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      Augusto Nogueira diz que é natural haver um ligeiro aumento da toxicodependência no primeiro semestre do ano  

       

      Para Elsie Ao Ieong, o aumento de 15% de consumidores de drogas como “ice” ou ketamina na primeira metade do ano é um “desafio” a acompanhar de perto, mas na experiência do representante da ARTM, estes valores pós-pandemia não surpreendem. Augusto Nogueira acredita até que muitas destas pessoas são consumidores reincidentes que agora têm oportunidade de consumir depois da abertura das fronteiras.

       

      Foi durante a sessão plenária da passada terça-feira que se abordaram os últimos dados revelados pela Comissão de Luta contra a Droga, com Elsie Ao Ieong a mostrar-se preocupada com o ligeiro aumento do consumo de drogas ilícitas na primeira metade do ano. “Com o retomar do normal funcionamento das fronteiras entre as diferentes localidades, o problema de consumo de drogas transfronteiriço voltou a aparecer. A percentagem relativa ao abuso do álcool e de medicamentos prescritos também tem vindo a aumentar, o que é uma situação que merece a nossa atenção”.

      Ao PONTO FINAL, o representante da Associação de Reabilitação de Toxicodependentes de Macau (ARTM) contextualizou a situação, dizendo que é expectável que tenha havido uma ligeira subida do número de toxicodependentes no território. “Acho que é um aumento pouco significativo, cerca de 15%. No primeiro semestre de 2022 houve no mesmo período 53 casos, e neste ano, no mesmo período, houve 61 casos, é um ligeiro aumento. Temos de ver que este ano, fim ao cabo, é o primeiro ano em que as fronteiras estão abertas, portanto, é um pouco natural que haja um pequeno aumento no consumo”, analisou.

      Augusto Nogueira acrescentou até que estes dados, se calhar, são até de pessoas com um historial, e não representam actuais novos consumidores. “Se calhar muitas destas pessoas já consumiam há mais tempo e só agora foram procurar ajuda ou foram interceptadas pela polícia”. Os toxicodependentes registados são na sua maioria do sexo masculino, com uma média de 42,7 anos de idade, mas, como indicou o representante da ARTM, os números reais, esses, nunca saberemos. “Certamente haverá muitas pessoas a consumirem e que ninguém sabe, só elas. Às vezes nem as famílias sabem. Essas pessoas só se veem a descobrir por algum acidente, ou porque foram interceptadas pela polícia, ou porque decidiram pedir ajuda”.

      Dos casos que são inseridos no Sistema de Registo Central dos Toxicodependentes de Macau, com 23,4%, a maioria são casos de consumo de metanfetamina (ice), seguindo-se a ketamina, com uma percentagem de 10,4%, e a cocaína, de 9,1%. Mais de 74% dos utilizadores destas drogas consomem-nas em Macau, com quase 80% destes a escolherem a casa, a casa de amigos e hotéis para realizar estes consumos. “Neste momento, o maior consumo tem sido a metanfetamina, portanto, todos esses dados são importantes para sabermos como trabalhar na área de prevenção e como ajudar as pessoas. Uma coisa é ajudar pessoas com problemas de heroína, para as quais existe medicação, e outra é ajudar pessoas com problemas de metanfetamina para a qual não existe medicamentos de substituição”, explicou o responsável. Para acompanhar pessoas com dependência de ‘Ice’, o tratamento “é feito à base de terapia cognitiva. Depois, eventualmente, existe alguma medicação, no caso da pessoa estar hiperactiva, ou com ansiedade. É preciso combater esses factores com medicação, mas a nível psicológico é com acompanhamento cognitivo”, esclareceu.

      Quanto ao consumo entre jovens com menos de 21 anos, neste primeiro semestre houve uma queda de 66,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, uma descida positiva. Para Augusto Nogueira, é sempre boa ideia apostar em campanhas preventivas, algo que o Instituto de Acção Social e a Comissão de Luta contra a Droga pretendem continuar a apostar no próximo ano, com programas de actividades de prevenção e tratamento de drogas, centralizados na saúde física e mental e na aptidão física dos jovens. “Medidas de desporto e cultura onde os jovens possam exercer as suas capacidades ou encontrar os seus valores são sempre positivas”, reiterou o representante da ARTM. “Obviamente é muito melhor um jovem estar ocupado com coisas positivas do que estar sem fazer nada ou aborrecido, o que o pode encaminhar para o consumo de álcool ou de droga. Todo esse tipo de actividades são sempre positivas para que os jovens possam ter opções saudáveis, sejam elas físicas ou culturais”.

      A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura destacou que há este ano “um certo nível de desafio” também quanto ao aumento do abuso de medicamentos prescritos. O especialista no terreno falou-nos destes casos. “Da nossa experiência na ARTM já tivemos várias pessoas com dependência de Xanax e das benzodiazepinas, medicamentos que são bastante aditivos e perigosos quando se faz a desintoxicação. Neste momento, a maior parte destas pessoas com adição aos ‘benzos’ já tinham dependência e injectavam heroína, e agora, devido à escassez de heroína, estão a injectar lorazepam, o chamado dormicum. Estamos a ajudar várias pessoas com esse problema e temos outras no nosso programa de resolução de danos, em que estes continuam a injectar o dormicum, e nós tentamos ajudar a que elas o deixem de o fazer, devido às partículas que podem bloquear as veias e assim. Mas sim, é um problema de longa data”, referiu.

      Quanto à cocaína, Augusto Nogueira partilhou que o tráfico desta substância entre jovens é outra situação que merece vigilância por parte das autoridades, agora que as fronteiras abriram. “A cocaína esteve bastante parada durante a Covid devido às fronteiras terem estado fechadas, mas suponho que possa vir a subir”. Segundo o responsável, antes da epidemia havia muitos jovens a trazer esta substância de Hong Kong para cá, “julgando que estavam isentos de ir para a prisão, o que não é verdade, porque podem ir para o instituto de menores”, argumentou. Havendo um reinício desta actividade, há uma necessidade de fazer mais trabalhos preventivos dos dois lados da fronteira para informar estes jovens, sugeriu.