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      Início Cultura Cem anos da mulher que veio para ver a terra

      Cem anos da mulher que veio para ver a terra

      A escritora Maria Ondina Braga nasceu há um século na cidade que carrega como apelido. Entre muitas outras paragens, viveu e escreveu Macau e a China. O Festival Literário de Macau recorda-a este fim-de-semana, com a projecção do filme “O Que Vêem os Anjos” e uma conversa à volta da sua escrita na Livraria Portuguesa que conta com a participação da investigadora Isabel Cristina Mateus, além do realizador Tiago Fernandes e da académica Vera Borges.

      “Não há na literatura portuguesa [do século XX] uma escritora mais pluricultural do que Maria Ondina Braga”, diz com satisfação Isabel Cristina Mateus, académica e uma das responsáveis, a par de Cândido Oliveira Martins, pela edição da Imprensa Nacional Casa da Moeda de Portugal das Obras Completas da autora nascida em Braga em 1922 e que ali haveria de acabar os seus dias, em 2003. A professora será uma das participantes na conversa que na tarde deste domingo, 4 de Dezembro, acompanhará no Festival Literário de Macau a projecção de “O Que Vêem os Anjos”, documentário da autoria de José Miguel Braga, com realização de Tiago Fernandes, do colectivo artístico MalaD’arte. O cineasta a académica portuguesa radicada em Macau, Vera Borges, serão outros dos intervenientes na conversa.

      Maria Ondina Braga foi sempre uma “escritora em viagem”, como lhe chama o autor do documentário José Miguel Braga num depoimento que será exibido na mesma sessão agendada para o final da tarde na Livraria Portuguesa. Por isso, o mapa ‘ondiniano’ é complexo e são precisas coordenadas para organizá-lo – foi isso que tentaram fazer os coordenadores das Obras Completas da autora. “Eu e o meu colega Cândido, enquanto coordenadores, entendemos que não devíamos fazer uma reedição da obra da escritora com base num critério cronológico, que no caso dela pode ser até complicado, porque ela reviu muitos destes livros que têm diferentes datas de escrita e publicação. Entendemos que devíamos seguir um critério genológico”, conta Isabel Cristina Mateus. Num primeiro volume publicado este ano agrupou-se tudo aquilo que são “auto-ficções ou auto-biografias ficcionais”, e que inclui “Estátua de Sal”, Passagem do Cabo, uma reformulação de “Eu Vim para Ver a Terra”, a obra de estreia dela publicada em 1965, e também “Vidas Vencidas”, de 1998, que é “um livro que foca muito a memória da cidade onde nasceu, Braga”. Estão programados um total de sete volumes. A 13 de Janeiro de 2023, dia do aniversário da escritora, deve ser apresentado o segundo volume, que “conterá uma série de biografias que Maria Ondina escreveu sobre escritoras, a quem ela chama suas companheiras de solidão”, e que contém nomes tão importantes para a história da literatura como Virginia Woolf, as irmãs Brontë, Colette ou Katherine Mansfield. “A Maria Ondina deixou inédito um segundo volume destas biografias breves e vamos inclui-lo”, revela a investigadora. Entre os textos inéditos estão biografias de escritoras como Anais Nin, Carson Mccullers mas também as portuguesíssimas Ana Plácido e Maria Archer, ou Rosalía de Castro, da Galiza. Isabel Cistina Mateus acredita que este volume “será material interessante para o leitor que esteja motivado para um tipo de escrita dita feminina mas também para o leitor que se interesse pela literatura de um modo geral”.

      Outros inéditos de Ondina são sobre temáticas diversas, “desde crónicas, relatos de viagem, conferências, estudos sobre literatura contemporânea chinesa de autoria feminina, correspondências várias, diários de bordo”. Há também poesia que está por publicar. Todo este material avulso irá integrar o último volume destas Obras Completas. Pelo meio, serão publicados os tomos referentes ao romance e aos contos que a autora deixou, ao ritmo de dois por ano.

       

      A importância de Macau

      Isabel Cristina Mateus não têm dúvida de que obras como “Nocturno em Macau” e “A China Fica ao Lado”, “um dos livros que Ondina mais estimava”, bem como toda a vivência da autora em Macau, são “absolutamente determinantes para a escrita dela, conferem-lhe um timbre especial, a sua marca de água, a marca diferenciadora relativamente a tudo aquilo que são os autores de literatura em língua portuguesa, nomeadamente aqueles que passaram por Macau e escreveram sobre Macau – Wenceslau de Moraes, Altino Tojal, por exemplo – mas que escreveram de um ponto de vista, digamos, de fora, orientalista”. Para Mateus, Ondina não tem esse olhar de fora, “há aliás um conto de ‘A China Fica ao Lado’, ‘A Pousada da Amizade’, em que a voz narrativa diz ‘Estrangeira mas não estranha, apenas não chinesa’. Aquilo que estimula o olhar da escritora “é sempre a natureza humana, independente da geografia onde ela se manifeste. Esse lado despreconceituado, não preso a estereótipos, a uma visão exterior, é uma marca muito interessante em Maria Ondina, que talvez tenha a ver com esse território um pouco no limiar que é Macau”.

