“Fafafafafa”, ou em chinês “Fá” (花, flor), é o nome de um novo estabelecimento de petiscos e vinhos que abriu recentemente no NAPE. Foi depois de meses de discussão que os dois amigos João Varela e Rui Simões chegaram a um consenso para o nome, e ficou assim mesmo: cinco vezes “fá”, num piscar de olho a referências musicais dos Talking Heads e Otis Redding. O espaço faz parte de uma nova vaga de bares e restaurantes que prometem reanimar as antigas “Docas” do Wong Chiu.
Foi na véspera do início do mundial de futebol, em Novembro de 2022, que o espaço “Fafafafafa” abriu portas, contou João Varela ao PONTO FINAL. “Eu e o Rui somos amigos há muitos anos e éramos clientes habituais daquele espaço, que estava moribundo um pouco por causa da pandemia, e fomos desenvolvendo a ideia de pegar no espaço e abrir um bar nosso, com conceitos próprios de comidas e música, e de tentar atrair outra vez mais gente para aquela zona”. A parceria de João Varela, Rui Simões e Fernando Gabriel procurou criar algo “diferente” em termos de oferta de vinhos, mas também do conceito em si, numa perspectiva mais “relaxada onde as pessoas possam ir ao fim da tarde e à noite petiscar coisas genuinamente portuguesas e espanholas e ter acesso a vinho e produtos desse género sem preços exorbitantes. Ou seja, um sítio porreiro, onde as pessoas se sintam bem”, explicou.
Uma das preocupações centrais do espaço foi a autenticidade da comida, e de “fazer as coisas independentemente de ser ou não o sabor a que as pessoas estão habituadas aqui em Macau”, frisou o responsável. “Quisemos fazer as coisas fiéis à origem: os caldos verdes, bifanas, moelas, camarões, chouriço, essas coisas todas, são feitas de forma portuguesa, por alguém que teve formação”. O menu é português, mas também oferece ‘pinxos’, tapas do norte de Espanha, como as tortillas, ou os bocadillos, numa oferta que vai mudando todos os dias. “O feedback das pessoas, quer sejam chineses de Hong Kong, da China continental, de Macau, ou dos portugueses tem sido fabuloso, relativamente à agradabilidade do espaço por um lado, ao conforto que sentem em estar ali, e por outro lado também relativamente à comida”, partilhou, referindo que em particular a clientela portuguesa e macaense tem sido “fiel desde a abertura”, representando cerca de 60% das pessoas que escolhem ir comer e beber ao “Fafafafafa”.
A zona onde o bar se situa, na Avenida Sun Yat Sen, está a voltar a ser revitalizada. Desde a remoção dos tapumes ao longo da costa e a abertura de um extenso parque infantil e de lazer, vários novos estabelecimentos como este “Fafafafafa” surgiram nas imediações. João Varela sustenta que não tem dúvidas que o espaço trouxe “mais gente de volta àquela rua. A chamada Docas tinha imensos bares, e depois foram progressivamente fechando, com a abertura de sítios nos casinos, e daqueles clubes onde as pessoas começaram a ir”, recordou. “Entretanto também fechou tudo, e, portanto, deixou de haver oferta”, e agora este, e mais um ou dois restaurantes que ali abriram, têm revitalizado aquela zona, destacou. “O NAPE está a ser revitalizado, e acho que é um bom exemplo de reabilitação urbana. Estão a fazer espaço para os miúdos, para as famílias, há imensos serviços públicos ali, portanto a zona está a revitalizar”.
PESSOAS SEM ACESSO AO RIO
Perguntámos a João Varela se faz sentido haver esplanadas em Macau, um local com um clima habitualmente húmido e quente. Defendendo que acha “muito importante haver esplanadas ao ar livre em Macau”, destacou que “as poucas que há, estão completamente cheias”, o que mostra que este tipo de oferta, no fundo, resulta. “Acho que seria bom para Macau ter mais esplanadas, aproveitar mais os espaços públicos, levar as pessoas de Macau mais aos espaços tradicionais e emblemáticos de Macau, como o leal senado, por exemplo”, argumenta. “Uma praça como o leal senado sem esplanadas, não me parece que esteja ligada às pessoas”.
Macau é “uma cidade rodeada de água praticamente por todo o lado, mas o contacto das pessoas com o rio é muito pouco, ou seja, as pessoas não têm acesso ao rio”, sustenta o advogado. Reconhecendo que com as necessidades de desenvolvimento e de mais espaço, se teve de aterrar muita da costa de Macau, João Varela diz que na mesma deveria haver mais ligação ao rio, algo que existe nas cidades cosmopolitas, que têm espaços de restaurantes e bares com esplanadas nas zonas ribeirinhas. “Em Macau parece que há um receio de haver esplanadas, quando temos uma cidade fabulosa, com um clima fabuloso para ter esplanadas. E a prova disso mesmo é que as pessoas aderem: onde há esplanadas, há gente”, reitera.
Questionámos se uma das possíveis causas para a pouca oferta deste tipo de iniciativas em Macau seria em parte por causa da falta de incentivo do Governo. João Varela não descartou a possibilidade. “Talvez haja um problema de legislação, ou falta de flexibilidade das autoridades em conseguir licenciar as esplanadas”, mas se esse for de facto o caso, “como todos os problemas, é um problema que se resolve”, brincou. Para quem, mesmo assim, continua a achar que esplanadas em Macau não são boa ideia, poderá talvez ser tentado a mudar de ideias se for ao “Fafafafafa”, já que os donos investiram recentemente num toldo e numa protecção lateral com ventoinhas que dão refrigeração, “para que o espaço continue agradável”.
Outra das singularidades do espaço é de ter um ecrã que tem duas funções. Uma é para eventos desportivos, como o mundial e jogos importantes de futebol, mas também Fórmula 1, corridas de motas e outros eventos desportivos, como os Jogos Olímpicos. A segunda função, quando não há esses eventos, é de projecção de filmes, “coisas mais ligeiras, para ter algum entretenimento, filmes mais conhecidos de Hong Kong e da China, mas também do ocidente, filmes americanos, franceses… e as pessoas muitas vezes estão ali e estão também a ver um filme”, partilhou.
A concepção do espaço, desde o grafismo à decoração, foi feita conjuntamente pelos três parceiros. “Mudámos o nome, pintámos o espaço, trocámos as mesas e as cadeiras, pusemos decoração na parede. Fizemos uma obra reduzida para dar um ‘novo feeling’, uma nova imagem ao espaço. Fomos decidindo à medida que fomos avançando”, esclareceu o dono do espaço, reconhecendo ainda o “contributo do designer Paulo Corte Real na feitura dos materiais de produção, nos menus, e na selecção das cores, e da imagem, e daquilo que seria a decoração também”.
Para o futuro próximo, a ideia de abrir outro espaço semelhante “não está fora de questão”, admite João Varela, “mas nesta fase queremos sedimentar este projecto”, porque também não é fácil arranjar mão de obra disponível, que “é muito inconstante”, menciona, um problema aliás que afecta “toda a restauração em Macau”. Apesar de tudo, o representante do estabelecimento “Fafafafafa” diz que tem notado por parte das autoridades uma abertura muito grande em ajudar os pequenos negócios a colmatar estas deficiências do mercado laboral de Macau. “Acho que deve ser feito um elogio às autoridades, porque têm feito um trabalho digno de formação de residentes, de aparelhamento de residentes com ofertas de emprego, mas também de serem mais sensíveis e mais ponderados e equilibrados na atribuição de quotas de trabalhadores não residentes”.











