Uma empregada doméstica foi encontrada morta depois de uma queda da janela da casa onde trabalhava. Durante a investigação do alegado suicídio, a Polícia Judiciária descobriu que a jovem terá sido vítima de coacção grave e sequestro pela patroa, que é agente policial, e o seu namorado. Segundo a polícia, o casal suspeitou que a empregada tinha furtado dinheiro na habitação onde trabalhava, tendo interrogado a mulher durante a noite, amarrando-lhe as mãos com fita adesiva. As autoridades acreditam que a “tortura mental” do casal levou a que a trabalhadora não-residente não aguentasse a pressão, saltando da janela do edifício.
Uma agente da Polícia de Segurança Pública, de 36 anos, e o seu namorado, de 34 anos, foram detidos por suspeita de sequestrar e interrogar a sua empregada doméstica em casa durante nove horas devido à suspeita de um furto. A trabalhadora não-residente, uma jovem oriunda do sudeste asiático, foi posteriormente encontrada morta após queda de uma janela da fracção. A Polícia Judiciária (PJ) acredita que a tortura psicológica do casal fez com que a vítima tenha saltado da janela da habitação.
O alegado suicídio da empregada doméstica aconteceu a 29 de Abril deste ano, num edifício do La Marina, na Areia Preta, e foi ontem revelado pelas autoridades. Durante a investigação policial do caso, a proprietária da casa e o seu namorado indicaram à PJ que o suposto suicídio estava relacionado com a prática de um furto da empregada doméstica, relatando ter suspeitado que a jovem tinha roubado 60 mil patacas da habitação. O casal disse ter encontrado na cama da vítima os envelopes vermelhos onde o dinheiro estava guardado.
“Descreveram o incidente de forma desvalorizada”, afirmou a PJ, que realizou uma averiguação aprofundada e descobriu que havia informações ocultas no caso. De acordo com a investigação da polícia, no dia anterior ao incidente, o casal acusou a empregada doméstica de furto e confiscaram o passaporte e o telemóvel da jovem, por volta das 23h, logo que ela regressou a casa.
Nessa altura, o casal consultou o conteúdo e os registos no telemóvel da vítima e também começou a interrogá-la, até cerca das 2h do dia seguinte, altura em que a vítima admitiu o roubo. Para evitar que a empregada recuperasse o telemóvel e o passaporte, e que fugisse, o homem amarrou as mãos da vítima com fita adesiva, e saiu do apartamento com o passaporte da mesma.
A agente policial, segundo a PJ, continuou a interrogar a jovem a partir das 5h da manhã, e exigiu-lhe uma explicação e resolução do roubo. Durante esse período, a empregada doméstica entrou na casa de banho e tentou cortar-se na mão, mas foi impedida pelo casal. Voltou a ser interrogada, até cerca das 8h de manhã, e foi incapaz de resistir à pressão, segundo a PJ, entrando novamente na casa de banho. Depois, terá saltado da janela da casa de banho, caindo no terraço do prédio, onde faleceu.
TORTURA MENTAL
As autoridades afirmaram que há fortes indícios e provas de que os dois suspeitos “ocultaram deliberadamente” a verdade durante a investigação. Após terem descoberto o furto, “os dois suspeitos não recorreram aos meios adequados para apresentar queixa à polícia, tendo, em vez disso, recorrido a métodos de tortura mental, incluindo a apreensão do passaporte e do telemóvel, amarrando-a em privado para a impedir de fugir e interrogando-a durante um longo período de tempo, o que levou a falecida a não conseguir suportar a pressão e a saltar do edifício para se suicidar”, disse o porta-voz da PJ.
Além disso, a PJ esclareceu que o exame médico forense não descobriu qualquer ferimento causado por agressão no corpo da falecida, mas acredita que a jovem morreu por suicídio devido à pressão, em vez de tentativa de fuga do apartamento, uma vez que o andar da habitação situa-se num piso alto. A TNR trabalhou na fracção durante um ano, e a PJ disse também não ter mais informações sobre o estado de saúde mental da jovem.
As autoridades não especificaram a nacionalidade da vítima, mas avançaram que o país do sudeste asiático de origem da jovem solicitou à RAEM que investigue a morte da mulher, tendo a PJ comunicado às autoridades estrangeiras os resultados da investigação criminal.
Os detidos foram ontem encaminhados para o Ministério Público com possíveis acusações de coacção grave, sequestro e retenção indevida de documento.
CPSP CHOCADO E DECEPCIONADO
O Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP), em reacção a este caso, disse estar chocado com o incidente e que era “absolutamente inaceitável” que um agente policial tenha conhecimento da lei e a infringe. “O caso reflecte uma grave falta de consciência jurídica por parte da agente em causa, que passou de vítima a suspeita de crimes”, referiu o CPSP. O organismo admitiu estar “decepcionado” e garantiu que vai reforçar a formação jurídica dos seus agentes. Acrescentou o CPSP que já iniciou um processo disciplinar e ordenou a suspensão preventiva de funções à agente.
Já a PJ reiterou que o público em geral, incluindo a vítima, não tem o direito de deter e impor qualquer medida privativa ou restritiva da liberdade pessoal de qualquer suspeito de crime, excepto em caso de flagrante delito por crime punível com pena de prisão.











