Música tocada ao vivo apenas através do processo criativo humano, ou música criada através do recurso à tecnologia IA, que sentimentos e juízos de opinião provocam estas duas realidades e processos criativos? É este o questionamento a que o “Concerto IA” da exposição “Segredo da Flor Dourada” se propõe, convidando cinco músicos locais e internacionais a partilhar as suas criações e processos criativos, interagindo também com o público presente. O concerto inserido na Bienal de Arte decorre no pátio do Albergue este sábado, às 18h30.
A inglesa Liza Bec planeava seguir uma carreira profissional como flautista quando um ataque de epilepsia lhe mudou a vida. Descobriu que tinha uma forma de epilepsia extremamente rara, a epilepsia que é desencadeada através da audição, ou no caso dela, da execução de música. Mas a jovem artista em vez de aceitar que não poderia nunca mais pegar num clarinete, procurou explorar os limites da sua condição, aprendendo a evitar o escalar dos surtos epiléticos, e pegando até nesses “erros”, nesses “glitches”, e incorporando-os na sua música. Ao colaborar com o músico electrónico James Holden, deparou-se com novas possibilidades tecnológicas e criou o ‘roborecorder’, um instrumento inovador que a ajudou a transcender o seu ‘handicap’. A história de Lisa Bec é uma das várias que serão apresentadas no “Concerto AI” agendado para amanhã, às 18h30, no Albergue da Santa Casa da Misericórdia.
Ao PONTO FINAL, Jocelyn Chan, a curadora do concerto de entrada gratuita, esclareceu que este faz parte do projecto artístico “Segredo da Flor de Ouro”, um dos projectos locais apoiado pela Bienal de Arte, e que, como tal, o conceito da exposição patente no Albergue estende-se ao conceito do espectáculo. “Nesta exposição queremos, em suma, propor o seguinte questionamento: como irá a mudança tecnológica alterar o nosso destino? Na exposição temos dois artistas que exploram as suas observações do mundo actual. Esperamos fazer com que o público consiga ir para além da fachada da tecnologia IA, e ver o que se passa de facto, por detrás desta impressão inicial. Portanto, com esta exposição, e mais especificamente com este concerto, pretendemos demonstrar como músicos estão a usar a tecnologia IA de formas tão diferentes, e explorar quais são os sentimentos que daí advêm”. Recordando o exemplo de Liza Bec, Jocelyn Chan acredita que o público presente irá certamente viver emoções diferentes durante as actuações das várias composições dos cinco músicos, e que “algumas pessoas irão possivelmente ficar emocionadas com a forma como alguns músicos gerem as suas limitações”, como o fez Liza Bec.
No entanto, a ideia não é a de criar empatia pela tecnologia AI. Muito simplesmente, os organizadores de projecto artístico “Segredo da Flor de Ouro” querem “dar uma ideia das possibilidades dos usos da tecnologia AI no processo criativo, e também permitir às pessoas presentes que reflictam sobre essa temática”.
Os cinco músicos convidados para este concerto de IA incluem dois de Macau, e três músicos internacionais. Quanto aos ingleses Lisa Bec e Heardman, e a chinesa Xiyao Chen, a responsável esclareceu que estes prepararam vídeos em que explicam os respectivos processos criativos, vídeos esses que irão ser exibidos antes de se apresentarem as criações musicais de cada um.
Addison Wong e Kuan Pou Pun, músicos de Macau, vão estar fisicamente presentes no concerto, e vão também explicar ao público o processo criativo. “Os músicos de Macau vão também ter um lado interactivo durante as suas actuações. Kuan Pou Pun, por exemplo, vai tocar mas também interagir com o público, criando música nova ao vivo. Ele vai perguntar algumas perguntas ao público, e depois com estas informações irá obter algumas palavras-chave. Estas serão depois inseridas no computador, e o modelo IA irá criar algo a partir desse input. O músico pegará depois nessas novas criações, improvisando com estas, e criando novas músicas”, esclareceu. Que tipo de palavras serão utilizadas, procurámos saber, ao que a responsável, sorrindo, respondeu que não sabe, já que “tudo dependerá do que o público irá dizer”.
O músico Addison trará consigo o seu piano electrónico, mas também, quis destacar a organizadora, irão haver instrumentos criados pelos próprios músicos, como é o caso de Lisa Bek, e outra artista, a chinesa Xiyao Chen, talvez não vá recorrer sequer a nenhum instrumento. “É muito interessante ver a forma como músicos diferentes possuem formas diferentes de criar música recorrendo à tecnologia IA”. Quanto à língua escolhida para o concerto, esta será maioritariamente em cantonense, à excepção das prestações dos músicos internacionais, cujos vídeos originais estão em inglês, indicou Jocelyn Chan. “A música, claro, não terá língua, é apenas música”, acrescentou.












