Edição do dia

Quarta-feira, 17 de Abril, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
27.9 ° C
28.9 °
27.9 °
83 %
4.6kmh
40 %
Qua
28 °
Qui
29 °
Sex
28 °
Sáb
28 °
Dom
28 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioSociedadeSão Januário está a separar mães de bebés recém-nascidos

      São Januário está a separar mães de bebés recém-nascidos

      Os bebés que nascem no hospital público são separados das mães – e dos pais – enquanto a progenitora está em convalescença. Se o parto for normal, o período é de três dias, se for por cesariana, o bebé fica sem ver a mãe por cinco dias. Regras por causa da Covid-19, justifica o hospital. Recém-nascidos ficam assim privados de um dos mais importantes momentos das suas vidas, logo que nascem. Mães consideram a medida desumana e criminosa.

      Os bebés quem têm vindo a nascer no Centro Hospitalar Conde de São Januário (CHCSJ) estão a ser privados de ver os progenitores até a mãe ter alta hospitalar. A medida, que pode ser de três dias em caso de parto normal e de cinco dias em caso de cesariana, coloca em risco a ligação entre mães e filhos, nos primeiros dias de vida destes. Ao PONTO FINAL, algumas mães consideram a situação “lamentável e desumana” e até criminosa.

      Ana Jael Tavares foi mãe de uma menina este domingo e, até ao fecho desta edição, ainda não tinha tido a possibilidade de estar com a filha que apenas viu “por breves segundos” durante o parto. “Ninguém me informou acerca destas regras, aliás até agora não sei absolutamente nada sobre a minha bebé. Nem sequer alguém se digna a vir-me dar alguma informação sobre ela, não sei se está bem ou não”, começou por dizer.

      Não é a primeira vez que a mulher dá à luz, uma vez que, antes da pandemia, Ana Jael foi mãe de gémeas. Apesar de admitir que há sempre regras que podem passar por estranhas e ridículas, o que se passa agora “não tem nada a ver”. “Temo ficar aqui cinco dias sem a ver, o que nesta fase é tremendamente crucial para o bebé”, lamentou a mãe que deu à luz por cesariana.

      Entretanto, conseguiu conversar com um pediatra do hospital que lhe garantiu que a filha “está bem”, mas que, neste momento, não pode estar com a filha para a amentar “por uma questão de espaço”. “Claro que estou preocupada, pois a ala que era usada para maternidade está agora a ser usada para colocar os doentes mais graves infectados com Covid-19. Pedi para vê-la e ficaram de me dar resposta. Se não for possível, assim que me sentir melhor vou pedir alta. Acho que é melhor assim”, notou.

      A questão tomou proporções nas redes sociais, principalmente em grupos de mulheres e mães. Os desabafos têm surgido em catadupa e H. (nome fictício) admitiu ao nosso jornal que está “muito apreensiva” com a situação, uma vez que é esperado, nos próximos dias, dar à luz. “Conto ir esta semana, mas tudo o que nos contam é inacreditável. E o mais grave é que estou prestes a passar por ela”, referiu, pedindo o anonimato.

      E reclamações? Pouco se sabe sobre isso. “Liguei para as informações do hospital para tentar saber comos e processavam as visitas e nunca me foi dito qualquer coisa sobre isto. Não nos passou pela cabeça, sequer, pensar que alguém pensasse que o bebé tivesse de ficar longe da mãe. Eles confirmam que nem mãe nem pai podem ver o bebé. Sinceramente, acho que isto é rapto”, atirou a jovem.

       

      Momentos de angústia e ansiedade

      Cláudia Ferreira também se está a preparar para o dia do parto, mas aquilo que deveria ser um momento único de felicidade, estará agora carregado de “muita preocupação”. “Sim, de facto sinto-me muito triste com toda esta situação. Acho muito traumatizante que as mães sejam separadas dos seus bebés, principalmente nos primeiros dias de vida, em que o contacto e amamentação são tão importantes”, afirmou a jovem ao nosso jornal.

      Quando ligou para a enfermaria do hospital a pedir informações, a enfermeira disse-lhe que “era protocolo do hospital e que estavam a seguir regras”. Contudo, revelou, a responsável também lhe disse que, neste momento, “as regras podem mudar de dia para dia”. “Fiz ontem 40 semanas. Por isso agora pode ser a qualquer momento. Daí o meu pânico. A médica diz que esperam só mais uma semana, caso não nasça, entretanto. Depois induzem o parto, mas eu estou uma pilha de nervos”, constatou.

      A mulher sente que o que estão a fazer “é desumano” e, dentro dos seus contactos, ainda se encontra a tentar perceber “o que se pode fazer legalmente numa situação destas”. “Estou a falar com amigos que me possam aconselhar sobre os meus direitos. Separarem-me da minha bebé, sem o meu consentimento e sem qualquer razão de força maior, é completamente surreal e desumano. Especialmente numa altura em que Macau decide relaxar imensas medidas relacionadas com a Covid-19”, concluiu.

      Outra mãe, que também pediu o anonimato, fala em “total falta de respeito pelas pessoas, para não dizer outra coisa”. “Como é que gente que se diz médica permite que um bebé que acabou de nascer não esteja colado à sua mãe? Essa gente, que se diz médica, sabe o que é a amamentação? Lembra-se do que é o colostro? Pensa, sequer, na importância do que são as primeiras horas e dias dos bebés perto das mães, e dos pais que os visitam? Esta gente não tem qualquer humanidade”, afirmou W. emocionada.

      A mulher, que deu à luz este fim-de-semana, está completamente atónita com o facto de não receber, por parte de enfermeiros e médicos, qualquer informação sobre o estado de saúde do seu filho. W. não sabe o que pode fazer. “Estou de mãos atadas. Estou em convalescença, fraca, mas, ainda assim, com força para denunciar mais uma idiotice destas cabeças. Só quero que isto se resolva logo”, apontou, sem mais dizer.

      O PONTO FINAL pediu esclarecimentos aos Serviços de Saúde que, até ao fecho desta edição, não responderam às nossas perguntas.