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      Morreu o 265.º Papa. Bento XVI visitou Macau e Hong Kong quando ainda era cardeal

      Estávamos em 1993, quando o então cardeal visitou os dois territórios que ainda se encontravam sob a alçada de Portugal e Reino Unido, respectivamente. Joseph Ratzinger encontrou-se com as altas instâncias da Igreja Católica e visitou as Ruínas de São Paulo, entre outros locais, precisamente no ano em que foi designado cardeal-bispo da Sé Episcopal de Velletri-Segni. Foi Papa de Abril de 2005 até Fevereiro de 2013. Sucedeu a João Paulo II e deu lugar ao actual Sumo Pontífice Francisco, com quem digladiou o lugar em 2005. O jesuíta Luís Sequeira recorda a passagem de Ratzinger por Macau.

      Morreu no último dia do ano, no Mosteiro Mater Ecclesiae no Vaticano, o Papa Emérito Bento XVI. Aos 95 anos, Joseph Aloisius Ratzinger foi eleito o 265.º Papa aos 78 anos, tendo abdicado, em 2013, por motivos de saúde. Aliás, desde então, o seu estado de saúde nunca mais voltou a ser o melhor. “Senhor, amo-te” foram as últimas palavras ditas por Bento XVI antes de morrer, segundo um dos enfermeiros que o acompanharam naquela noite. Esse foi o relato que o enfermeiro fez ao secretário pessoal de Joseph Ratzinger, monsenhor Georg Gänswein, de acordo com o jornal oficial do Vaticano Vatican News.

      O Papa Francisco pediu, no Angelus do novo ano, orações por Bento XVI, a quem definiu como “servo fiel do Evangelho e da Igreja”, aos milhares de fiéis que se juntaram na Praça de São Pedro. “Nestas horas invocamos a sua intercessão em particular para o Papa Emérito Bento XVI, que ontem [sábado] deixou este mundo. Estamos todos unidos, com um coração e uma alma, a agradecer a Deus pelo dom deste fiel servo do Evangelho e da Igreja”, disse Francisco, na celebração da Eucaristia, ele que foi o primeiro a velar corpo de Bento XVI após a sua morte.

      Mas afinal quem foi Joseph Ratzinger? Recuando alguns anos no tempo, mais precisamente até Março de 1993, um episódio curioso. Ainda como cardeal, Ratzinger visitou Macau e Hong Kong. Nesse ano, o alemão havia sido designado cardeal-bispo da Sé Episcopal de Velletri-Segni, cargo que manteve até ao início do seu papado.

      Durante o seu cardinalato, o cardeal visitou Macau e Hong Kong, onde se encontrou com Domingos Lam e John Baptist Wu, bispos dos dois territórios, respectivamente, na altura sob a alçada de Portugal e Reino Unido.

      O padre Pedro Chong, vigário-geral da Diocese de Macau, em declarações à comunicação social, recordou que o então cardeal Ratzinger, para além de ter reunido com Domingos Lam, visitou alguns locais do território, incluindo o monumento ex-libris de Macau, as Ruínas de São Paulo.

      Em Hong Kong, o alemão falou numa reunião realizada pela Federação das Conferências Episcopais Asiáticas, dizendo, naquela altura, aos bispos que a missão da Igreja “é mais uma questão de interculturalidade do que de inculturação”. “Cunhou o novo termo e exortou a seu uso, explicou, para expressar com mais precisão o encontro de culturas que deve ocorrer quando a cultura da fé cristã encontra outras culturas”, referiu o bispo.

      O cardeal John Tong contou, durante o seu bispado (2009-2017), que trouxe Ratzinger para se encontrar com o então governador, Christopher Patten, assumido católico, na Casa do Governo. John Tong também recordou ao South China Morning Post que Bento XVI encontrou-se com o saudoso cardeal João Batista Wu, visitou o Seminário do Espírito Santo e o Centro de Estudos do Espírito Santo de Hong Kong.

      Recorde-se que o único Papa a visitar Hong Kong foi o Papa Paulo VI, que presidiu a uma missa campal no Estádio de Hong Kong perante uma multidão de cerca de 15 mil pessoas em 4 de Dezembro de 1970.

      Entretanto, em Macau, o bispo local, em nome da Diocese, expressou, através de um aviso de obituário, “gratidão ao falecido Santo Padre pelo seu cuidado pastoral e serviço exemplar à Igreja”. Na próxima quinta-feira, dia 5 de Janeiro, um dia antes do Dia de Reis, pelas 19h, será celebrada uma Missa de Requiem por Bento XVI na Sé Catedral.

       

      CONSERVADOR, MAS UM GRANDE TEÓLOGO

      Ao PONTO FINAL, o padre Luís Sequeira, em Macau desde 1976, recorda a passagem de Joseph Ratzinger, que acompanhou durante o périplo pela cidade em 1993. “Uma pessoa discreta e humilde, de poucas palavras. Pareceu-me um intelectual, na verdade, um grande teólogo”, começou por dizer, lembrando a sua obra sobre Jesus Cristo, “de reflexão muito profunda”.

      Falaram, ainda que “muito brevemente”, de Johann Adam Schall von Bell – um missionário jesuíta alemão que viveu grande parte da sua vida na China, tendo chegado a Macau em 1619. “Sabia perfeitamente quem era. Na verdade, demonstrou ter interesse na história da Companhia de Jesus, principalmente, aquela história relacionada com a presença dos jesuítas em Macau e na China, tendo gostado muito de conhecer de perto as Ruínas de São Paulo”, contou.

      O jesuíta destaca ainda o desassossego demonstrado, já então, pela situação e posição da Igreja Católica no contexto da China. “Manifestou, nas conversas que teve, uma grande preocupação com esse tema.”

      Contudo, essa preocupação não deixou Bento XVI de, no seu primeiro consistório, a 24 de Março de 2006, ter elevado ao cardinalato o arcebispo de Hong Kong, Joseph Zen, forte opositor do regime comunista chinês.

      Luís Sequeira referiu ainda que Ratzinger possui um pensamento católico ortodoxo que, para muitos de seus críticos, “é tido como sendo conservador”. No entanto, acrescentou, “era um diocesano que tinha um grande serviço na Igreja”. “Tinha, de facto, fama de conservador, mas era um grande teólogo com uma grande sensibilidade de fé”.

      O padre Sequeira admitiu ainda que o seu papado acabou por ser um pouco “ingrato”, uma vez que sucedeu a João Paulo II e antecedeu a Francisco, ambos “Papas muito queridos e populares”. “Diria que a posição dele talvez tivesse sido ingrata, mas nunca foi incorrecta. Tinha um grande sentido de Deus na procura da verdade, mas também reconheceu as dificuldades da Igreja Católica nos tempos actuais”, concluiu, citando uma frase que vem a propósito: “A morte não é um ponto final, mas o princípio de um encontro com Deus”.

       

      ABUSOS SEXUAIS POR EXPLICAR

      Diversas instituições e personalidades lamentaram a morte de Bento XVI. A Conferência Episcopal Alemã prestou homenagem a Bento XVI sem esquecer “questões que permanecem em aberto”, referindo-se à forma como lidou com os casos de abusos sexuais quando era arcebispo de Munique. “Pediu desculpa às pessoas afectadas, mas há questões que permanecem em aberto”, afirmou o presidente da Conferência Episcopal Alemã, numa carta citada pela agência de notícias espanhola EFE.

      Recorde-se que os abusos sexuais a menores por padres e o “Vatileaks”, caso em que se revelaram documentos confidenciais do Papa, foram temas que agitaram o seu pontificado.

      Por sua vez, o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, já afirmou tencionar estar presente no funeral do Papa Emérito, indo e regressando no mesmo dia. Interrogado pela RTP, em Brasília, onde esteve na tomada de posse como Presidente do Brasil, Marcelo respondeu afirmativamente. “Mas em princípio irei a Roma, já há outros chefes de Estado que também vão”, referiu.

      O Presidente recém-empossado do Brasil, Lula da Silva, também manifestou a sua tristeza pela morte de Bento XVI e destacou o “compromisso com a fé” do Papa Emérito.

      Já o Presidente de Angola, João Lourenço, apresentou ao Papa Francisco e aos católicos as condolências e pesar pela morte do Papa emérito Bento XVI, cuja ação em prol do humanismo elogiou. “A Igreja católica e o mundo em geral perdem uma figura que prestou um significativo contributo ao papel positivo e notavelmente construtivo que a igreja católica vem desempenhando no mundo, em prol de um humanismo cada vez mais necessário nos tempos que correm, na relação entre Povos, Nações e Indivíduos”, escreveu João Lourenço na mensagem enviada ao Papa Francisco.

      Joe Biden também lamentou a morte do Papa emérito Bento XVI recordando um “teólogo de renome com uma vida de devoção à igreja”. “Será sempre relembrado como um teólogo de renome com uma vida de devoção à Igreja, guiado pelos seus princípios e pela sua fé”, refere o chefe de Estado norte-americano num comunicado divulgado no portal da Casa Branca.

      O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, recordou Joseph Ratzinger como um “promotor de valores universais”. “Exprimo as minhas sinceras condolências ao Papa Francisco, à hierarquia e a todos os fiéis da Igreja Católica pelo mundo, pela morte do Papa Bento XVI”, afirmou, numa publicação na sua conta oficial da rede social Twitter.

