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      “Macau é interminável. De uma riqueza fatal”

       

      Francisco José Viegas está de volta a Macau. No âmbito do Festival Literário Rota das Letras, o autor e editor vem ao território falar dos seus mais recentes policiais, “Melancholia” e “A Luz de Pequim”, bem como apresentar “O Jogo das Escondidas”, romance póstumo de Fernando Sobral, e “Jornadas pelo Mundo”, do Conde de Arnoso. Em entrevista ao PONTO FINAL, Francisco José Viegas compara Macau com um cenário de filme e descobre na cidade “uma riqueza fatal”. O autor admite que a ideia de escrever um livro sobre Macau ainda está viva.

       

      À boleia do Festival Literário Rota das Letras, Francisco José Viegas está de volta a Macau. Hoje, pelas 18h30, na Casa Garden, o autor, jornalista e editor apresenta “O Jogo das Escondidas”, romance póstumo de Fernando Sobral, e “Jornadas pelo Mundo”, do Conde de Arnoso. Amanhã ao início da tarde, também na Casa Garden, fala sobre dois dos seus mais recentes romances policiais, “Melancholia” e “A Luz de Pequim”. Em entrevista ao PONTO FINAL, Francisco José Viegas fala da importância de Macau para Fernando Sobral e recorda a passagem do Conde Arnoso pelo território. O autor afirma que Macau tem “uma riqueza fatal”, com “uma fonte inesgotável de histórias”. Também por isso, Francisco José Viegas mantém a ideia de escrever um livro cuja história se passe em Macau.

       

       

      Esteve em Macau para a edição de 2015 do Festival Literário – Rota das Letras. O que recorda dessa passagem por Macau?

      Eu já tinha estado antes em Macau e a minha impressão foi sempre a mesma – acho que desta vez será igual. Para os que só vêm a Macau e, portanto, não conhecem Macau, a cidade só pode ser vista como o cenário de um filme, talvez por não conseguirmos explicar quase nada dela, ou por pressentirmos que estamos sempre rodeados de uma grande série de mistérios. Os mistérios da história (porque, em Portugal, continuamos a ignorá-la), os do lugar, os das várias comunidades, os das ruas onde quase nunca se entra, os das personagens que fizeram história, os das pessoas que se perderam e se tentaram encontrar… Quando venho, tento sempre absorver o maior número possível de histórias, de episódios, de coisas que me contam. Nunca é suficiente. É claro que há sempre aquela visão das pessoas que vêem Macau como o último ponto perdido de um velho império que nunca existiu realmente, mas não tenho ilusões sobre isso: nunca ligámos muito a Macau, nunca o vimos como parte da China nem como parte de Portugal. Leio, leio, leio bastantes coisas sobre Macau e fico sempre convencido de que cada vez sei menos sobre o assunto, porque há centenas de histórias que gostaria de contar – estou a falar como romancista, porque o cenário ajuda – mas falta uma coisa essencial: o roteiro das memórias pessoais, o dos cheiros de cada rua, o dos episódios que quase ninguém conta. Esses interditos constroem parte essencial da história de Macau, pelo menos da que me interessa. Às vezes é um cenário fora do tempo, fora do mundo. De outras vezes é apenas o cenário mais superficial, o da indústria do jogo, o da actualidade – e que não basta.

      Como viu esta oportunidade para voltar a Macau?
      Como uma oportunidade de continuar a surpreender-me. Acho que Macau é interminável. De uma riqueza fatal. Uma fonte inesgotável de histórias – e de História. Acho que, ao longo de quinhentos anos nunca soubemos abrir realmente as portas para “o Oriente”. Uma pena. Por outro lado, é uma oportunidade para rever alguns amigos, rever o Ricardo [Pinto], rever a Livraria Portuguesa, a comida – não percebo como não existe um restaurante de comida macaense em Lisboa -, a Taipa velha. E é uma oportunidade para encontrar pessoas que estão a meio da ponte, da ponte com a China, com a Ásia, com a memória da Europa.

      Quão importantes são iniciativas como este Festival Literário Rota das Letras para a difusão da literatura, nomeadamente em língua portuguesa, no mundo, no seu entender?
      Macau é uma espécie de plataforma entre dois mundos, ou entre vários mundos. O papel da Livraria Portuguesa é fundamental. O papel do Rota das Letras tem sido importantíssimo para trazer autores de língua portuguesa que podem levar com eles esse aroma indeterminado que faz parte de Macau, da sua história e da sua vida de hoje. É uma pena que o não façam mais.

