %
Sex
34 °
Sáb
33 °
Dom
32 °
Seg
30 °
Ter
29 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioCulturaArtistas de Macau reflectem sobre a identidade e as transformações

      Artistas de Macau reflectem sobre a identidade e as transformações

      No dia em que inaugura a exposição colectiva de artistas contemporâneos de Macau, intitulada “Aqui e Agora”, na UCCLA, em Lisboa, um dos seus curadores, José Drummond, fez uma visita guiada ao PONTO FINAL. Com quase 100 trabalhos de 25 artistas do território, com diferentes registos, há um ponto em comum: as preocupações com a transformação da sociedade e os problemas de identidade de um grupo que cresceu num território entre duas culturas.

       

      Se há duas décadas os artistas acabavam por centrar-se em problemas como a identidade e as mudanças na sociedade local, hoje as preocupações são as mesmas. Co-organizada pela Art for All Society (AFA) e com a curadoria de José Drummond e James Chu, a exposição colectiva de artistas contemporâneos de Macau intitulada “Aqui e Agora” assinala o 25.º aniversário do regresso da RAEM à China, e estará patente a partir de hoje em Lisboa, na UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, até ao dia 20 de Dezembro.

      “Os artistas trazem a esta exposição trabalhos que nunca expuseram em Portugal, com a AFA”, começa por explicar José Drummond. “Houve essa preocupação de trazer vozes cujo trabalho ainda não tivesse vindo a Portugal”, acrescenta. Entre os 25 artistas, incluem-se nomes de alguns mais veteranos, como Catherine Cheong, Rui Rasquinho e Alexandre Marreiros, e outros mais jovens, como Angel Chan, Chiang Wai Lan, Felix Vong, Ieon Man Hin, Karen Yun, Kuok Hou Tang, Kun Wan Tou, Lai Sut Weng, Lei Chek On, Lei Hio Lam, Kit Lei, Leon Chi-Mou, Leong Chon, Leong Fei In, Leong Man Teng, MJ Lee, Season Lao, Sisi Wong, Wong Hio-Chit, Xixia Wu, Yao Mou In, Kay Zhang.

      Com trabalhos que incluem pinturas, fotografias, aguarelas, gravuras, instalações, escultura e vídeo, os artistas acabam por se debruçar sobre questões que se mantêm actuais nos dias de hoje. “A complexidade de se viver num espaço intermédio, entre duas culturas, apesar de a cultura chinesa estar continuamente a ganhar mais forma”, diz. “Há uma identidade portuguesa muito marcante e, nesse sentido, vê-se que os artistas de Macau são diferentes dos artistas de Hong Kong e dos artistas do interior da China, porque vivem nesse espaço intermédio, reflectem sobre a sua vivência e têm muito esta coisa de que a inspiração vem de ambos os lados”, acrescenta.

       

      Uma tour pelos 25

       

      Nesta visita guiada, José Drummond começa por “Unicórnio”, de Chiang Wai lan, para explicar um pouco da obra. “Houve a preocupação de dar espaço a vários tipos de expressão – uma pintura mais geométrica ou uma pintura mais surrealista [como esta], mas que é uma pintura muito claramente de inspiração asiática”, refere o curador. Disposto em frente, está “Três Mil Cabelos”, um vídeo da autoria de Catherine Cheong. Conforme a própria artista refere no catálogo da exposição, tal como os problemas, os cabelos fazem parte de um ciclo sem fim de queda e regeneração, que acompanha a vida das pessoas. Para Drummond, a obra acaba por reflectir uma ideia de idade e de passagem de tempo. “Gosto muito deste tipo de vídeos, porque foge à ideia do vídeo como uma expressão documental; no trabalho dela, existe uma narrativa, mas não se prende com uma sequência lógica, é mais orgânico e termina numa abstracção total”, afirma.

      Poucos metros à frente, está a instalação de Rui Rasquinho, um trabalho feito em livros de papel Xuan dobráveis, usando tinta da China, grafite e carvão. “Parecem montanhas, mas podia ser outra coisa qualquer, também numa grande liberdade”, afirma o curador. “É um trabalho de um artista português, que vive neste intermédio, em que há a inspiração da pintura tradicional chinesa, mas que depois ganha aqui uma face contemporânea”, explica. Usando os próprios elementos arquitectónicos da sala a seu favor, “é um trabalho que pode ser visto em qualquer ponto” e que se encontra em diálogo com a fotografia em papel Kozo, de Season Lao, que se encontra mesmo em frente. Intitulado “Monte Asama, Nagano, Japão”, o artista bebe a sua inspiração também às montanhas, mas transparecendo calma. “O Season vive há muito tempo no Japão e, de algum modo, essa ausência sente-se na expressão japonesa mais presente do que, por exemplo, a pintura chinesa que se encontra no Rui [Rasquinho] – mais intensa, mais chinesa, mais portuguesa, com mais drama”, descreve o curador.

       

      Um gosto pelas falhas

       

      Leong Fei In traz a esta exposição duas peças em recorte de papel: “Monumento 05” e “Monumento 06”. “O processo é muito geométrico e, especialmente neste [Monumento 05], gosto das falhas. No meio deste automatismo que existe no trabalho dela, ela vai mantendo a impressão de tudo aquilo que aconteceu, como estes traços que não apagou por completo. Não é feito em laser, é feito à mão”, analisa José Drummond.

      Continuando o caminho, o curador pára em frente a “Missão na Terra” e “Matters #5”, de Karen Yung. “É a linha narrativa mais asiática das bonecas, mas especialmente aqui acabámos por escolher estas duas por haver uma oposição”, explica. “No fundo, eu diria que, no trabalho da Karen, existe qualquer coisa como uma imaginação extraterrestre, um espaço que não pertence inteiramente ao nosso planeta”, sugere.

      Em total oposição encontra-se “A Longa Viagem no Barco Siamês”, uma série de gravuras em painel de madeira, de Kay Zhang. Trata-se de um estudo dos tanka, que eram os habitantes dos barcos de pescadores no Rio das Pérolas em Macau. Casada com um europeu, a artista chinesa acaba por misturar um pouco da realidade e da ficção, imaginando-se como uma tanka numa vida passada e procurando reexaminar a fantasia exótica em torno das mulheres chinesas, a partir de uma perspectiva pós-colonial.

      Continuando o nosso percurso, paramos em frente ao trabalho de Wong Hio-Chit, intitulado “Série dos Moradores – Ilha X3”. “As janelas, o cimento, a construção desenfreada é, no fundo, um retrato muito bonito até daquela grande confusão sonora e visual, especialmente para as pessoas que vivem na Taipa”, refere o curador.

      Intitulado “Arte”, Leong Chi-Mou traz um acrílico sobre tela, que reflecte “um design de embalagem de produto imbuído de espiritualidade”, conforme vem identificado no catálogo da exposição. “O trabalho dele tem a ver com as embalagens de produtos – aquelas coisas antigas que se via nas lojas que vendiam produtos em segunda mão, tem a ver com todo esse tipo de material dos anos 30/40”, diz o curador, acrescentando: “Os seus trabalhos têm inspiração nessa época, mas com os seus próprios elementos.”

      Por outro lado, Kun Wang Tou traz “Não-visão: a montanha mais alta do mundo”, uma fotografia de duas bananas, alterada digitalmente, dando-lhes um cunho pop. No catálogo da exposição, Leong Chi-Mou pergunta: “Talvez, no que diz respeito ao poder do artista sobre a obra, eu possa conduzir o público a visualizar as duas montanhas mais altas do mundo?”

       

      Uma expressão muito feminina

       

      A obra de Leong Man Teng, intitulada “Mind (Coração)”, é “um trabalho essencialmente feminino, como se consegue perceber pelos alfinetes que estão aqui”, refere o curador, acrescentando: “Sugere uma prisão emocional, uma impossibilidade de uma dor que tem a ver com a posição feminina, não só em Macau, infelizmente.”

      Com duas obras em cerâmica expostas, “Complicate” e “Devour”, Angel Chan traz um elemento feminino muito forte, que são os sapatos de salto alto. “São objectos pouco confortáveis, mas que dão às mulheres uma posição de poder”, descreve José Drummond, salientando a alteração que a artista acaba por lhes fazer, dando-lhes um aspecto “quase monstruoso”.

      Sisi Wong, por seu lado, tem uma fotografia digital, a que deu o nome de “Retrato da luz #Árvore”, que é um trabalho sobre a luz, tal como outros que tem vindo a fazer ao longo da carreira. “Essa persistência em fotografar a luz parece estar tentando procurar a aura pessoal no vocabulário da fotografia”, refere a artista, no catálogo da exposição.

      Por seu lado, Kuok Hou Tang traz “Fotossíntese”, uma fotografia em que cria uma falsa paisagem. “São trabalhos fotografados com o ampliador e depois passa esse resultado para o digital”, reflecte Drummond.

       

      Ironia, provocação e crítica

       

      Quase a chegar ao fim desta visita guiada, encontramos os trabalhos provocatórios de Felix Vong. Em “My hobby” e “Don’t Forget”, o artista usa a ironia para passar duas mensagens: “O meu hobby é ir a aberturas de exposições e ouvir as outras pessoas a coscuvilhar” e “Não te esqueças de bater palmas quando os teus vizinhos atingirem o orgasmo”. “Ao mesmo tempo, são trabalhos que falam sobre a situação de uma pessoa que está sozinha e a ouvir os vizinhos, uma pessoa quase abandonada e que se vê obrigada a continuar a sua vivência através dos outros”, reflecte o curador.

      Por outro lado, Leong Chon, no seu óleo sobre tela traz “A bela dama e o espadachim enfrentam o bombardeiro”, uma peça que parte da imagética chinesa dos cartazes dos anos 40 e 50 para criar um cartaz de um filme de super-heróis.

      Xixia Wu, por seu turno, traz uma fotografia de uma performance feita por si, “em que vai escrevendo uma poesia com estes insufláveis”, descreve o curador. “Tem a ver com a energia e a presença do corpo na natureza.”

      Já Alexandre Marreiros vem manifestar em “Intercepted Aggregation” as preocupações já expressas em trabalhos anteriores, mas agora recorrendo a decoupage, monotipos, acrílico e spray sobre alumínio, usando jornais de Macau e não só. “Esta é uma crítica até à sociedade de Macau, por as pessoas viverem todas dentro de uma caixa”, afirma.

      Chegados ao fim da tour, José Drummond pára para falar um pouco sobre “Suspensão da descrença”, um vídeo de MJ Lee. “Um trabalho forte que fala sobre a fragmentação da identidade, o resultado de uma performance em que ela andou por Macau com olhos e boca tapada, com um objecto que emitia sons”, diz, salientando que reflecte também “a dificuldade de comunicação ou de fazer parte de qualquer coisa”.