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      CRÍTICA

      O PASSADO NÃO EXISTE

      Oriente Próximo foi o primeiro livro que Alexandra Lucas Coelho publicou, em 2007, com chancela da Relógio D’Água. Ali se reuniam textos que resultaram das suas experiências como jornalista em Israel e nos Territórios Palestinianos Ocupados a partir de 2002, e também na temporada como correspondente do Público em 2005 e 2006. O livro que a Caminho agora publica não é exactamente uma reedição; ainda que possamos encontrar nestas páginas o que já havíamos lido nas outras, aqui há vários novos textos e alguma reescrita, o que faz deste Oriente Próximo um novo livro. Ou talvez não sejam os acrescentos e a reescrita a fazer deste um outro livro, e sim o contexto: estamos agora em 2024, dezassete anos depois dessa primeira edição, e tudo o que parecia desconcertante no processo de ocupação das terras palestinianas pelo exército israelita, tudo o que já era inaceitável para muita gente, mas não para as instituições internacionais que poderiam, de facto, ter tido uma palavra a dizer nos rumos do mundo, passou de desconcertante a absolutamente trágico.

      Lemos, então, Oriente Próximo com as notícias diárias – e sempre filtradas, uma vez que o governo de Israel só permite jornalistas na Faixa de Gaza se estes se prestarem à censura prévia – de uma população cercada, impossibilitada de fugir e diariamente bombardeada. Ouvimos dizer que não se pode falar em genocídio, porque isso seria um exagero, e ficamos sem saber que vocábulo utilizar para o extermínio deliberado de toda uma população, precisamente o que os dicionários apontam como definição dessa palavra proibida. O livro não será sobre o presente, uma vez que as situações descritas, as conversas, os protagonistas remetem para o período entre 2005 e 2007, mas são o presente, o passado e o futuro que atravessam estas páginas, clarividentes quando ao facto de ser inútil engavetar tempos quando o mundo é sempre essa coisa quântica em que esbarramos no que já aconteceu a cada nova hora e em que descobrimos lá atrás o que ainda vai acontecer.

      Nesse lá atrás, Daher Zidani tem 50 anos e abriu um café em Nazaré. Pertence a uma família muçulmana e é ele quem explica os entraves criados pelo governo israelita a qualquer forma de organização cultural ou comunitária, isto a par com o desinvestimento em educação, saúde, direitos básicos. Explica também que isso impulsiona a emigração, mais de cristãos que de muçulmanos (por razões familiares, uma vez que é mais fácil os cristãos terem familiares noutros lugares do mundo): «Este Estado não é só fascista e racista como é estúpido. Não fazemos bombas, não queremos destruir o Estado, queremos viver com plenos direitos.» (p.261) Mais adiante, escutamos Ala, um cristão vizinho de Daher: «Quando eu era miúdo, não se viam mulheres de hijab, isso é algo de há 10 ou 15 anos. Também é o resultado da situação política. Quando o Governo não toma conta das pessoas, é fácil os fundamentalismos avançarem, é muito fácil influenciar gente oprimida.» (p.263) O que a Palestina, essa geografia a que chamamos Médio Oriente e o mundo em geral já viveram depois destas frases é avassalador. Talvez seja ingénuo perguntarmo-nos por que raio não aprendemos com os erros, mas a pergunta não deixa de nos assaltar.

      Uma das mais inesquecíveis narrativas guardadas neste livro é a de Uri Orlev, sobrevivente do gueto de Varsóvia e do campo de concentração de Bergen-Belsen. É na sua casa, em Jerusalém, que conta a sua história, enquanto o texto a vai ampliando com a descrição atenta e sensível dessa casa e dos gestos quotidianos ou extraordinários que dizem tanto sobre quem lá mora. É também aí que encontramos um judeu haredim, amigo de Uri e visita frequente da casa, lugar onde pode ver televisão sem que ninguém lhe aponte o dedo por estar a quebrar os preceitos da sua comunidade. E é Uri, perseguido pelos nazis por ser judeu (ainda uma criança, nessa altura), embarcado para a Palestina depois da guerra e uma das pessoas que ajudou a cavar as fundações de um kibbutz entre Nazaré e Afula, ajudando igualmente a empurrar os palestinianos que ali viviam para outras paragens, em 1967, quem diz, a certa altura: «Quando começou a Intifada, e lutavam crianças e mulheres, de repente compreendi que o pequeno grupo de gente que dizia que tínhamos de devolver os territórios tinha razão. Sermos os conquistadores de outra nação e governá-la arruína moralmente a nossa sociedade. Não era uma guerra. Era um exército contra civis.» (p.97)

      Os muitos textos que compõem Oriente Próximo partilham esta característica de mergulharem de cabeça na complexidade – do lugar, das pessoas, do mundo. São textos que escutam, dão a palavra, procuram, muito mais do que resumem. É essa qualidade que os afasta da efemeridade, e não tanto o presente trágico a que assistimos diariamente pela televisão, pela imprensa ou pelas redes sociais. Ainda assim, e porque lemos sempre num presente qualquer, sem margem para escaparmos a ele, os textos deste livro ecoam agora de outro modo, muito para além do registo de um tempo ou da notícia que já foi. Talvez por isso a autora tenha decidido fazer reverter os direitos de autor desta edição para a família do seu «tradutor e anfitrião de muitas reportagens em Gaza», como lemos na badana. Passaram quase vinte anos e o que podia ser esperança, e a espaços era mesmo, transformou-se em horror sem fim à vista. Nunca saberemos que espécie de poder se guarda entre as linhas de um texto, mas Oriente Próximo confirma a cada capítulo que escutar, partilhar e duvidar em conjunto talvez seja a única escolha possível para a paz. A realidade insiste no contrário, mas a linguagem e aquilo que com ela fazemos ainda é coisa ao nosso alcance.