      Vem apresentar “O Jogo das Escondidas”, romance póstumo de Fernando Sobral sobre Macau. Qual é a Macau que Fernando Sobral mostra neste romance?
      Macau foi uma memória importante na vida do Fernando. A certa altura, suponho eu, salvou-o. Quer dizer, a meio de uma doença, na idade madura, Macau foi para o Fernando essa porta de que eu falava – uma porta para “o Oriente”, para a cultura chinesa, para o passado. Os seus romances falam muito desse período, o início e a primeira metade do século XX, que são matéria para vários filmes e livros, sobre a forma como a história do mundo se cruzou com a história de Macau – os atrevimentos e deslizes políticos, as oportunidades perdidas, o fim do padrão-ouro, o ópio, a ligação a Hong Kong, os portugueses que se sentiam perdidos por aqui. Ele tentou muito refazer essa ponte com Macau. Com entusiasmo, muita sensibilidade, ironia e amor. Que são coisas fundamentais.

      Como foi editar este livro?
      Doloroso. Queríamos publicar o livro um ano depois da sua morte. A Cristina Azedo, a sua mulher, entregou-nos o livro que ele tinha acabado de rever alguns dias antes de partir, antes de morrer, e saber isso foi muito doloroso. Tivemos a ajuda da Cristina e do Manuel Falcão, e acho que resultou uma edição muito bonita. Também foi uma oportunidade para lhe agradecer esse trabalho derradeiro, o de tentar explicar Macau ou aquilo que Macau foi para esses portugueses sem eira nem beira que chegavam a Macau e cegavam em Macau. Eles também não entendiam esse lugar fora do mundo. De qualquer modo, o Fernando quis que essa história fosse publicada e demos o melhor de nós no trabalho de edição. Acho que ficou um belo livro.

      Também vem apresentar a edição de “Jornadas pelo Mundo”, de Conde de Arnoso, um relato de viagem do século XIX, que passa também por Macau. Como é a Macau – e, num sentido mais amplo, toda esta região da Ásia – que Conde de Arnoso nos mostra neste livro?
      A passagem do Conde Arnoso por Macau é muito interessante e já foi muito tratada por investigadores macaenses e portugueses. Ele não podia ver Macau senão daquela forma: como uma espécie de ilha portuguesa à beira da China, uma espécie de recordação do Portugal antigo e cheio de heróis, de Camões, de padres que criaram igrejas e colégios, de segunda vida do governador Ferreira do Amaral, etc. Era um homem daquele tempo, não lhe podemos pedir que fosse um homem do nosso tempo, com as nossas preocupações e a nossa ideia de história e de civilização. E o “Jornadas pelo Mundo” é o relato de uma viagem fabulosa, de Marselha a Pequim, passando pelo Suez, por Port Said, Adem (quase se cruzou com Rimbaud…), Singapura, Hanói, Hong Kong, Tianjin, Pequim… A sua reacção é a de um europeu cosmopolita e elegante, um dândi português, diante de uma terra desconhecida. Quando chega a Xangai ele percebe que está como os antigos cartógrafos nos seus mapas: “Daqui em diante só há dragões”. Vê uma capital destruída pelas guerras do ópio, visita os lugares fundamentais, tenta fazer uma geografia da presença portuguesa em Pequim, anota as suas embirrações (nunca poderia entender a Ópera de Pequim…).

      Como é que, ao longo dos séculos, esta zona do mundo se alterou?
      Na literatura portuguesa da época, pelo menos até 1920, além do fascínio de Pessanha e Wenceslau de Moraes, só há dois textos que entendem a importância da China e da região: um de Eça de Queirós, “A China e o Japão”, um longo texto que foi pouco lido em Portugal, uma espécie de diatribe contra os preconceitos anti-chineses na Europa, e que já via a China como o futuro do mundo. Falava do espírito trabalhador chinês, da demografia, da capacidade de improvisar e de se sacrificar, e de como “o Ocidente” ignorava essa promessa. Esse Eça, que como cônsul em Cuba, se tinha preocupado muito com a sorte dos “cules”, dos emigrantes chineses, nunca foi lido em Portugal. Foi pena. O outro texto é “Jornadas pelo Mundo”. Arnoso, que visitou Pequim durante os dias da imperatriz Ci Xi, percebeu as sombras que pairavam sobre aquela decadência da dinastia Qing (e sobre o processo que, desde o século XVII tinha fechado o país), anotou o excesso de cerimonial, os níveis indescritíveis de pobreza, conheceu pessoas fantásticas (ficou fascinado por Li Hongzhang) – mas, mesmo sem poder explicá-las, advertia no final do livro: a China vai ser a economia do futuro. Respondendo directamente à sua pergunta, acho que a China e esta parte da Ásia estão a redescobrir o seu papel na geopolítica e na economia mundiais – e a ocupar o seu lugar. Basta estudar um pouco da história da China para o perceber. Para quem se recorda desta parte do mundo no final da década de 70, era importante perceber que em 40 anos o mundo mudou e a China mudou ainda mais. E, com as batalhas tecnológicas que se avizinham, acho que as mudanças serão ainda mais radicais. Portugal, que é um sítio pequeno, ainda mal discute esse processo. É o habitual.

       

      Vem a Macau também falar sobre os seus livros “Melancholia” e “A Luz de Pequim”, dois policiais. O que nos pode dizer sobre os livros? Os policiais são o seu género favorito?

      O policial foi o género que escolhi para contar histórias sobre Portugal. Na verdade, o policial é um género cristalizado, muito conservador, cheio de regras, muito trabalhoso – mas permite-me brincar com a sua própria natureza para falar de um país provinciano, pobre, convencido, dominado por oligarquias e endogamias, pelas famílias tradicionais, por políticos que se acham donos daquilo tudo pro direito natural, tudo isso através das histórias investigadas por Jaime Ramos, que é um polícia um bocado atípico, ex-comunista, céptico, pessimista, ligeiramente conservador, um homem livre num país cheio de compromissos e de deslumbrados. Acho que o facto de os livros serem considerados “policiais” os prejudicou bastante. A “literatura policial” é considerada uma espécie de má companhia. Isso agradou-me muito, a princípio. Depois, com a idade, percebi que podia ter feito “outra coisa”. Mas não me tinha divertido tanto, não é? Não tinha podido falar de famílias de banqueiros, de políticos, de escritores, de pequenas ofensas, de vaidades avulsas, enfim, daquela coisinha portuguesa. Porque eu gosto muito de Portugal. Mas, como muitos portugueses, preferia que fosse outro país e não estivesse entregue a gente que preza sobretudo o seu poder, a sua vaidade, a sua classe social, os amigos de sempre, o reconhecimento social… Essa é uma das razões por que Portugal é muito agradável, mas sobretudo para os ricos, para os estrangeiros e para os turistas. Para os portugueses é muito mais difícil. No fundo, Portugal é um grande restaurante onde recebemos turistas.

       

      Já confessou que está a escrever um policial sobre Macau. Quando é que o poderemos ler? Pode desvendar alguma coisa da história? Esta sua vinda a Macau poderá ajudar a concluir a história?

      É uma ideia antiga, que nasceu de vários passeios em Macau com o João Miguel Barros e de uma primeira vinda a Macau há muitos anos. Entretanto, alguns cenários desapareceram, ou com o tempo ou com a pandemia. Há alguns livros meus em que exploro esse tema que me tem apaixonado muito: os portugueses que vivem fora de Portugal. Emigrantes, viajantes, pessoas que mudaram de lugar e que raramente querem voltar. Será uma história destas, sim. E não, não terá casinos, nem jogo, nem “crime organizado”. Terá esse género de pessoas que não se sentem bem em nenhum lugar, que ficam, que partem, vão e voltam, estão num território de ninguém, guardam segredos, flutuam – como personagens de romance, não é? E acabam assassinadas, para cumprir o seu papel.

       

      Quem poderá ser?

      É um jogo que faço sempre comigo mesmo. Gosto das histórias dos outros. De roubar as histórias dos outros. Não há autobiografia ou lá o que é nos meus livros. Sou um contador de histórias, um tipo que gosta de ouvir. Aliás, digo sempre: não me contes mais, que eu roubo. Acho que é isso que me fascina. Há muitas histórias para roubar em Macau, não há? Muitas personagens maravilhosas.