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      Queda da Evergrande pode levar a precauções acrescidas em Macau

      Um tribunal de Hong Kong determinou ontem a liquidação da construtora China Evergrande Group, uma gigante do sector no país. A empresa acumulou um passivo de 330 mil milhões de dólares americanos e já estava em incumprimento há dois anos. Ao PONTO FINAL, o economista Henry Lei afirmou que a queda da Evergrande irá fazer diminuir a propensão dos residentes de Macau para investirem no mercado imobiliário do interior da China.

       

      Um tribunal de Hong Kong determinou ontem a liquidação total da construtora China Evergrande Group, gigante chinesa do ramo imobiliário. A decisão surge após acumular um passivo de 330 mil milhões de dólares americanos, sendo que a empresa já estava em incumprimento desde 2021, depois de uma crise de liquidez devido às restrições impostas por Pequim ao financiamento de construtoras altamente endividadas.

      A queda poderá provocar pequenas ondas de choque em Macau, segundo Henry Lei. Ao PONTO FINAL, o economista e professor da Universidade de Macau comentou que a falência da Evergrande “afectará definitivamente o incentivo dos residentes de Macau para investirem em propriedades na China”. Segundo Lei, os investidores de Macau passarão a ser “muito mais cuidadosos e também conservadores na sua selecção e só escolherão projectos que tenham sido totalmente concluídos com os documentos governamentais prontos a vender”.

      Será sentido um impacto mais directo por parte de residentes que tinham adquirido acções e obrigações da Evergrande, “prevendo-se grandes perdas globais”, comentou o economista, acrescentando que quem tinha adquirido unidades nos projectos imobiliários da gigante chinesa irá previsivelmente perder os depósitos e os adiantamentos ali aplicados.

      Por fim, Henry Lei referiu que poder-se-á sentir uma perda de confiança no mercado imobiliário chinês, dada a falência da Evergrande, que “pode deteriorar ainda mais os incentivos à compra”.

      “A falência da Evergrande pode marcar o início da queda dos gigantes do mercado imobiliário chinês, por um lado. No entanto, há ainda que verificar se o Governo Central vai reconhecer a decisão do tribunal de Hong Kong e se vai fazer alguma coisa”, ressalvou o economista, sublinhando que a queda da construtora “era esperada, mas não deixa de ser uma grande notícia, reflectindo o problema dos promotores imobiliários na China e a estratégia do Governo Central da China em relação aos promotores endividados”.

       

      FALTA DE PROPOSTA DE REESTRUTURAÇÃO NA BASE DA DECISÃO

       

      A juíza do tribunal de Hong Kong, Linda Chan, afirmou que a liquidação da Evergrande é apropriada face à “falta de progressos por parte da empresa na apresentação de uma proposta de reestruturação viável”. A ordem de liquidação é susceptível de ter impacto no sistema financeiro da China, numa altura em que as autoridades tentam travar uma forte correcção da bolsa chinesa.

      A liquidação da Evergrande deve também diminuir a confiança no imobiliário, que tem vindo a cair à medida que os promotores lutam para cumprir as suas obrigações, na sequência de uma campanha lançada por Pequim para travar o endividamento excessivo do sector.

      Em Dezembro, a Evergrande obteve um breve alívio, depois de ter afirmado que estava a tentar “aperfeiçoar” um novo plano de reestruturação da dívida. Fergus Saurin, um advogado que representa um grupo de credores, afirmou ontem que não estava surpreendido com o resultado. “A empresa não se envolveu connosco. Tem havido um historial de compromissos de última hora que não levaram a lado nenhum”, afirmou. Saurin afirmou que a sua equipa tem trabalhado de boa-fé durante todo o processo e que a Evergrande “só se pode culpar a si por ter sido liquidada”.

      A Evergrande, a promotora imobiliária mais endividada do mundo, é uma das muitas empresas que se depararam com problemas quando as autoridades reguladoras chinesas tomaram medidas contra o endividamento excessivo no sector imobiliário.

      A empresa entrou em incumprimento das suas obrigações financeiras pela primeira vez em 2021, pouco mais de um ano depois de Pequim ter restringido os empréstimos aos promotores imobiliários, num esforço para arrefecer uma bolha imobiliária.

      O sector imobiliário impulsionou o ‘boom’ económico da China, mas as construtoras contraíram empréstimos avultados à medida que transformavam as cidades do país. Esta situação contribuiu para aumentar a dívida total das empresas, do Estado e das famílias para o equivalente a mais de 300% da produção económica anual, um valor invulgarmente elevado para um país de rendimento médio.

      Outros promotores imobiliários, incluindo a Country Garden, o maior promotor imobiliário da China, também se depararam com problemas, com a sua situação a repercutir-se nos sistemas financeiros dentro e fora da China.

      As consequências da crise imobiliária também afectaram o sector bancário paralelo da China – instituições que prestam serviços financeiros semelhantes aos bancos, mas que operam à margem da regulação bancária, como o Zhongzhi Enterprise Group. O Zhongzhi, que concedeu empréstimos avultados a promotores imobiliários, declarou a sua insolvência em 5 de Janeiro.

       

      NEGOCIAÇÃO EM BOLSA SUSPENSA

       

      Minutos após o tribunal ter ordenado a liquidação do grupo, a Evergrande e as suas duas filiais cotadas em Hong Kong suspenderam a negociação das suas acções. Às 10h30, as acções da Evergrande caíam 20,87%, as da filial de veículos eléctricos, a Evergrande NEV, 18,21%, e as da filial de gestão imobiliária, Evergrande Property Services, 2,5%.

      As acções da Evergrande estão actualmente a ser negociadas a 16 cêntimos de dólar de Hong Kong cada, uma queda de quase 99,5% em relação ao seu pico de 31,55 dólares de Hong Kong, em Outubro de 2017.

      Antes da audiência em tribunal, as acções já tinham sofrido quedas acentuadas de dois dígitos devido a notícias de que a última ronda de negociações entre a Evergrande e os seus credores estrangeiros tinha terminado em fracasso, com estes últimos a juntarem-se à petição de liquidação contra o promotor.