
Dora Gago
A outra margem
Não aguenta mais. Doem-lhe os pés no desespero de horas devoradas naquele vaguear sem rumo, analfabeta de um mundo, sem legenda possível. Limpa as lágrimas, respira fundo e aproxima-se de uma tenda avermelhada onde se vendem balões. Retoma o mesmo gesto, repetido dezenas de vezes antes, para mostrar ao vendedor o cartão com o endereço do hotel escrito em chinês. O homem ainda faz uma pesquisa no telemóvel, mas depois encolhe os ombros e devolve-lhe o cartão. Está exausta, já percorreu vezes sem conta as ruas prenhes de gente, naquele que é um dos cinquenta ilhéus do Lago West, em Hangzhou. A misteriosa, hermética China tão difícil de entender para uma europeia quase sem domínio de mandarim. O cenário, que parecia paradisíaco à chegada, enche-se de outras tonalidades, escurecendo com a descida progressiva da noite. Perdida, de mãos dadas com o desespero, continua a percorrer as pontes sem olhar sequer para as flores de lótus, agora meros espectros flutuantes. E se não conseguir encontrar o caminho de regresso ao hotel? Está sozinha, com um telemóvel sem bateria. Mesmo que a tivesse, a quem poderia ligar? Imagina-se ali para sempre, até ao fim dos seus dias, a vaguear, imparável, sem rumo, naquele retalho de mundo, longe de tudo o que ama e conhece. Ninguém a quem telefonar para pedir ajuda sequer, ninguém que lhe possa valer. Sozinha no meio de uma multidão de turistas indiferente. Relembra vagamente a lenda em torno da Ponte Quebrada, a história da Serpente Branca, transformada em Bai Suzhen, uma linda mulher, que ali se reencontra com o jovem Xu Xian. Apaixonam-se, casam-se, mas depois começam as peripécias, como é costume – não apenas nas lendas e na ficção, mas também na vida real. Imagina-se transformada em serpente branca ou em carpa, a vaguear por ali indefinidamente para além do tempo…
As horas passam. Aborda mais gente, mostra o cartão com o mapa e o endereço. Há quem abane a cabeça num gesto de displicência, para despachar, para a afastar imediatamente, pois há mais que fazer. Há quem se esforce por procurar no telemóvel e o resultado pode ser uma bolinha vermelha, rodeada de misteriosos caracteres, no meio de nada que consiga identificar, ou uma vaga indicação com a mão para o lado direito ou esquerdo que parece aleatório.
Compreende agora a loucura que foi ter-se aventurado para ali sozinha. Só passaria o fim-de-semana, não conseguiu arranjar nenhum guia no hotel. Após a travessia bem-sucedida da floresta de bambus, debaixo de chuva, numa espécie de percurso iniciático abençoado pelos céus, enchera-se de confiança. O problema foi ter pensado que o passeio de barco no West Lake terminaria no cais de partida e não algures num outro ponto desconhecido. Lembrou Paul Theroux que, na Arte da Viagem, aconselha os viajantes a escolherem o país, servirem-se de guias de viagem com o intuito de identificarem as zonas mais frequentadas por estrangeiros, para depois irem em sentido contrário. Na verdade, ela é ali uma das raras ocidentais, naquele bulício de gente, mas não lhe foi útil o conselho.
Recorda o seu fascínio, ao ver uma foto de Hangzhou na revista de uma companhia área, num dos últimos voos feitos. Quis, na primeira oportunidade, visitar aquela cidade-jardim da China. Entretanto, a escuridão embrulha as formas no seu xaile negro. Parece ter descido ao verdadeiro reino das sombras. Sente que acabou. Pode ficar ali dias, semanas, meses a vaguear… o que acontecerá quando derem pela sua falta no local de trabalho? Antevê o desespero da família, do outro lado do mundo, sem as usuais notícias de fim do dia a dizer que está tudo bem, que vai dormir. Não, naquele momento, não está tudo bem e duvida que consiga dormir tão cedo. De súbito, no meio das trevas, surgem dois rostos ocidentais – talvez norte-americanos acompanhados por uma guia chinesa. Corre atrás deles, aquela rapariga forçosamente falará inglês, nela mora a esperança. Mostra o cartão do hotel, pergunta onde apanhar o barco para chegar àquele lado… A guia também não sabe, mas pede licença ao casal que acompanha, pedindo que a esperem por uns minutos. Dispõe-se a ajudar e, apesar de ser falante nativa de mandarim, pergunta a várias pessoas, até conseguir descobrir o cais. Finalmente, entra para o barco certo, mais grata do que qualquer palavra possa expressar. Sente o corpo a tremer, como se tivesse sofrido uma descarga eléctrica. Do outro lado, vê as luzes do cais de partida a aproximarem-se. Sabe que agora estará a salvo, liberta, próxima de um espaço que os pés já pisaram e dominaram antes. Como as personagens das lendas chinesas condenadas a uma prisão subterrânea, de onde, através de peripécias heróicas acabam, às vezes, por ser salvas, também ela escapou de um espaço labiríntico e aprisionador de quem não lhe domina as coordenadas, nem a linguagem, nem os sinais. O preço pago por teimar, na sua solidão, em desvendar aquele lugar hermético, desafiar as barreiras da comunicação, por onde extravasam os rios da diferença.
Pisa aquele chão já vagamente familiar. Do outro lado, Bai Suzhen continuará a lutar indefinidamente por Xu Xian no seu tempo mítico, marchetado de amor e eternidade. Ela escapou do labirinto, do universo intraduzível, sem legendas, e sabe agora que está onde deve estar, rumo ao colo do quotidiano, na margem certa da vida.






