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      InícioCategorias do ParágrafoMemóriaMorreu Carlos Melancia, antigo governador de Macau

      Morreu Carlos Melancia, antigo governador de Macau

      O político português encontrava-se internado no hospital de São José, para onde foi transportado após uma queda. Abandonou a liderança do Executivo de Macau em 1990 devido ao “Caso do Fax de Macau” por alegada corrupção passiva. Foi ilibado do processo anos mais tarde, em 2002. Muitos o recordam como um “bom governador”.

      O antigo governador de Macau Carlos Melancia morreu este domingo, em Lisboa, aos 95 anos. O político encontrava-se internado no hospital de São José, para onde foi transportado após uma queda.

      A notícia, confirmada pela família, foi ontem avançada pela Fundação Cidade de Ammaia – responsável pela conservação das ruínas de uma antiga cidade romana localizada no Parque Natural da Serra de São Mamede, em São Salvador de Aramenha, no concelho de Marvão –, da qual Carlos Melancia foi fundador e era presidente, tendo dedicado 25 anos da sua vida ao projecto. “Todos iremos sentir uma enorme saudade do constante carinho com que nos tratava, e pela forma calorosa como nos incentivava, demonstrando pessoalmente como devemos ser determinados e resilientes para participar no seu sonho sobre a Ammaia, uma visão cada vez mais real e que a ele devemos. Será sempre recordado por todos com carinho e gratidão”, escreveu a instituição na sua página do Facebook.

      Carlos Montez Melancia nasceu a 21 de Agosto de 1927 em Alpiarça e estudou em Santarém, sede de distrito. Licenciado em Engenharia Mecânica e Electrotécnica em Lisboa, trabalhou na Sociedades Reunidas de Fabricações Metálicas (SOREFAME) até 1976, mas destacou-se enquanto político. Ocupou diversos cargos públicos. Foi secretário de Estado da Indústria Pesada e da Coordenação Económica no I Governo Constitucional, em 1976; Ministro da Indústria e Tecnologia no II Governo Constitucional, em 1978; Ministro do Equipamento Social e Ministro do Mar no IX Governo Constitucional, em 1985, ambos governos liderados por Mário Soares. Foi ainda deputado eleito pelo círculo de Leiria nas listas do Partido Socialista, cargo que ocupou antes de rumar a Oriente, onde, em Macau, de 1987 a 1990, foi Governador, sucedendo a Pinto Machado.

      Demitiu-se do cargo em 1990 devido ao “Caso do Fax de Macau” por alegada corrupção passiva. Foi ilibado do processo anos mais tarde, em 2002. O escândalo relacionou-se com irregularidades na construção do Aeroporto Internacional de Macau, em que uma empresa que se candidatou à construção, a Weidleplan, enviou a Carlos Melancia um fax a exigir a devolução de 50 mil contos doados à Emaudio, uma empresa financiada pelo Partido Socialista. A devolução foi exigida depois de a empresa não ter sido escolhida para a construção e o fax foi divulgado na imprensa durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais de 1991. Foi substituído por Murteira Nabo.

      Na sua última entrevista, feita à Agência Lusa em 2019, Carlos Melancia recordou a sua gestão do território que já tinha data de entrega para a China acertada entre os dois países.

      A Declaração Conjunta Sino-Portuguesa sobre a Questão de Macau foi assinada a 13 de Abril de 1987, há 35 anos, e Carlos Melancia tomou posse como governador do território em Julho desse ano, já para fazer cumprir o projecto de transferência da Administração do enclave, que se concretizou em 1999.

      Segundo o antigo governador, o que pretendia tanto a China como Portugal era que o território tivesse e caminhasse para a autonomia financeira, tendo sido feitos 300 milhões de euros de investimentos.

      Exemplos dessa aposta na autonomia foi a construção do aeroporto para combater o estrangulamento dos transportes e a conclusão dos hospitais Kiang Wu e Conde de São Januário. “Negociei isto tudo, mas quem acabou por os concluir foi o Rocha Vieira”, disse então Melancia, referindo-se ao governador que o substituiu no cargo e que geriu o território até à transição da Administração. Desde 1998, o antigo governador de Macau recebia mais de nove mil euros por mês, a título de subvenção vitalícia.

      Apesar de ribatejano, Carlos Melancia, manteve sempre uma ligação muito profunda ao Alentejo. Para além de fundador da Ammaia, o antigo Governador de Macau fundou ainda o Golfe de Marvão, o Hotel Garcia d’Orta, em Castelo de Vide, e foi administrador da corticeira Robinson Bros.

      O corpo está em câmara ardente desde as 17h de ontem [hora em Portugal] na Igreja de São João de Deus, em Lisboa.

       

      UM HOMEM DE TRABALHO

      À Renascença, o chefe de gabinete de Carlos Melancia em Macau, Vitalino Canas, lembra o antigo governador como um dos “grandes estrategas do desenvolvimento”. “Era um fazedor. Não ligava muito às questões teóricas e aos problemas do dia-a-dia e estava muito votado a fazer coisas”, afirmou, referindo que “esse período de grande prosperidade se deve em grande medida à visão do engenheiro Carlos Melancia, que lançou as principais infraestruturas de Macau que ainda hoje existem e são fundamentais para a relação do território com o exterior”, afirmou Vitalino Canas.

      Em declarações à TDM – Rádio Macau, Carlos Marreiros, nomeado presidente do Instituto Cultural (IC), em 1988, precisamente por Melancia, recorda um homem que deixou “boa impressão junto de portugueses e chineses”. Era “culto e humanista” e “percebeu a importância das questões culturais”, referiu o arquitecto, admitindo que “foi um bom governador”.

      O jurista Arnaldo Gonçalves também lamentou o desaparecimento de Carlos Melancia, lembrando que o governante esteve ligado a grandes e importantes projectos no território. “Liderou uma equipa de gente notável, de quem faleceu já o Jorge Coelho, seu secretário para a Administração. Concebeu e projectou os projectos cruciais de Macau: o aeroporto, o porto de águas profundas, a nova ponte, a ligação de Macau à província de Guangdong, a localização das leis e dos quadros, e a implementação da Declaração Conjunta”, escreveu, no Facebook, lembrando que o ribatejano era “um grande coleccionador e gostava de perambular, com a esposa, pelas ruas de Macau, sem segurança pessoal, comprando antiguidades nos tintins.

      Ao PONTO FINAL, Frederico Rato lembrou “um bom homem da transição”. “Quando tomou posse já a Declaração Conjuntahavia sido assinada. Teve a função de arrumar a casa e, na verdade, não teve uma tarefa fácil. Foi muito importante para o período de transição. Preocupou-se em reforçar as componentes autonómicas de Macau e é recordado por ter lançado os grandes empreendimentos”, começou por dizer.

      O advogado relembra, “o que muitos esquecem”, de que foi Melancia que teve a ideia da criação do Laboratório de Engenharia Civil de Macau, que hoje é muito importante, nomeadamente no acompanhamento e certificação de materiais.

      Também durante o seu mandato, o governador teve em braços questões sensíveis relacionadas com a comunidade chinesa.As operações de registo de trabalhadores indocumentados. A emigração ilegal foi praticamente resolvida no mandato dele, principalmente com a Operação Dragão, em 1989, mas depois também com o Incidente de 29 de Março de 1990, com mais de 45 mil pessoas nas ruas. Foi um movimento que o engenheiro Melancia teve de gerir com as forças de segurança, apesar de ser tratar de uma questão política. Geriu bem a crise e isso revelou estabilidade social”, apontou Frederico Rato.

      Homem discreto e de trato fácil, Melancia “tinha todas as condições para ser o último Governador de Macau se não fosse o caso do fax”. “E digo-o sem desmerecer o general Rocha Vieira. Ele tinha todas as condições e era um civil”, notou, acrescentando um dado curioso. “Ele utilizava muito, nas suas declarações, a expressão ‘em termos formais. O que é certo é que em termos formais ele acabou por ser absolvido nas instâncias todas e, o que também é certo, é que ‘em termos formais’ acabou substituído por Rocha Vieira.”

      Contactada pelo nosso jornal, a Fundação Jorge Álvares referiu estar a preparar uma nota de falecimento, mas, devido ao fecho desta edição e ao adiantado da hora em Macau, não tivemos acesso ao conteúdo da mesma. De igual modo, até ao fecho desta edição, nem o Governo da RAEM, nem o Governo de Portugal, nem a Presidência da República Portuguesa, nem a Assembleia da República ou até mesmo o Partido Socialista haviam emitido qualquer nota de pesar pela morte de Carlos Melancia.