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      InícioSociedadePasseios, autocarros e táxis ainda com obstáculos à acessibilidade em Macau

      Passeios, autocarros e táxis ainda com obstáculos à acessibilidade em Macau

      Vários dirigentes de associações consideraram que a acessibilidade em Macau melhorou muito, mas há ainda inúmeros obstáculos nos passeios e transportes públicos para pessoas portadoras de deficiência.

       

      A propósito do Dia Mundial da Consciencialização para a Acessibilidade, que se celebrou ontem, Fernando Carvalho contou que só aos nove anos entrou na primária. Com um ano e meio foi-lhe diagnosticado poliomielite e acabou por ser “rejeitado numa escola pública por ser deficiente”, recordou.

      Na escola católica em que ingressou, a sala de aula ficava no terceiro andar, sem elevador. “Gatinhava pelas escadas acima todos os dias e ali comecei a talhar a minha independência”, disse o português.

      O também fundador da Associação Recreativa e Desportiva dos Deficientes de Macau representou como atleta a região, então sob administração portuguesa, nos Jogos Paralímpicos de 1988, em Seul, e 1992, em Barcelona. “Foi lá fora que comecei a ver a diferença, pois Macau estava atrasado 30, 40 anos ou mais”, recordou Carvalho.

      Hoje a cidade já não está “assim tão atrasada nesse aspeto”, considerou, por seu lado, o fundador da Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC), Jorge Fão.

      O Governo tem introduzido gradualmente “uma série de estruturas nas vias públicas e até nos edifícios”, disse Fão, dando como exemplo as rampas nas passadeiras e o pavimento táctil. Mas o presidente da Associação de Promoção dos Direitos das Pessoas com Deficiência Visual de Macau (MPVIRPA, na sigla em inglês) sublinhou que ainda há muitas ruas sem este tipo de pavimento. “Podes andar pelo bairro inteiro, mas basta haver uma rua sem pavimento tátil que já não consegues continuar. Acabas por te limitar aos sítios que já conheces”, lamentou Chio U Iok.

      Já as rampas nas passadeiras são “um perigo”, porque a maioria não está nivelada, alertou Fernando Carvalho. “Caí três vezes por causa disso e uma vez estava sozinho, era de noite, para subir novamente para a cadeira de rodas foi um trabalho. Consegui porque antes era atleta e ainda tenho um pouco de força. E se fosse um outro qualquer” questionou.

      O Governo tem construído travessias aéreas nos cruzamentos mais movimentados, mas algumas não têm elevador, apenas escadas rolantes, sublinhou Carvalho. “Tenho de subir ali para dentro, agarro-me aos dois lados e quando chego lá em cima largo-me. A descer, agarro-me de costas. Mas não é nada seguro”, admitiu o antigo funcionário público.

      Em 2017, as autoridades concluíram as normas arquitetónicas para a conceção de design “universal e livre de barreiras”, e Carvalho admite não ter razões de queixa dos edifícios públicos.

      A história é diferente para os privados, como aquele onde o português falou com a Lusa. “Antes de vir para aqui fui a uma casa de banho pública, porque aqui, no café, não dá”, disse Carvalho, apontando para o acesso, com um degrau e estreito demais para uma cadeira de rodas.

      Ainda assim, o antigo paralímpico deu a Macau uma avaliação de “80 pontos em 100”, dando como exemplo a melhoria no serviço de autocarros públicos, 90% dos quais já têm rampa para cadeira de rodas, de acordo com as autoridades. Também Chio U Iok disse que os autocarros são atualmente “muito mais práticos” para invisuais, com sinais sonoros a anunciar a paragem que se segue.

      Os desafios prendem-se com a falta de informação nas paragens e com as constantes mudanças devido às frequentes obras nas ruas de Macau, lamentou o dirigente.

      Outro problema transversal é o serviço de táxis, admitiu Jorge Fão. “É complicado, seja para os associados [da APOMAC], seja para toda e qualquer pessoa que tem deficiência motora ou deficiência mental, apanhar um táxi”, disse. “Os motoristas veem uma cadeira de rodas e vão embora em vez de parar”, confirmou Fernando Carvalho, referindo que apenas uma minoria está equipada para transportar pessoas em cadeira de rodas. O português disse que a mentalidade também precisa de mudar: “As pessoas não pensam, deixam as motocicletas atravessadas no passeio, as lojas põem coisas junto às montras, do lado de fora”.

      Numa cidade com quase 109 mil scooters em circulação no final de Março, estacionar ilegalmente no passeio pode colocar em risco a vida de quem não vê, sublinhou Chio U Iok. “Andar sozinho em Macau não é seguro para um invisual. Uma pessoa acaba por precisar sempre de ajuda. Seguro mesmo só ficando em casa”, lamentou o presidente da MPVIRPA.

      Jorge Fão defendeu que parte do problema está nos 450 anos de história que moldaram as ruas de Macau, onde é “tudo muito estreito”.

      A remoção das barreiras à acessibilidade terá de ser “uma obra contínua, que tem de estar na política governamental, mas que não pode ter prazo algum”, admitiu o antigo deputado.

      Ponto Final
      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau