Temporada de Furacões

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Fernanda Melchior

Temporada de Furacões

Elsinore

Tradução de Cristina Rodríguez e Artur Guerra

 

DAR VERBO AO QUE NÃO SE QUER VER

Depois do boom dos anos 60 e 70 do século passado, nunca o espaço geográfico da chamada América Latina deixou de produzir livros capazes de saltarem fronteiras, fincando-se com maior ou menor força num imaginário colectivo a que podemos chamar literatura universal. Nos últimos anos, essa produção foi reforçada por um conjunto de escritores e escritoras de diferentes países, com trabalhos muito diversos em termos de estilo, temas e processos narrativos, mas talvez passíveis de uma leitura mais unificada quando constatamos a sua herança perante a obra do chileno Roberto Bolaño e a sua relação mais ou menos edipiana, entre assunção e recusa, com o realismo mágico e os seus epígonos.

Uma dessas escritoras, a mexicana Fernanda Melchior, tem agora o seu livro mais premiado traduzido em português. Temporada de Furacões (Elsinore) conta a história de um homicídio, o de uma pessoa conhecida como “a Bruxa” na aldeia de La Matosa, desmontando e refazendo esse acontecimento numa filigrana cruel onde narrativa e linguagem se constroem mutuamente. A morte da Bruxa é o gatilho deste romance, desencadeando a narrativa polifónica em que diferentes personagens vão contando a mesma história e estruturando essa narrativa numa cronologia irrequieta, que vai ao passado para iluminar antecedentes e avança para o presente assumindo as suas continuidades. O registo não é o de um policial, mesmo que haja perguntas por responder sobre o homicídio. E quando se esclarece quem desferiu, afinal, o golpe fatal sobre aquela pessoa que a aldeia temia e venerava ao mesmo tempo, percebe-se que não foi um golpe, nem um momento, a decidir o destino da Bruxa, mas sim uma imensa acumulação de temores, desmandos, poderes cegos, preconceitos arreigados como lei e misérias transversais. É nessa dura geologia que vai desvendando camadas que se joga esta narrativa.

Em La Matosa sobra tempo para assimilar velhas lendas e práticas mais ou menos misteriosas, como as das ervas e poções que anunciam curar todos os males ou os diabos que encarnam em gente. É isso que leva tantas pessoas a casa da mulher a quem chamam Bruxa, substituída, com o passar do tempo, pela Bruxa Pequena, sua filha, que acaba por ficar com o cognome da mãe sem mais adjectivos. O que não há é tempo ou espaço para um mínimo de dignidade no que respeita à vida e esse caldo social e económico, onde a miséria reina muito para lá da falta de recursos materiais, define quase tudo, dos negócios obscuros à gravidez adolescente, do alcoolismo generalizado às leis que não se regem por qualquer Constituição. Melchior não oferece panaceias nem procura justificações para o mal, simplesmente escancara-o à vista geral, mostrando a fome enganada com tamales de carne de cão e empurrada com muito álcool, os negócios entre cartéis de droga e autoridades, o patriarcado assumido como regra nascida no começo dos tempos e imposto à força como regulador da comunidade.

São as mulheres que aguentam esta terra à deriva e lhe dão alguma estrutura por entre o desmoronamento constante: « (…) estava sempre a ajudá-las e não lhes levava nada em troca a não ser um bocadinho de companhia; foi por isso que todas as raparigas da estrada e mais uma ou outra que trabalhava nas cantinas de Villa decidiram juntar aquele dinheirinho para darem um enterro condigno ao pobre corpo podre da Bruxa, mas os cabrões do Ministério de Villa, os grandes filhos da puta, foram tão desumanos que não quiseram entregar o cadáver às mulheres (…)» (pg.32). São também elas o alvo de quase todas as violências, desde logo a sexual, que não por acaso atravessa boa parte dos relacionamentos da comunidade. Aqui, quase nunca o sexo é descoberta, partilha ou intimidade; é sempre cruamente descrito, como uma opressão intensa, um mecanismo de domínio, de repetição de uma ordem social, por vezes um exorcismo que nunca permite a libertação. É uma violência que não pára, que se propaga de geração em geração, inflingindo traumas que nenhum divã psicanalítico seria, já, capaz de reparar. E mesmo que algumas destas mulheres assumam o comando da sua vida, a violência continua a atingi-las, uma contingência de onde não se pode escapar, porque é preciso comer, pagar contas, viver e para se fazer tudo isso com alguma dignidade seria preciso não se ser o elo mais fraco de uma sociedade brutalizante. Abaixo das mulheres, só as pessoas que a comunidade considera um desvio à moral, os homossexuais e qualquer pessoa que não viva de acordo com papéis de género devidamente promulgados pela sacrossanta ordem social, mantida à custa de exibicionismos de masculinidade que renegam em altos brados qualquer hipótese de atracção pelo mesmo sexo antes e depois dos encontros fortuitos em urinóis, estações de camionagem e campos baldios.

É devastadora a paisagem humana de La Matosa e é sublime o modo como Fernanda Melchior a encena, trabalhando cada frase como quem afia uma lâmina e engendrando parágrafos em que o verbo não se faz carne, antes se ergue para a devastar. Também por isso, é preciso destacar o trabalho de tradução, que não deixou perder este impacto, transpondo-o em português como se essa tivesse sido a sua língua original, uma tarefa que se adivinha hercúlea. Numa narrativa de ritmo acelerado, com frases e parágrafos que parecem mimetizar uma urgência de dizer o que se vê e o que se subentende – talvez por tudo ser tão desprovido de sentido se a medida for a de uma humanidade básica – e que marcam uma respiração verbal afogueada, à beira do sufoco, Temporada de Furacões é um texto que se ergue à mesma altura da brutalidade e da devastação que regista. É o texto que engendra essa devastação, não porque a imagine ou invente, mas porque é capaz de fazer do que se desejava oculto e parecia indizível uma ferida aberta, exposta pela linguagem, encenando tudo o que sabemos ser verosímil para com isso construir um mundo ficcional. Não irreal, atente-se, ou sequer improvável, mas um mundo onde não temos outro remédio que não assumir o efeito de reflexo, um espelho, talvez partido, onde vamos vendo o que sabemos existir e, sobretudo, onde enfrentamos essa dolorosa confirmação de que o indizível pode ser, afinal, aquilo que nos rodeia.