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      InícioOpiniãoDiplomacia, Guerra e Migrações

      Diplomacia, Guerra e Migrações

      1. O extremismo em politica internacional é sempre mau conselheiro. As declarações enfáticas também. Estados Unidos e China têm levado este discurso de megafone longe demais. Os dois são responsáveis por isso. Naturalmente são adversários. No mundo de alianças volúveis, sempre houve adversários e aliados e que mudavam de campo consoante as circunstâncias. Os interesses de EUA e RPC chocam-se: os Estados Unidos querem que a China se retraia no Mar do Sul da China e não ponha em causa a soberania dos vizinhos; a China quer que os Estados Unidos ponham fim aos tratados de defesa e segurança com esses países e saia da Ásia-Pacífico. Mas a geografia é o que é: não se escolhe vizinhos. Apenas se aprende a conviver com eles. Antony Blinken o secretário de estado fez um exercício de realismo e entabulou, um face a face com Xi Jinping. Pontes de diálogo foram restabelecidas até porque as expectativas eram muito baixas. Isso é o que importa. As relações entre estas duas potências nucleares e militares têm de ser oleadas e renovadas. Naturalmente continuarão a actuar de acordo com o respectivo interesse nacional. As duas são muito parecidas, nesse aspecto. Uma é superpotência; outra ambiciona sê-lo. Mas conversam e dialogam. O mundo agradece.
      2. A fixação russa no domínio e subjugação da Ucrânia implica não menos que a eliminação do exercito ucraniano e a sua rendição incondicional. Mas basta ler em transversal a história dos dois países para perceber que as respectivas elites sempre pensaram de forma diferente. Durante a revolução que levou à constituição da União Soviética, a Ucrânia lutou pela independência perdeu, e em 1922 foi subalternizada dentro do estado comunista. Lembra Anne Aplebaum num livro magnifico “A Cortina de Ferro” que a Ucrânia era uma entidade separada, com a sua própria linguagem e um estatuto própriona URSS. Face a essa apetência autonomista, Estaline sujeitou os ucranianos a um estrangulamento: mandou organizar uma lista negra de determinadas explorações agrícolas, cidades e aldeias, criou um cordão à volta da fronteira para que as pessoas não pudessem sair e outras medidas especiais contra as instituições culturais ucranianas e a língua ucraniana. Este período chama-se o Holodomor, a fome de 1932-33. Cerca de quatro milhões de pessoas morreram de subalimentação na Ucrânia neste período. A fome extrema não foi apenas o resultado da requisição de cereais pelo estado soviético pela lógica da colectivização forçada, mas da acção de milícias que foram às aldeias e levaram não apenas grãos, mas todo tipo de alimentos – legumes, beterraba, batatas e ainda carne. Este propósito de eliminação das condições básicas de sobrevivência de uma comunidade está por detrás da acção russa de ataques por morteiros e drones a bairros residenciais, hospitais, escolas e outras infraestruturas civis na Ucrânia. Desmentidas pelo Kremlin mas sempre confirmadas por entidades independentes, O que leva a outra questão. Putin não quer o fim da guerra em breve e tudo fará para adiá-lo. Sabe que no dia em que for negociado o armistício os processos internacionais por crimes de guerra e contra a humanidade avançarão contra ele e o circulo mais próximo. E os ucranianos exigirão pesadas indemnizações de guerra. Impossível? Os processos de Nuremberga e dos lideres da ex-Jugoslávia existem como precedente no direito internacional. As Nações Unidas têm estruturas jurisdicionais que poderão julgar esses crimes. Ainda que Putin não sobreviva à guerra que provocou.  
      3. O afluxo de imigrantes ilegais à Europa continua um problema dramático sem solução. Ainda a semana passada um barco com 750 pessoas a bordo oriundo da Líbia sofreu um acidente grave. No princípio da madrugada o barco sobrelotado virou-se e em cerca de quinze minutos afundou-se. Segundo despachos das agências noticiosas a bordo iam 100 crianças. O número de vitimas ascende a 80 pessoas e os restantes sobreviventes foram evacuados para as ilhas gregas. Segundo notícias o barco terá recusado assistência de helicópteros da Frontex, a agência europeia de guarda de fronteiras e costeira e manteve-se a singrar. Os sobreviventes foram levados para Kalamata onde terão sido trados de hipotermia e ferimentos vários. Entretanto foram detidos sete indivíduos cuja nacionalidade não foi revelada e que integrarão uma rede de traficantes que opera a partir do norte de África. De acordo com dados nas Nações Unidas mais de 70 000 refugiados chegaram à Europa este ano, a maior parte a Itália. Em recente visita a Lisboa a presidente do Parlamento Europeu Roberta Metsolamanifestou o seu horror perante mais este caso dramático. Comprometeu-se a que a União Europeia irá resolver esta questão uma vez por todas. A afirmação da parlamentar europeia é no mínimo irrefectida senão irresponsável. A proximidade da Europa ao Norte de África coloca pressões crescentes no sistema de segurança europeu e o afluxo continuado de pessoas à procura de uma vida melhor tem sido anárquica e desregulada. Normalmente vilipendiada pelas ONGs que actuam nestedomínio, a Europa é o único continente que tem acolhido e dado refúgio a populações deslocadas por guerras e crises regionais. Alegam os habituais detractores que a Europa como continente com recursos, tem de cumprir essa obrigação em nome da solidariedade internacional. Mas a capacidade de receber deslocados e os que procuram asilo, dar-lhes trabalho e apoio social é limitada. Negociar com os governos dos países donde estes migrantes provêm, em troca de apoios financeiros à criação de empregos e empresas, já foi tentado. Os resultados foram desastrosos. Os meios financeiros enviados a esses países esfumaram-se na rede de intermediários e nas corruptas elites locais. Cooperação policial para a desmontagem dos bandos de traficantes que ali operam as autoridades locais têm-no rejeitado, alegando constituiruma violação à sua soberania nacional. Desastres humanitários, como o que vimos nas televisões, continuarão ao longo deste verão. Assim como o séquito de vítimas.
      4. O Papa Francisco visita Portugal para as Jornadas de Juventude, depois de uma intervenção cirúrgica. Emotivo, empático, solidário, tem sido uma voz de bom senso na história da Igreja cujas alertas às crises da humanidade, das migrações à fome, ao aquecimento global, ao extremismo religioso têm se destacado pela sua inteligência e acerto. A sua idade avançada, a saúde debilitada, leva a perguntar por quanto tempo o teremos entre nós. Desde Paulo VI, a Igreja Católica não tinha alguém cuja postura evangélica fizesse pontes tão relevantes entre as comunidades de fé, as religiões e as civilizações. Mas a sua postura irrepreensível não tem sido seguida pela classe clerical e a vida da ICAR tem sido marcada por escândalos de abuso sexual de crianças e menores. Algo que a tecnoestrutura escondeu e desmentiu por décadas a fio. Portugal seguiu o exemplo e depois do processo mediático da investigação de casos semelhantes por uma comissão independente a partir de denúncias das vítimas foram arrolados os autores dos crimes, cuja perseguição judicial depende de queixa dos ofendidos `as autoridades. A ICAR espera que a passagem do tempo leve ao esquecimento destes factos gravíssimos e à ilibação dos fautores. Mas casos idênticos repetem-se todas as semanas, um pouco por todo o mundo. Pergunta-se onde está a ética cristã?

      Arnaldo Gonçalves

      Jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais