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      “Procuro sempre projectar ao máximo a qualidade artística encontrada em Macau, seja nos realizadores, organizadores, designers ou programadores”

      Um ano após o retorno da experiente direcção de Rita Wong e a equipa da CUT Limited, a Cinemateca Paixão continua na sua saga dedicada à cinematografia de autor e ‘independente’. Através de projectos singulares, filmes escolhidos a dedo e vários festivais anuais, o pequeno cinema tem vindo a atrair visitantes de toda a região do Delta, afirmando-se como um dos únicos espaços a projectar a Sétima Arte mais “edgy” e afastada das produções comerciais, sempre com muito critério artístico. Em entrevista ao PONTO FINAL, a directora apresentou o seu balanço destes últimos 12 meses de “trabalho árduo” e as próximas ideias para os dois anos que ainda estão por vir.

      Deambulando por entre cenas, a Cinemateca Paixão voltou a ser o farol do cinema novo, clássico ou, simplesmente, fantástico. No dia 1 de Setembro de 2023, anunciou-se a reabertura da Cinemateca Paixão sob o comando da já conhecida direcção de Rita Wong e a equipa da CUT Limited (companhia ligada à associação do mesmo nome). Responsáveis pela inauguração do espaço em 2016, estiveram fora do pequeno cinema, no centro histórico de Macau, durante três anos, quando perderam a concessão à SunCity Group entre 2020 e 2023. Faz agora um ano que voltaram a tomar as rédeas da sua cria e estão focados em tornar Macau num centro da arte cinematográfica alternativa, durante os próximos dois anos. Aliados ao crescimento do turismo e à presença de mais estudantes do interior da China, os projectos guiados por Rita Wong já fazem parte do radar da comunidade cinéfila, destacando-se como um dos únicos espaços “cult” no panorama cultural da região de Guangdong. Mas sempre com muito destaque para a cinematografia produzida em Macau, como deixou claro a directora, em entrevista ao PONTO FINAL.

       

      Faz agora um ano que voltou a gerir a Cinemateca Paixão. Que balanço faz neste retorno à direcção do cinema?

      Sim, já faz um ano que voltámos. Recebemos o resultado da concessão em Agosto de 2023 e em Setembro começámos a trabalhar, com uma equipa quase toda nova. Aqueles três anos em que não estávamos, fizeram com que a antiga equipa encontrasse outros projectos e muitos dos membros seguiram outros caminhos. Mas temos agora uma equipa muito experiente, responsável pela programação, que inclui Penny Lam, cineasta e director do Festival Internacional de Documentários de Macau, e Jay Sun, curador e fundador do inédito Festival Internacional de Cinema Queer de Macau. Com a qualidades destes novos programadores, estou mais relaxada nesse lado e posso focar-me nos projectos paralelos que temos. Também temos designers locais que trabalham para desenvolver um visual único aos nosso projectos, algo que consideramos muito importante para esta nova fase. Outro ponto importante é que somos uma equipa inteiramente local. Procuro sempre projectar ao máximo a qualidade artística encontrada em Macau, seja nos realizadores, organizadores, designers ou programadores.

       

      Como um dos únicos cinemas a promover filmes independentes, qual é a importância de promover este género de cinema em Macau?

      Claro, é muito importante! Não existem muitos cinemas em Macau e temos a sorte de ter um cinema de “Art House” patrocinado pelo Governo, com o objectivo de cultivar a arte e promover o cinema independente, sem pensar em lucro ou produções comerciais. Mas não nos focamos apenas em filmes independentes, também incluímos clássicos ou filmes relevantes. Este mês, por exemplo, temos um programa, digamos, “estranho”. Alguns dos filmes nem sequer se podem encontrar em Hong Kong, onde normalmente vou para ver filmes alternativos. É um programa muito “edgy” que inclui filmes do México, Roménia e Canadá, entre outros. Mas também apresenta clássicos chineses, como o “Millenium Mambo”, de 2001, do realizador taiwanês Hou Hsiao-hsien, que são mais “familiares” ao público de Macau.

       

      Como acha que a Cinemateca Paixão, com o seu foco no cinema alternativo e clássico, se posiciona no actual panorama de cinemas de Macau?

      É importante que todas as cidades tenham uma gama ampla de escolhas culturais. No caso de cinemas, é sempre positivo quando podemos escolher entre ir ver um filme menos conhecido, que talvez abra os nossos horizontes, mas também ter a opção mais comercial para entretenimento, claro. O que eu chamo “cinemas circo”, direccionados para as massas. É algo que na verdade acho essencial, para haver opções. Nesses cinemas o objectivo é ver um filme com alta qualidade e um som impactante, enquanto nós oferecemos experiências diferentes, como workshops, conversas e provas de vinho, por exemplo. Ainda bem que temos isto em Macau, senão era preciso ir a Hong Kong ou, ainda mais longe, Taiwan ou Japão. Temos que valorizar e apreciar a sorte que temos em ter um cinema alternativo que possa abrir janelas para outras visões sobre a arte do cinema.

       

      Acredita que haja um interesse maior em ver filmes no cinema, com o recente crescimento no turismo?

      Em relação aos turistas, não. Ficam cá pouco tempo e muitas vezes o cinema não é uma das escolhas. Mas o que temos notado é um aumento nos estudantes prevenientes do interior da China. São jovens e modernos, gostam do ambiente do nosso cinema e das opções que temos oferecido. Têm muita curiosidade, porque não encontram o mesmo tipo de filmes que apresentamos nas suas cidades de origem, além de que podem usufruir do desconto de estudante, que passa a ser metade do preço original para cada bilhete. Outro público que temos vindo a receber são os residentes das cidades vizinhas, como Zhuhai e Shenzhen. Sabemos disso porque tornaram-se membros da Cinemateca e são regulares. Para além disso, temos o público idoso de Macau, muito nostálgico, que adora ver os filmes familiares que passamos de vez em quando.

       

      Em termos de conteúdo da programação deste último ano, houve dificuldades na selecção ou exibição dos filmes exibidos?

      O nosso foco é escolher filmes bons, filmes com impacto. Procuramos o melhor do cinema independente, mas não apenas isso, filmes que tenham recebido alguma atenção durante festivais internacionais também. Mas o que sentimos é que ultimamente o preço dos direitos de projecção dos filmes seleccionados tem aumentado significativamente. Antes dos tempos da pandemia era mais fácil. Acredito que agora as empresas queiram recuperar muito do capital perdido naqueles anos de isolamento, mas quem sofre somos nós, os pequenos cinemas. Outro ponto é que os nossos programadores pesquisam muito afundo os filmes que querem exibir, muitas vezes escolhem obras que não têm traduções ou legendas, sendo necessário gastar mais recursos e tempo nessa área, principalmente na tradução de legendas em chinês. Não é necessariamente uma dificuldade, porque não somos preguiçosos e gostamos do nosso trabalho, mas muitas vezes leva mais tempo a organizar uma projecção especifica devido a isso.

       

      O que é que o público pode esperar para o próximo ano na Cinemateca Paixão, que novas temáticas serão abordadas na programação?

      Desde que recebemos a concessão, já temos um esboço dos anos que vão seguir. Fazia parte da proposta inicial. Parte do plano é de apresentar clássicos chineses, pelo menos um todos os meses, ou filmes da onda “New Force” da China. Depois temos o TGIF (“Thank God Its Friday”, ou “Graças a Deus é Sexta”, em português), um programa mais relaxado e “fácil”, com filmes de comédia e de família, todas as últimas sextas-feiras do mês, e é acompanhado por uma prova de vinho francês no fim de cada sessão. Também vamos continuar com as experiências depois das sessões, como a que fizemos com o fotógrafo Akimoto Chan, que após a exibição de um documentário sobre fotografia, os participantes puderam fotografar as ruas de Macau com o artista convidado, partilhando de seguida as imagens criadas dentro da sala de cinema. Pretendemos realizar mais projectos destes no futuro.

       

      A Cinemateca sempre mostrou o melhor do cinema internacional. Com o recente Festival de Cinema Português, e também sendo Macau uma plataforma para os países de língua portuguesa, há algum plano para a Cinemateca Paixão trazer mais cinema independente desses países para Macau?

      Com certeza, já temos planeado para Novembro uma nova edição do Festival de Cinema entre a China e os Países de Língua Portuguesa 2024, liderado pelo Instituto Cultural, mas com a nossa curadoria. O realizador Miguel Gomes será o foco central do festival, entre outros realizadores de renome, tanto chineses como de diversos países de língua portuguesa. Ainda estamos a trabalhar quanto à sala de projecção, que deverá ser no Galaxy, mas ainda não temos isso confirmado. Além disso, ainda temos o Festival Internacional de Documentários de Macau, entre Setembro e Outubro, que terá uma sessão espacial com filmes de vários países lusófonos.

       

      Há algum projecto futuro a longo prazo para a Cinemateca Paixão? Há festivais planeados?

      Para este ano temos os festivais que mencionei, mas normalmente ao longo do ano realizamos seis festivais de cinema diferentes, que abrangem desde cinema com foco na comunidade LGBT a documentários internacionais. Entre os festivais temos os projectos “Realizador em Foco” e “Actor em Foco”, mais virado para o cinema encontrado em Macau. Este ano um dos realizadores em foco foi Cheong Chi Wai, de Macau, enquanto a actriz em foco foi Eliz Lao, também de Macau. Desde que assumimos a direcção da Cinemateca Paixão, também passámos a organizar a pequena galeria que temos no edifício ao lado, outro projecto que também será a longo prazo, com exposições ligadas ao cinema e produções cinematográficas em Macau.

       

      Em relação à associação, a CUT está envolvida em outros projectos que possam ser de interesse para o público internacional, aproveitando a onda turística actual?

      Gostava de esclarecer que existem duas vertentes da CUT, a companhia e a associação. Para um grupo participar do concurso para a concessão da Cinemateca, é preciso abrir uma companhia, que foi o que fizemos. Ou seja, quem gere o espaço da Cinemateca Paixão, desde o cinema à galeria, é a CUT Limited, sob a minha direcção. Quanto à associação, já não estou a directamente envolvida com a direcção, mas continuamos obviamente ligados, principalmente com os workshops e projectos culturais educativos organizados pela associação. Muitos dos projectos são ligados à comunidade local, mais ligados a projectos experimentais, para que jovens e crianças possam começar a estudar a produção de filmes desde cedo. Um dos projectos actuais é o “Campo de Férias para Filmagens”, que desafia jovens entre os 16 e 25 anos de idade a criar um filme em conjunto dentro de 48 horas, que depois é projectado para as outras equipas avaliarem em conjunto.

       

      Que filmes recentes indica ao público no momento?

      Entre os filmes que estão disponíveis agora, diria que “O Espírito da Colmeia”, do realizador espanhol Victor Erice, é uma obra interessante. Outro realizador que tenho adorado é o finlandês Aki Kaurismäki e o seu recente filme, “Fallen Leaves”, que projectámos em Maio. Mas convido todos os interessados a visitarem a nossa página e darem uma olhada ao que temos disponível agora no cinema, são todos filmes cuidadosamente seleccionados.

       

      Actualmente, qual é o seu filme preferido?

      Essa pergunta é tão difícil. Os meus filmes preferidos de todos os tempos, até agora, são “Wheel of Fortune and Fantasy”, de Ryusuke Hamaguchi, “Dekalog”, de Krzysztof Kieślowski, “Ikira”, de Akira Kurosawa, “All About My Mother”, de Pedro Almodóvar, “The Man Without A Face”, de Aki Kaurismäki, “The Age of Innocence”, de Martin Scorsese, “Secret Sunshine”, de Lee Chang Dong, “Summer Snow”, de Ann Hui, “Kissing the Ground You Walked On”, de Hong Hang Fai, e finalmente “Ali: Fear Eats the Soul”, de Rainer Werner Fassbinder. É sempre tão difícil responder a questões destas depois de ter visto centenas de filmes durante a minha carreira.