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      Início Sociedade Macau na agenda de JFK

      Macau na agenda de JFK

      Sem surpresa, Macau raramente esteve entre as preocupações de John F. Kennedy numa curta presidência que não chegou a três anos. Ainda assim, o território então ainda sob administração portuguesa surge referenciado em vários documentos ligados à carreira política de JKK, alguns dos quais antecedendo mesmo a sua chegada à Casa Branca. Eis uma lista dos processos mais importantes. Ou invulgares.

       

      1951 – Enquanto congressista, fez uma primeira viagem a vários países asiáticos. Nos documentos preparados para a visita, constava a informação de que Hong Kong começara já a cortar o fornecimento de produtos estratégicos à República Popular da China, por força do embargo relacionado com a guerra da Coreia, enquanto Macau se esforçava por preencher essas lacunas, mesmo estando também obrigado a respeitar o embargo. Borracha do Ceilão, petróleo da Indonésia e de Timor-Leste, algodão do Paquistão e vários bens da Alemanha e da Europa de Leste, passavam de Macau para a China sem que os EUA o conseguissem evitar. Anos mais tarde, com JFK já na Casa Branca, as exportações de bens estratégicos para os países do bloco socialista estariam ainda sujeitas a controlo, mas as restrições já não tinham o mesmo rigor.

       

      1953 – Uma eleitora de Boston pede-lhe que interceda no caso de Michael Patrick O’Brien, aparentemente de nacionalidade irlandesa, que andava há meses sem conseguir deixar o ferry que fazia a ligação entre Macau e Hong Kong, por falta de documentos de viagem ou de cidadania. JFK recusou-se a fazê-lo. Depois de várias consultas, concluiu que “o cavalheiro em questão nasceu na Hungria, não é cidadão dos Estados Unidos, e é aliás procurado neste país por crimes de assalto e roubo.” O congressista de Massachusetts estranhava também que o indivíduo em questão respondesse igualmente pelos nomes de Steven S. Radan e Robert Stevenson. E, terminava com uma nota de ironia, sugerindo que a eleitora investigasse se ele estaria de alguma forma “ligado aos O’Brien húngaros”. É neste caso que se baseia o filme Ferry to Hong Kong, de 1959, que conta no elenco com Orson Welles. Na vida real, O’Brien deixou o ferry ao fim de 315 dias de viagens quase ininterruptas entre Macau e Hong Kong. Com a ajuda das autoridades da colónia britânica, embarcou num navio de maior porte com destino ao Brasil.

       

      1961 – JFK recebe na Casa Branca Chen Cheng, vice-presidente de Taiwan, com quem os Estados Unidos mantinham ainda relações diplomáticas. O dirigente nacionalista diz continuar a acreditar na retoma do poder na China Continental. Fala num exército de 30 mil homens que lhe são leais dentro de território chinês, onde são contactados por agentes baseados em Macau e Hong Kong. Em 1962, Pequim reforça a pressão sobre o governo de Macau para que impeça acções subversivas do Kuomintang a partir do território. Mas Chiang Ching-kuo, filho do líder de Taiwan, Generalíssimo Chiang Kai-shek, e responsável pelo aparelho de segurança, informa a CIA em Agosto que as acções bombistas das semanas anteriores na fronteira chinesa são da responsabilidade do KMT e irão continuar, estando mesmo previstos mais 5 atentados para os dias seguintes. Em Setembro, o Departamento de Estado exige ao governo de Taipé que termine as actividades terroristas, em reacção a insistentes apelos nesse sentido das autoridades de Macau e Hong Kong. Simultaneamente, assiste-se ao agudizar das tensões entre a China e a União Soviética, que acusa Pequim de falhar as suas responsabilidades revolucionárias ao não recuperar o controlo sobre as colónias de Macau e Hong Kong. A Administração Kennedy manifesta o receio de que, a par das actividades do Kuomintang, a pressão de Moscovo provoque a China a desencadear uma operação militar. Macau seria o alvo mais óbvio.

       

      1962 – As políticas Grande Salto em Frente, que procuravam levar a industrialização ao mundo rural chinês, resultam em graves carências alimentares em toda a China. Em Macau e Hong Kong, o empresário macaense Jack Braga procura ajudar a resolver o problema, a pedido das autoridades chinesas. Contacta empresas americanas exportadoras de cereais e reclama total sigilo: Pequim não quer extrair dividendos propagandísticos de uma transacção comercial com os EUA, mas também não quer ser vítima de eventuais campanhas de propaganda. A situação de fome agrava a crise de refugiados nas fronteiras de Macau e Hong Kong. Dados das Nações Unidas apontam para a existência de mais de um milhão de refugiados nas duas colónias. Ho Yin, líder da comunidade chinesa de Macau, desloca-se a Hong Kong para intermediar negociações entre a administração britânica e as autoridades de Cantão. Há dias em que mais de 5 mil pessoas entram ilegalmente em Hong Kong. Ao conhecimento do presidente Kennedy chega, entretanto, um dado novo: com o reforço do controlo na fronteira da colónia vizinha, é para Macau que se desvia o grosso do fluxo dos refugiados. O governo de Lisboa reclama apoio financeiro das Nações Unidas para projectos destinados ao seu acolhimento. E Washington aprova. Mas o problema da sobrelotação de Macau estará muito longe de se encontrar resolvido quando acaba, de forma brutal, a presidência de JFK.

       

       

       

       

       

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      Redacção do Ponto Final Macau