A vida de Mimi Choi nunca mais foi a mesma depois de 2019, ano em que maquilhou o actor Ezra Miller para a MetGala, que aconteceu em Nova Iorque. Apesar de o seu trabalho ter sido anteriormente notado e destacado, foi com esse momento que surgiu o “boom” na sua carreira. Hoje, a maquilhadora profissional, que um dia foi professora, tem cerca de dois milhões de seguidores no Instagram e o seu trabalho é visto como algo de muito talento, não só pelos pares, mas também pelo mundo em geral, com especial enfoque nas celebridades norte-americanas.
Em conversa com o PONTO FINAL, a artista confessou que Macau está sempre no seu coração e que volta ao território com alguma regularidade depois de nos anos de 1990 ter emigrado com os pais para Vancouver, no Canadá. “Volto a Macau sempre que posso, quase todos os anos, porque a maioria da minha família ainda mora aí. Os meus pais ainda possuem o apartamento onde vivi e cresci, e é tão bom ter outro lugar que posso chamar de lar. É interessante ver como Macau muda cada vez que volto e, desde que conheci o meu marido, passei a apreciar ainda mais a cidade. Ele é do Canadá e adora a estética, os sabores e os sons de Macau”, começou por dizer Mimi Choi.
A infância em Macau, onde passou muito tempo em casa do avô – que faleceu há seis anos –, também influencia o seu trabalho, conforme nunca escondeu e tem vindo a revelar em diversas entrevistas. “A casa do meu avô era cheia de cultura e história chinesa, decorada com objectos de porcelana. Isso influenciou-me”, admitiu, acrescentando que “quando era sempre via os adultos jogarem mahjong” e os desenhos das peças a fascinaram.

O seu estilo único e inconfundível levou a que, em 2019, fosse convidada pelo Governo de Macau, através da Comissão de Desenvolvimento de Talentos, para se reunir com várias organizações governamentais. “Reuni-me com a Direcção dos Serviços de Turismo (DST) para discutir as perspectivas de promoção do turismo e também com o Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia de Macau (CPTTM) para ministrar um curso e potencialmente colaborar para o Festival de Moda de Macau. Infelizmente, a Covid-19 acabou com esses planos, mas agora que já é possível viajar sem restrições paraMacau, espero continuar estas discussões para finalmente promover Macau através da minha arte”, revelou ao nosso jornal.
Desde que se formou no Blanche Macdonald Center, em 2014, o seu trabalho ilusório atraiu a atenção internacional e muitos seguidores nas redes sociais, principalmente no Instagram, onde assina com o nickname @mimles. “Nunca me matriculei numa escola de belas artes, então a maior parte do que aprendi veio de tentativa e erro, e incontáveis horas de prática. Frequentei uma escola de maquilhagem em Vancouver, que é um óptimo lugar para aprender como se tornar uma maquilhadora profissional e isso encorajou-me a descobrir e desenvolver o género ilusório de maquilhagem. Decidi tentar a primeira ilusão durante o meu primeiro Halloween enquanto estudante, que era um simples visual de rosto rachado. Recebi muitos comentários positivos e incentivos que me levaram a continuar a explorar esse estilo e evoluindo para o que sou hoje. Inspiro-me em muitos artistas plásticos, incluindo Escher, Dali e Arcimboldo, mas também me inspiro em artistas digitais contemporâneos que descubro nas redes sociais”, confidenciou.

UMA EDUCADORA QUE VIROU ARTISTA
Mas Mimi, actualmente com 38 anos, nem sempre foi maquilhadora. Começou por ser educadora e o abandono dessa carreira não foi um processo fácil, explicou, admitindo que recebeu sempre total apoio da família e amigos. “Foi preciso algum incentivo da minha família para me matricular na escola de maquilhagem e concordo que foi uma das melhores decisões da minha vida. Concordo que nem toda a gente tem a oportunidade de ganhar a vida com o que mais ama, por isso estou eternamente grata por a minha vida se ter desenrolado desta maneira. Isto deu-me a oportunidade de combinar tudo: maquilhagem, viagens e ensino. Além disso, trabalho com o meu marido, que também é meu parceiro de negócios, e colaboro com pessoas e marcas incríveis em todo o mundo”.
Por norma, ou na maioria dos casos, Mimi usa-se a si mesma para testar novas obras de arte. Apesar de, cada vez mais, pintar o rosto e o corpo de outros, quando tem uma ideia é sempre mais fácil sentar-se ao espelho e pintar-se a si mesma. “A maior parte do meu trabalho é feita em mim mesma, porque, na verdade, cada trabalho pode levar várias horas a ser concluído, e eu costumo pintar espontaneamente. No entanto, pinto muito em modelos, principalmente para campanhas de marketing, sessões de fotos, videoclipes e programas de televisão. Não diria que é mais fácil pintar o meu próprio rosto, mas definitivamente estou mais familiarizada com os meus traços e formas. As minhas características adaptam-se bem ao tipo de maquilhagem que faço porque o meu cabelo é escuro e o meu rosto é relativamente largo, o que funciona bem para o género ilusório. Pintar detalhes intrincados requer muita paciência e concentração, por isso sempre me preocupo com o bem-estar dos meus modelos. Quando pinto em mim mesma, posso fazer pausas para não ter qualquer pressão adicional”, explicou ao PONTO FINAL.

A artista admitiu que já lhe pediram para tatuar os seus desenhos. “Sim. É uma sensação surreal ver o meu rosto tatuado na pele de alguém, mas também fico muito humilde e honrada por apreciarem a minha arte até esse grau. Muitos dos meus seguidores também me pediram para desenhar tatuagens exclusivas para eles, algo que considero fazer mais no futuro”, notou
Mimi Choi nasceu em Macau nos anos de 1980, ainda com o território sob Administração Portuguesa. Aqui cresceu até à adolescência, tendo depois emigrado para o Canadá com seus pais em meados dos anos 1990, onde agora pratica e ensina o seu ofício. Macau ainda exerce particular fontes de inspiração no trabalho de Mimi, conforme ela nos confidenciou e tem revelado em inúmeras entrevistas. Mas a sua inspiração vem também de outras fontes. Isso inclui padrões e texturas, arte digital com Photoshop e pinturas surreais de mestres ilusórios como Salvador Dali ou M.C. Escher. Infelizmente, a artista sofre de paralisia do sono – uma condição na qual a sua mente está consciente, mas o seu corpo fica temporariamente sem resposta ao acordar. Durante essas lutas, experimenta visões vívidas e muitas vezes assustadoras que inspiraram muitos de seus rostos mais mórbidos e distorcidos.
Juntamente com a sua experiência e carreira anterior como educadora, a maquilhadora dá aulas na Blanche Macdonald e conduz vários cursos e workshops um pouco por todo o mundo. Também trabalha como directora artística de várias campanhas e o seu currículo inclui colaborações com marcas como NYX Professional Makeup, Kryolan, Mehron, Burberry, UNICEF, Warner Brothers e Samsung, entre muitas outras. Desde que se destacou na comunidade de maquilhagem, especialmente com o trabalho realizado para Ezra Miller, o trabalho de Mimi cresceu muito na cena da cultura pop, tendo aparecido em vários programas de televisão internacionais, revistas, videoclipes e muitos outros suportes.
