      A 13 de Janeiro, no bracarense Theatro Circo, Maria Ondina sobe ao palco através de um espectáculo concebido por António Durães, com música original do pianista Luís Pipa a partir do seu universo literário. A viagem continua.

       

      Jin Guoping

      “Maria Ondina sonhava ir mais longe para conhecer a China misteriosa”

      Foi Jin Guoping quem traduziu para chinês os livros “A China Fica ao Lado” e “Nocturno em Macau”, de Maria Ondina Braga, tornando as suas palavras acessíveis a muitos mais leitores. Numa curta entrevista por email, enfatiza o carinho que tinha pela autora e recorda-a como uma mulher coberta de melancolia.

       

      – Como se cruzou com a obra de Maria Ondina Braga?

      Jin Guoping (J.G.) – Ela foi minha colega no Departamento de Português da Universidade de Línguas Estrangeiras de Pequim nos anos 80 do seculo passado.

      – Porque decidiu traduzir o livro “A China Fica ao Lado”? E como foi o processo de tradução, de um ponto de vista técnico e de encontrar a “voz” semelhante à da autora num idioma tão diferente?

      J.G. – Gostei da “A China Fica ao Lado” e decidi pô-lo em chinês para que o público chinês a conhecesse. “A China Fica ao Lado” constitui-se de impressões duma portuguesa que vivia em Macau e sonhava ir mais longe para conhecer a China misteriosa, que fica em fronte da península. Tenho uma base muito boa de espanhol que aprendi desde os meus sete anos com um galego republicano que se refugiou na China e depois de licenciado comecei a estudar o português, de modo que a escrita dela é-me perfeitamente familiar e não tive nenhuma dificuldade de a traduzir para chinês.

      – Que acha das impressões que Maria Ondina passa neste e noutros livros sobre Macau e a China? Foi uma autora que soube ler, captar e registar os lugares por onde passou ou nem por isso?

      J.G. – Parecia-me solitária. Como tal, ela era boa observadora e transpor as suas visões e impressões para a escrita. Tanto em “A China Fica ao Lado” como em “Nocturno em Macau” e “Angústia em Pequim”, não escondia uma profunda melancolia. Ela foi uma grande exploradora do melancolismo [sic]. O título de “Angústia em Pequim” não agradou a algumas pessoas que nem a leram e tiveram a impressão de que ela teria contado a sua vida angustiada em Pequim. Essas pessoas devem dar-se ao trabalho de ler e depois dirão. Além da “A China Fica ao Lado”, em Lisboa também traduzi “Nocturno em Macau”. O manuscrito [de “A China Fica ao Lado] foi entregue ao ICM, que em vez de o dar a prelo, perdeu-o. O mesmo aconteceu com “Nocturno em Macau”. O que vemos agora já é uma segunda tradução feita de raiz de “A China Fica ao Lado”. Naqueles anos não havia computadores e nem guardei uma cópia. Porque é que aconteceu sempre isto com os meus manuscritos, até agora não compreendo, talvez nunca [venha a compreender]. Mais fica registado para a posteridade.

      – Que memória guarda de Maria Ondina Braga?

      J.G. – Convivi com ela tanto em Pequim como em Lisboa. Ela convidou-me varias vezes para a casa dela em Benfica. A memória que guardo dela é boa. Sempre me pareceu uma pessoa simpática, com forte sotaque nortenho, mas não escondia a sua amargura e solidão da vida, que a maioria dos seus escritos nos fazem sentir.

       

      Macau nas palavras de Ondina

      “Macau é outra coisa. Macau é a minha alma a revelar-se, é toda uma vida de exaltação e de mágoa analisada, revivida, pronta a ser cantada.”

       

      “As tardes, de volta das aulas, neste meu estreito quarto atravancado de livros, olho em redor as paredes brancas, onde se destaca o colorido de uma ventarola chinesa, e depois o meu próprio rosto no espelho. Então, como a madrasta da Branca de Neve diante do cristal mágico, pergunto: “Haverá alguém mais triste do que eu?”

       

      “As noites volumosas, gordas de Macau a encherem todo o meu quarto, num desprezo absoluto pela minha pessoa. Refugio-me ao canto da cama, a transpirar sob o peso delas.”

      in Estátua de Sal

       

      “Se o amor nem sempre é motivo para uma mulher se empenhar, é-o pelo menos para ela medir forças consigo mesma. Há na literatura chinesa um verso que define uma bicicleta: ‘Só quando avanço é que não caio”. Amar um chinês em Macau, uma portuguesa, uma metropolitana! Tratasse-se, vamos lá, de um macaense, mas um chinês! E logo em Macau, nas águas paradas de Macau. A tentação de arremessar uma pedra ao atoleiro.”

      in Nocturno em Macau