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      Início Parágrafo Parágrafo #86 Quando o noir chegou a Macau (Forbidden, 1953)

      Quando o noir chegou a Macau (Forbidden, 1953)

      Paul French

      Na década de 1940, o cinema americano explorou o fascínio do público pelo noir – histórias de cinismo fatal e ambiguidade moral onde todos são culpados, o amor raramente triunfa e o mundo é um lugar sombrio. Uma década mais tarde, Hollywood procurava combinar o noir com os locais exóticos do pós-guerra. E assim, em 1953, a Universal Pictures apostou em Forbidden. Enviaram o seu mais recente galã, Tony Curtis, para Macau (ou pelo menos para um cenário californiano que se assemelhava a Macau), no papel de Eddie, trabalhando para gangsters americanos da Costa Leste que queriam reuperar a viúva de um mafioso – Christine (Joanne Dru) – fugida para a colónia portuguesa. Mas os gangsters sabem que Eddie e Christine tiveram uma atracção fatal e por isso, um rufia domesticado, Chalmer (Marvin Miller), é enviado para Macau para se certificar de que a paixão dos dois não se reacende no exotismo tropical do território.

      Mas é claro que reacende…em grande. E num casino, claro. Mas é complicado. Christine casou com um gigolô, Justin (Lyle Bettger, que se especializou como vilão em muitos westerns), dono do Lisbon Club. Logo a abrir, Forbidden utiliza algumas boas imagens da zona ribeirinha de Macau, mas o Lisbon Club/casino é um cenário – embora em estilo marcadamente decorativo, árvores bonsai de jade e raparigas chinesas que fumam cigarros. Christine está a viver com Justin no topo da Colina da Penha que, em Forbidden, é mais Hollywood Hills moderna do que Português Suave.

      Entre Eddie, Christine e Justin constrói-se uma relação a três, ligeiramente rebuscada, que faz lembrar a que existe entre Rick, Ilsa e Victor Laszlo no muito mais bem sucedido Casablanca, uma década antes, filme que oferece muita inspiração a Forbidden. Há até um pianista com veia de filósofo e cheio de conselhos, à la Sam, no Rick’s Café, a tocar uma música que já foi a favorita de Eddie e Chrstine em Filadélfia, na altura em que estavam apaixonados. Quem tiver olhos de águia verá que se trata de um papel maduro de Victor Sen Young, que apareceu como o “Filho Número Dois” de Jimmy Chan em tantos filmes de Charlie Chan anteriores à guerra. Há também uma participação especial da actriz sino-americana Mai Tai Sing no papel de Soo Lee, a cigarreira do Lisbon Club, sempre à escuta. Na vida real, Sing foi uma antiga dançarina de um clube nocturno da Chinatown de São Francisco, que fez alguns filmes de outro tipo.

      A vida no Lisbon Club torna-se inevitavelmente claustrofóbica – dois é bom, três demais, como diz o velho ditado. Eddie acha a situação entre Christine e Justin intolerável. Ainda está apaixonado e quer que ela seja só sua! Mas é também o efeito de Macau. Ao observar a multidão de jogadores chineses e europeus, amantes secretos, aventureiros e pequenos criminosos no Lisbon Club, Eddie reflecte sobre Macau: «Não podemos deixar de nos perguntar o que os trouxe cá? O que é que os mantém aqui? Para mim, foram 20.000 dólares e uma mulher. E para eles?» Para Chrstine, foi a procura de um “cavalheiro”, depois de tantos malandros no seu país. Embora Eddie também seja claramente um patife, ainda que bonito. E claro que ela depressa descobre que, por mais velhaco que seja, é Eddie quem realmente gosta dela e que Justin, apesar dos seus modos elegantes, montes de patacas e um carro desportivo vistoso, não é um cavalheiro.

      Porque é que Forbidden não foi um grande sucesso de bilheteira? É um filme B noir perfeitamente eficaz. Curtis estava claramente a caminho de se tornar uma estrela, embora ainda faltassem alguns anos para poder mostrar ao mundo que realmente sabia representar, em Sweet Smell of Success e The Defiant Ones. Infelizmente, Joanne Dru nunca chegou a entrar na grande ligas das actrizes principais, nem a sair da categoria de filme B. Mas foi uma grande heroína noir: uma bela mulher madura que transpira experiência de vida e sabe exactamente o que quer. Poderia ter-se classificado entre as rainhas do noir – lembremo-nos de Barbara Stanwyck ou Joan Crawford. Dru não era uma femme fatale burra ou uma acompanhante, mas o guião não lhe dá qualquer oportunidade de nos mostrar aquilo de que é capaz.

      Como costumo perguntar nestas crónicas, o que é que Forbidden, uma efeméride de filme B descartável como certamente é, tem para nos dizer sobre Macau? Depois da guerra, Hollywood procurou novos locais para fazer filmes noir. A indústria precisava de lugares onde pessoas duvidosas pudessem arrecadar dinheiro, entrassem e saíssem com facilidade, a lei fosse fraca e a moral pouco sólida. Muitas das antigas cidades conotadas com essa ideia de pecado estavam em ruínas, ou o mundo tinha mudado – Berlim de Weimar, Tóquio antes da guerra, Xangai, outrora libertina, mas agora fechada. Por isso, tentaram novos lugares – Rita Hayworth e Glenn Ford foram para Buenos Aires em Gilda; Orson Welles, Charlton Heston e Janet Leigh foram para a fronteira suja entre os EUA e o México em Touch of Evil. E alguns filmes, como Forbidden, escolheram Macau. Encaixava no ideário, sem dúvida. É uma cidade noir…. era na altura, é agora.

      Forbidden está disponível no Youtube.

      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau