Entre as diversas conclusões da segunda edição do inquérito “The State of Data Journalism” promovido pela plataforma DataJournalism.com, criada pelo Centro Europeu de Jornalismo, constata-se que o acesso a dados de qualidade é o maior obstáculo entre os jornalistas de dados. “Os dados locais são piores do que os dados nacionais, tanto em acesso quanto em qualidade. Os países ou regiões que tendem a se sair melhor ou pior em uma dimensão geralmente terão desempenho superior ou inferior em todas as dimensões”, pode ler-se no documento que revela os dados do inquérito, tornado público ontem.
O acesso a dados de qualidade é, na verdade, o maior obstáculo entre os jornalistas de dados (57%). A falta de recursos financeiros (50%) está em segundo lugar neste ano após ganhar três pontos percentuais em relação a 2021. A pressão do tempo é o terceiro maior desafio (49%). Tal como em 2021, a falta de conhecimento na análise ou visualização de dados é sentida como um factor dificultador maior do que a falta de software adequado.
Descobrir histórias (82%) e descobrir a verdade (81%) são consideradas de longe as duas maiores áreas de valor para o jornalismo de dados. Fazer previsões vem por último, com apenas 35%. A grande maioria dos inquiridos acha que o jornalismo de dados torna a história mais confiável (73%) e ajuda os leitores a entender o que estão a ler (71%).
A edição de 2022 também assinala um marco importante, de acordo com os promotores do inquérito: mais de 1.800 pessoas responderam às perguntas, o que, considera a plataforma DataJournalism.com, “é uma demonstração da natureza crescente desse sector”.
No entanto, e de acordo com os resultados, em Macau ninguém respondeu ao inquérito. Já em Hong Kong responderam dois profissionais. Na China continental responderam nove pessoas, sendo que a plataforma não faz distinção entre Taiwan e o continente.
Na esfera da lusofonia, os números apresentam outra dimensão com o Brasil, com 42 inquiridos, e Portugal, com 13, a revelarem ser os países com maior número de jornalistas de dados. Em países como Angola, Moçambique e Cabo Verde responderam apenas uma pessoa. Em Guiné Bissau, Guiné Equatorial, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste ninguém respondeu ao inquérito. Naturalmente, o facto de não haverem respostas nesses países ou regiões não significa que não existam jornalistas de dados a laborar. Uma curiosidade: a maior parcela de pessoas no jornalismo de dados está nos Estados Unidos, seguida pelo Reino Unido.
CONFLITO NA UCRÂNIA E PANDEMIA DE COVID-19
Este ano, a plataforma lançou uma nova série de questões relacionada com o conflito bélico que se vive na Ucrânia. “Um em cada cinco esteve envolvido na cobertura do conflito. A verificação de factos foi realizada por mais de metade deles, seguida pela verificação de fontes e meios de comunicação social. A maioria dos entrevistados acredita que o conflito aumentou os desafios em torno da verificação de dados”, revela a DataJournalism.com.
A pandemia de Covid-19 começa a fazer menos mossa no jornalismo de dados. “39% disseram-nos que se envolveram com jornalismo de dados como resultado da pandemia”, no entanto, “menos jornalistas de dados cobriram a pandemia” em 2022 em comparação com 2021. “A proporção de pessoas que afirmaram que a pandemia aumentou a pressão do tempo caiu, com tendência semelhante em termos de carga de trabalho”, embora ainda seja um tema de cobertura para 44% dos entrevistados.
Outra das conclusões do estudo é que “o jornalismo de dados continua a ser um campo predominantemente masculino”. Numa altura em que, cada vez mais, se fala em igualdade de género, “as mulheres na indústria tendem a ser mais jovens e mais educadas”.
A maioria dos jornalistas que se dedica ao jornalismo de dados fá-lo a tempo integral. “Os contratos de meio período são muito mais incomuns do que os de período integral, enquanto no freelance há aproximadamente a mesma parcela de tempo parcial e integral”, constata o estudo, acrescentando que apenas um em cada dez jornalista “produz uma história por dia ou menos”. “Um em cada quatro fez parte de um projecto colaborativo entre redacções, sendo que as notícias nacionais são o escopo mais comum, e a política é o assunto principal. Em comparação com 2021, a saúde está menos coberta, enquanto o clima está em alta”, conclui-se igualmente.
A maioria dos entrevistados forneceu informações sobre os seus rendimentos. Desses, o maior grupo (64%) ganha até 49 mil dólares norte-americanos por ano (cerca de 395 mil patacas), independentemente da ocupação.
A plataforma DataJournalism.com foi criada pelo Centro Europeu de Jornalismo e é apoiada pela iniciativa Google News. O Centro Europeu de Jornalismo acredita que o uso de dados no jornalismo é a pedra angular da construção de resiliência em qualquer redacção. Por isso, o centro fornece aos jornalistas de dados recursos gratuitos, materiais, cursos em vídeo online e fóruns. O jornalismo de dados é uma especialidade do jornalismo que reflecte o crescente papel dos dados numéricos que são usados na produção e distribuição de notícias na era digital.











