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      Obras proibidas em Hong Kong resistem em Macau e em inglês

       

      Após a retirada de obras e autores das bibliotecas públicas de Hong Kong, é possível encontrar, em Macau, as “chamadas obras proibidas”, que resistem sobretudo nas universidades e em língua inglesa.

       

      Poucos dias depois de duas obras de Allan Au Ka-lun terem sido retiradas das bibliotecas públicas de Hong Kong, uma amiga do autor foi à procura de “Tide Pools” em Macau. Mas o livro, que foi publicado apenas na versão chinesa, não estava disponível na rede de bibliotecas local.

      Allan Au assegura à Lusa que nem sempre foi assim: “Estou bastante convicto de que este livro existia na biblioteca pública de Macau e, depois de sair a notícia do jornal de Hong Kong [Ming Pao], a minha amiga procurou-o e não encontrou”. “Tide Pools”, um registo de viagem publicado pelo jornalista em 2009, é um dos títulos que desapareceu nos últimos dois anos das prateleiras das bibliotecas públicas de Hong Kong, de acordo com uma notícia avançada pelo Ming Pao. Au integra uma lista de autores e obras com “más ideologias” que foram recolhidos do sistema por ordem do Governo daquela região: outros nomes são o cartunista Zunzi (pseudónimo de Wong Kei-kwan) e a ex-deputada Margaret Ng Ngoi-yee.

      A exclusão em maio das duas obras de literatura de viagem de Au, “Tide Pools” e “Tata Bus” (2011), deixou o autor, que já tinha visto a bibliografia “com conteúdo mais político” desaparecer das prateleiras das bibliotecas públicas de Hong Kong no ano passado, “bastante surpreendido”. “Os livros não tratam temas sensíveis. Isso mostra que eles [Governo] estão a visar pessoas em particular e não o conteúdo em si. Eu acho que é bastante óbvio”, refere.

      As opções editoriais em Hong Kong também se fizeram logo sentir em Macau: “I am not a kid” (2015), de Joshua Wong Chi-fung, rosto dos protestos de 2019, foi excluído da biblioteca pública de Seac Pai Van para análise, disseram em Julho de 2020 as autoridades da região. E passados três anos, esta ou qualquer outra obra do jovem activista continuam ausentes da base de dados da rede pública de Macau, formada por 16 bibliotecas.

      A Lusa questionou o Instituto Cultural (IC) se retirou recentemente publicações consideradas inapropriadas pela autoridades das instalações bibliotecárias do território, mas o departamento governamental respondeu apenas que segue “os princípios estabelecidos na Política de Desenvolvimento de Coleções”, tendo em conta “a importância dos livros no local de publicação original, o equilíbrio das opiniões dos conteúdos”, entre outros factores.

      São realizados “constantemente, de acordo com as práticas das bibliotecas públicas internacionais, trabalhos de avaliação e triagem das colecções”, notou ainda o IC num email, sem avançar com mais detalhes. Instado ainda a confirmar se “Tide Pools”, de Allan Au, deixou de fazer parte do acervo literário, o IC não respondeu.

      Se por um lado, a pesquisa por obras de autoria de Joshua Wong, Allan Au ou Zunzi não produzem resultados no motor de pesquisa das bibliotecas geridas directamente pelo Governo de Macau, o mesmo não acontece nas bibliotecas da Universidade Politécnica de Macau (UPM) e da Universidade de Macau (UM), ambos estabelecimentos públicos de ensino superior.

      Além de artigos académicos, em inglês e até castelhano, relacionados com Joshua Wong, o livro de Allan Au “Twenty shades of freedom: media censorship routines in Hong Kong” (2017), que versa sobre “a autocensura da comunicação social” naquela região, é uma das publicações assinadas pelo autor e pode ser consultada tanto na UPM como na UM.

      Por outro lado, “The People’s Republic of Amnesia” (2014), de Louisa Lim, um dos livros excluídos recentemente das bibliotecas públicas de Hong Kong, integra o corpo literário em língua inglesa, disponível na UM – sobretudo ‘online’ -, que aborda a repressão em Tiananmen, ocorrida a 4 de Junho em 1989, em Pequim.

      Em Hong Kong, pelo menos nove títulos em língua inglesa sobre a repressão dos protestos estudantis em Pequim foram retirados da rede de bibliotecas públicas, noticiou, em maio, o jornal Washington Post.

      As bibliotecas universitárias em Macau “parecem ser melhores” no que diz respeito à literatura disponível, analisa o comentador político Sonny Lo Shiu-Hing, para quem a “situação ainda depende do julgamento e das decisões dos bibliotecários”.

      Allan Au, notando que “o mesmo se passa em Hong Kong”, justifica a presença “das chamadas obras proibidas” na esfera académica, em parte, com questões administrativas. “Se quiserem fazer isso [excluir obras], precisam de passar por mais pessoas e mais processos. No caso das bibliotecas públicas, o Governo pode ordenar directamente”, nota o escritor, apontando que “pelo menos em Hong Kong, a universidade ainda é relativamente independente”. “Mas não podemos saber o que se vai passar a seguir. Estou pessimista”, constata.

      Apesar de no acervo das bibliotecas públicas de Macau não constarem os autores proibidos em Hong Kong, quem quiser documentar-se sobre o que aconteceu em Pequim, em 1989, pode fazê-lo – mas em inglês, à semelhança do que acontece nas bibliotecas universitárias.

      A Lusa requisitou sem dificuldades “Tiananmen Papers” (2001), uma compilação de documentos oficiais secretos chineses que dizem respeito aos acontecimentos do 4 de Junho. Numa busca pela palavra “Tiananmen” – com poucos resultados – encontra-se também “Beijing Coma” (2008), do escritor dissidente Ma Jian, que conta a história da repressão dos protestos estudantis através de uma personagem ficcionada.

      Já em chinês, a informação chega aos leitores com maior dificuldade, de acordo com a pesquisa da Lusa, que não encontrou obras relacionadas nas bibliotecas públicas. Na Universidade de Macau, os livros em língua chinesa que tocam no tema contam-se pelos dedos de uma mão e na Universidade Politécnica de Macau as buscas não produzem resultados.

      Sonny Lo sublinha que a literatura em língua inglesa é localmente “menos lida”. No mesmo sentido, Allan Au diz que o “impacto social em Hong Kong e Macau é muito menor” caso o conteúdo seja produzido em inglês. “Suspeito que as autoridades ou aqueles que tomam este tipo de decisões raramente leem inglês e, em geral, não sabem o que está nos livros”, concretiza.

      Já Sonny Lo acredita que o futuro dos livros políticos em Macau, tal como em Hong Kong, vai depender da autocensura das próprias bibliotecas, dos livros censurados serem escritos por autores considerados perigosos para a segurança nacional e da investigação dos ‘media’. “Ironicamente, se os meios de comunicação social forem menos investigativos, os livros políticos poderão persistir nas bibliotecas, especialmente nas públicas”, sustenta.

       

      Ponto Final
      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau