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      InícioSociedadePreocupações ambientais e históricas

      Preocupações ambientais e históricas

      Este meu projecto foi apresentado no âmbito de um concurso lançado pelo Governo, em 2011, para a nova sede da Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água (DSAMA), situada junto ao Quartel dos Mouros. Acabou por não ser construído porque não venceu o concurso. A sede da DSAMA foi inaugurada naquele local em 2018, tendo sido projectada por outra equipa de arquitectos.

      Este projecto desenvolveu-se a partir de um estudo profundo sobre a história e o valor cultural do sítio, um monumento incluído no Centro Histórico de Macau, onde havia um mesquita para os guardas mouros vindos de Goa, e posteriormente um reservatório de água para a zona de Barra. O projecto salientava a cultura islâmica do local situado entre o núcleo católico e o núcleo budista/taoista na zona de Barra. Em terma urbanísticos, o projecto conservava e criava uma grande área verde com canais de água e organização geométrica, inspirado num jardim islâmico.

       

      A inspiração, de facto, foi uma investigação histórica do sítio. Além do Quartel dos Mouros, havia um reservatório de água que tinha sido abandonado há algum tempo. Eu pensei que o meu projecto deveria reabilitar esse reservatório e, em cima, construir o edifício. Segundo o meu projecto, o reservatório de água continuaria a recolher as águas pluviais, que poderiam ser utilizadas para outros fins, como reduzir a temperatura do espaço interior do edifício e também para regar as plantas, ou nas casas-de-banho.

       

      Nas plantas e nos mapas do século XIX, havia atrás do quartel a tal mesquita. Naquela altura, os polícias que trabalhavam no quartel vinham de Goa e a maioria era muçulmana. Eu avaliei toda aquela zona e vi que, mais abaixo, há o templo de A-Má, que representa as religiões chinesas do taoismo ou do budismo, e mais para cima há a capela da Penha, católica. Então, achei que ali podia haver uma representação da cultura islâmica. Além disso, no meu projecto, falo do arranjo da parte exterior. Fiz uma planta de um jardim com canais de água, muitas plantas.

       

      Na altura não tive muito tempo para fazer um estudo muito profundo, mas utilizei alguns mapas antigos e procurei também nos arquivos alguns documentos sobre o antigo Quartel dos Mouros.

       

      Por outro lado, em termos de arquitectura, o projecto fazia uma proposta de um novo protótipo de edifício de escritórios, que aproveitava o reservatório de água restaurado e a verdura do ambiente envolvente. Tentei, no meu projecto, restaurar o reservatório de água porque pensei que isso também tinha importância na história daquela zona e podia utilizar com outra função na vida moderna, numa arquitectura que cada vez mais tem em conta o ambiente e a ecologia.

       

      Os espaços de escritório eram individuais e isolados, dando prioridade à ventilação natural. Nos últimos três anos em que enfrentámos a epidemia de Covid-19, eu vi alguns projectos arquitectónicos com uma nova tipologia de trabalhos. Vi alguns projectos com ideias semelhantes àquele que eu já tinha apresentado há mais de dez anos para a nova sede da DSAMA, com espaços separados, corredores ao ar livre. Acho isso muito interessante.

       

      Macau é um sítio com clima muito húmido e temperaturas muito altas, portanto, eu na altura pensei como é que podíamos ter uma arquitetura que utilizasse este tipo de energia natural para melhorar a temperatura e a humidade dos espaços interiores dos edifícios. Há mais de dez anos, já era uma tentativa ecológica, mas depois da epidemia, voltei a ver as mesmas ideias.  Reparei que, na Europa ou nos EUA, durante ou depois da epidemia, no plano urbanístico e no design de arquitectura, eles também pensaram melhorar a área interior para evitar que os espaços fossem muito afectados por este tipo de doença.

       

      Agora, depois de grande epidemia de Covid-19, revendo o projecto feito há mais de 10 anos, vejo que a organização dos espaço e a ventilação foi uma previsão de um tipo de arquitectura surgida durante a última epidemia, que afectou gravemente a história da humanidade no século XXI.

       

      Quando há um projecto deste género, inserido numa zona de património histórico, eu tento sempre perceber o seu valor. Por exemplo, tentei perceber que lugar era aquele, com elementos da cultura islâmica, já que a história do Quartel dos Mouros foi um pouco esquecida.

       

      Faço sempre os projectos a partir deste tipo de investigação histórica. Podem-se fazer projectos muito diferentes, mas eu escolho fazer sempre assim, uma vez que desta forma podemos dar mais valor ao lugar e ao sítio específico.

       

      Se o edifício tem valor histórico, deve ser preservado. Mas à volta do edifício também são necessários projectos que possam valorizar o sítio, ou pelo menos que respeitem o ambiente envolvente e que respeitem a história do local.

       

      Escolhi mostrar este projecto por estar ligado a um sítio com história e junto a um edifício que faz parte do património de Macau. Além disso, porque tentei fazer a arquitectura de um edifício de escritórios com um sistema mais ligado ao ambiente e à energia natural, utilizando a água, água das chuvas e ventilação natural.

       

       

      André Lui

       

       

      Ponto Final
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      Redacção do Ponto Final Macau