      A Santa Sé publicou um testamento espiritual que Ratzinger escreveu em 29 de Agosto de 2009 onde, entre outras mensagens, pede “perdão do fundo do coração” àqueles que possa ter prejudicado ao longo da sua vida.

      Os restos mortais do Papa emérito estão expostos na Basílica de São Pedro, no Vaticano, para que os fiéis que queiram possam dar-lhe um último adeus. O funeral de Bento XVI realiza-se na quinta-feira, na Praça de São Pedro, no Vaticano, às 9h30 locais (16h30 em Macau), numa celebração presidida pelo Papa Francisco. A cidade de Roma espera receber cerca de 35 mil pessoas durante o velório e cerca de 60 mil no funeral, segundo estimativas do autarca da cidade. Ratzinger será enterrado numa cripta na Basílica de São Pedro.

       

      CONTRÁRIO AO REGIME NACIONAL-SOCIALISTA DE HILTLER QUE FOI OBRIGADO A SERVIR

      O Papa Emérito Bento XVI nasceu em Marktl am Inn, na Alemanha, a 16 de Abril de 1927, com o nome Joseph Aloisius Ratzinger. Filho de um comissário da polícia e de uma cozinheira, Ratzinger revelou os primeiros vislumbres da vocação sacerdotal nos anos de 1930, em Aschau.

      Em 1941, um dos primos de Ratzinger, um menino de 14 anos de idade com síndrome de Down, foi morto pelo regime nazi em sua campanha eugénica. Isso aprofundou ainda mais a religiosidade da família de Bento XVI e a sua não concordância com o regime nacional-socialista de Adolf Hitler.

      No entanto, nesse mesmo ano, quando fez 14 anos, Joseph Ratzinger teve de se incorporar na Juventude Hitleriana, uma instituição que visava treinar crianças e adolescentes alemães de ambos os sexos, dos seis aos 18 anos, nos interesses nazis. De acordo com biógrafo de Bento XVI, John Allen, o alemão “não era um membro entusiasta”. “Recebeu gratuidade escolar por pertencer a esse grupo, mesmo não participando nos seus encontros, graças à amizade com um professor de matemática filiado ao partido Nacional-Socialista, que lhe deu aulas no seminário”, referiu Allen, por diversas vezes.

      Em 1943, com 16 anos, foi incorporado, através de alistamento obrigatório, no exército alemão, tendo sido colocado numa divisão da Wehrmacht encarregada da bateria de defesa anti-aérea da fábrica da BMW nos arredores de Munique. Mais tarde, esteve ainda em Unterförhring e Gilching, a norte do lago Ammer. Foi dispensado a 10 de Setembro de 1944 do serviço em Gilching e poucos dias depois foi enviado para um campo de trabalho em Burgenland, na fronteira da Áustria com a Hungria e antiga Checoslováquia para realizar trabalhos forçados. Daí foi enviado para um quartel em Traustein, de onde desertou pouco tempo depois.

      Com a rendição alemã em 8 de Maio de 1945, Ratzinger ficou preso no campo de concentração de prisioneiros das forças aliadas em Bad Aibling, com mais de quarenta mil pessoas. Acabou sendo libertado a 19 de Junho, apenas dois meses depois de ter completado 18 anos.

      Com o irmão Georg Ratzinger, Joseph entrou num seminário católico. A 29 de Junho de 1951, ambos foram ordenados sacerdotes pelo cardeal Faulhaber, arcebispo de Munique. A partir desse dia, nada foi como dantes. Em 1952, iniciou a sua actividade de professor na Escola Superior de Filosofia e Teologia de Frisinga, tendo leccionado teologia dogmática e fundamental. Leccionou, pelo menos, até 1977, altura em que foi nomeado arcebispo de Munique e Frisinga a 25 de Março de 1977, pelo Papa Paulo VI, e elevado a cardeal, meses depois, no consistório de 27 de Junho de 1977.

      Participou do Conclave de Agosto de 1978 que elegeu o Papa João Paulo I e do conclave de Outubro deste mesmo ano que resultou na eleição de João Paulo II, com quem manteve uma amizade profunda. Foi designado cardeal-bispo da Sé Episcopal de Velletri-Segni em 1993.

      Foi eleito, no Conclave de 2005, o 265.º Papa da Igreja Católica e bispo de Roma de 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013, e posteriormente Papa Emérito e Romano Pontífice Emérito da Igreja Católica. Em 2013, por motivos de saúde, oficializou a sua abdicação. Desde sua renúncia era Bispo emérito da Diocese de Roma.