China anuncia aumento de 7,2% nos gastos militares para 2023

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A China vai aumentar este ano as despesas militares em 7,2%, ligeiramente acima do acréscimo realizado no ano passado, anunciou o primeiro-ministro Li Keqiang, na abertura da sessão anual da Assembleia Popular Nacional (APN). Trata-se do oitavo ano consecutivo de aumentos percentuais de um dígito, no que é agora o segundo maior orçamento militar do mundo.

O país asiático destinou um total de 1,45 biliões de yuan para a Defesa, no ano passado – cerca de o dobro face a 2013. Os aumentos anuais consistentes ao longo de duas décadas permitiram que o Exército de Libertação Popular (ELP), que tem dois milhões de efectivos, aumentasse as suas capacidades em todas as categorias.

Além de ter o maior exército permanente do mundo, a China tem a maior marinha do mundo e recentemente lançou o seu terceiro porta-aviões. O país asiático possui uma enorme reserva de mísseis, caças, navios de guerra capazes de lançar armas nucleares, navios de superfície avançados e submarinos movidos a energia nuclear.

No relatório de trabalho do Governo, apresentado no Grande Palácio do Povo, junto à praça de Tiananmen, em Pequim, perante os cerca de três mil delegados da APN, Li Keqiang enfatizou a “liderança absoluta” do Partido sobre as “Forças Armadas do povo”. “As Forças Armadas do povo intensificaram os esforços para aumentar a sua lealdade política, fortalecerem-se através de reformas, avanços científicos e tecnológicos, treino de pessoal e uma governação com base na lei”, disse. Li mencionou o que designou de “grandes conquistas” na defesa nacional e no desenvolvimento militar que tornaram o ELP numa “força de combate mais modernizada e capaz”.

O primeiro-ministro chinês citou a contribuição do Exército para a defesa da fronteira, proteção dos direitos marítimos, combate ao terrorismo, manutenção da estabilidade, operações de resgate em desastres, escolta de navios comerciais e aplicação da política de ‘zero casos’ de covid-19, que incluiu o bloqueio de cidades, quarentenas e outras medidas coercivas.“Devemos consolidar e aprimorar a integração das estratégias nacionais e as capacidades estratégicas e intensificar a capacitação em ciência, tecnologia e indústrias relacionadas com a defesa nacional”, apontou Li. Isto inclui a promoção do “apoio mútuo entre setores civis e militares”, disse.

A China gastou 1,7% do PIB (Produto Interno Bruto) nas suas Forças Armadas, em 2021, de acordo com o Banco Mundial. Em comparação, os Estados Unidos, que mantêm diferentes sistemas de alianças no exterior, gastaram 3,5%. Embora não esteja a crescer mais a taxas percentuais anuais de dois dígitos, como no passado, os gastos da China com a Defesa continuam a ser relativamente altos, apesar do crescente nível de endividamento do Governo e de uma economia que cresceu no ano passado ao segundo menor ritmo nas últimas quatro décadas.

Pequim diz que a maior parte do aumento dos gastos é destinado a melhorar o bem-estar das tropas, mas o ELP expandiu muito a sua presença no exterior nos últimos anos.

A China já estabeleceu uma base militar em Djibuti, no Corno de África, e está a modernizar a Base Naval de Ream, no Camboja, que lhe pode dar pelo menos uma presença semipermanente no Golfo da Tailândia, de frente para o disputado mar do Sul da China.

O esforço de modernização gerou preocupações entre os Estados Unidos e aliados, que temem que a China invada Taiwan. Pequim reivindica o território, que funciona como uma entidade política soberana, como uma província sua, que deve ser reunificada à força, caso seja necessário. Isto suscitou a realização de várias vendas de armas para a ilha, incluindo sistemas terrestres, mísseis de defesa aérea e caças F-16. A ilha alargou recentemente o serviço militar obrigatório de quatro meses para um ano e está a revitalizar as suas próprias indústrias de defesa, incluindo a construção de submarinos, pela primeira vez.

Sobre Taiwan, Li Keqiang disse que o governo seguiu a “política geral do Partido [Comunista] para a nova era” e prometeu “lutar resolutamente contra o separatismo e a interferência [estrangeira]”.

As tensões têm aumentado com os EUA também devido à militarização de ilhas no mar do Sul da China, que Pequim reivindica praticamente na sua totalidade, e, mais recentemente, o abate de um alegado balão de espionagem chinês na costa leste dos EUA. A enorme capacidade industrial da China e os enormes gastos da Rússia em projécteis de artilharia e outros materiais na sua guerra contra a Ucrânia levantaram preocupações de que Pequim possa fornecer assistência militar a Moscovo. Numa resposta, o Governo chinês negou esta semana que tenciona fornecer armas à Rússia. “A China não vai realizar qualquer venda militar a partes beligerantes ou para áreas em conflito”, afirmou o ministério dos Negócios Estrangeiros do país asiático. Pequim “teve sempre uma atitude prudente e responsável” na exportação de armas e equipamento militar, acrescentou.

 

AUMENTO DOS GASTOS COM DEFESA VISA ENFRENTAR “DESAFIOS COMPLEXOS DE SEGURANÇA

Os aumentos anuais dos gastos militares da China foram “apropriados e razoáveis” e visam enfrentar “desafios complexos de segurança”, disse um porta-voz da Assembleia Nacional Popular do país, cuja sessão anual arrancou ontem. Wang Chao não detalhou se o orçamento para a Defesa, que vai ser anunciado no arranque da sessão plenária, vai registar um aumento superior ou inferior à subida de 7,1% do ano passado. Disse apenas que os gastos militares vão permanecer “estáveis” como parcela do PIB (Produto Interno Bruto) e que a modernização militar da China “não constitui uma ameaça para nenhum país”.

“Pelo contrário, vai ser apenas uma força positiva para salvaguardar a estabilidade regional e a paz mundial”, disse Wang, em conferência de imprensa. “O aumento nos gastos com a Defesa é necessário para enfrentar complexos desafios de segurança e para que a China cumpra as suas responsabilidades como um grande país”, argumentou. “Os gastos com a Defesa da China (…) estão abaixo da média mundial e o aumento é apropriado e razoável”.