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      Início Categorias do Parágrafo Memória Em memória de Hu Xudong

      Em memória de Hu Xudong

      O escritor chinês Hu Xudong morreu no mês passado, aos 47 anos. Giorgio Sinedino, sinólogo, professor e tradutor, relembra a passagem do escritor pelo Brasil, onde se conheceram, os laços que aí criaram e o impacto de Hu Xudong na vida de quantos com ele se cruzaram.

       

      I.

      Estávamos nos inícios de 2004.  “Chegou um chinês louco lá na Universidade de Brasília!  Vez e outra aparece no Minhocão, gritando umas coisas que ninguém entende. E gesticula e ri sozinho… parece que estira o dedo…”. Pelo que apurei depois, esse fora o primeiro encontro de Hu Xudong com as más-línguas e o promissor início de sua mitologia entre nós, quando de sua passagem pelo Brasil, há mais de três lustros.  Ele logo seria abrasileirado como “Rúlio Ru” – o nome, indício do seu crime, o de haver primeiro estudado castelhano; o sobrenome, prova de nosso delito, o de agressão física contra a fonética chinesa, velarizando aspiradas que, naquele idioma, são sempre leves, um simples sopro, para nós. Felizmente, as faltas de ambas as partes não terminaram causando um incidente diplomático, graças ao espírito de acomodação de nossas culturas.  Restou um ano e meio connosco.

      Era um jovem, nas imediações dos trinta anos, cheio de referências literárias na mente, que se precipitava na primeira imersão cultural de sua vida.  Vinha a nós como um precoce professor associado da Universidade de Pequim – cuja fama inigualada em seu país era displicentemente reverenciada com um levantar de ombros por nós: “PKU”? E o Ru tampouco se importava. Vivia num apartamento confortável na universidade, um senhor de meia idade que falava com forte sotaque funcionalista de Niemeyer. E o Ru tampouco se importava.  Já o havia convertido numa hospitaleira morada. As caligrafias, do punho do próprio, penduradas aqui e ali.  As cadeiras estudadamente voltadas para todas as direções imagináveis. Os cinzeiros dispersos em lugares estratégicos, assinalando onde encontrava sua inspiração para os seus poemas, diários de viagem, etc, ou onde passava a esmo o seu ócio.

      Era um lugar animado, paragem certa da pequena, mas crescente, comunidade de pós-adolescentes chineses que vieram à nossa capital cursar universidade. Era um lugar animado, em que o Ru aproveitava suas folgas para dar umas aulas de chinês, língua eternamente exótica, para os não poucos interessados, pelo menos por alguns meses – por questão de honra – e nunca por muitos mais. Como um desses neófitos, testemunhei as marés e contramarés de gente, chineses e chinesas, brasileiros e brasileiras, que vinham gozar da companhia daquele rapaz de meia-altura, olhos amendoados, tez puxando para oliva, lábios tendendo para púrpura, cabelos desguedelhados, dentes manchados de nicotina, com uma gargalhada que mais parecia cacarejo, hipnótica, que levantava os mortos de alegria. O que viam nele? Um exótico, um humorista, um conversador, um erudito, um artista. Um amigo.

       

      II.

      Estávamos em algum momento de 2013. Eu me mudara recentemente para Macau. Por obra do acaso, ou da providência, ainda não sabia. Soube, sim, que Hu estava aqui, participando do Rota das Letras. Iria assistir a sua palestra, na Universidade São José, e depois jantaríamos juntos.  Revivi os oito anos que se passaram em uns poucos instantes. Hu tinha voltado em 2005 para Pequim. Eu, tinha chegado lá um pouco depois dele. Encontramo-nos uma vez, como se para matar a saudade. As outras, pouquíssimas outras, por acaso. Hu ajudara-me com uma carta de recomendação para a PKU. Aquela, dos ombros erguidos. Escrevera-a à mão, num papel pautado, para rascunho, todo enrugado, com algumas rasuras. Valeu-me seis anos de estudos. Retornei ao meu minúsculo escritório no Tap Seac.

      Mudara muito, agora entendia. Naqueles anos em Pequim, continuara perdido na minha existência egocêntrica.  Confesso.  Escondera-me de Hu, que tinha sido, melhor, era o meu mentor.  Naqueles poucos meses no Brasil, havia me ensinado a língua, encorajado-me a ir buscar a China nas fontes. E, pelo que entendia do seu excêntrico exemplo, a buscar “viver a vida”.  Fi-lo à brasileira, na China – com mais fracassos do que sucessos.  Era uma metrópole provinciana, Pequim, que eu amava e de que tinha ciúmes, vendo-a transformar-se em torno de mim e de minha bicicleta.

      Porém, para ser franco, nunca tinha deixado de buscar notícias de Hu. À medida em que fui amadurecendo, em que disciplinava a minha vida, fui compreendendo coisas que, simplesmente, não tinha sido capaz de apreender em Brasília. Depois de haver vivenciado a vida universitária, profissional e cotidiana na China, percebi o quanto Hu era raro. Não apenas na China, em qualquer lugar. Hu tinha um coração, imenso. Àquelas pessoas que passavam pela sua vida, completos estranhos, ele nunca se fechava, sempre se doava. Compartilhava altruisticamente seu tempo, energia, posses, recursos escassos. Era um professor de que os alunos se lembravam, não como professor, mas como uma pessoa. Que mais dizer?

      Naquela tarde que se estendeu pela noite, encontrei um outro Hu. Mais penseroso, emotivo, frágil. Passara dos quarenta, tivera uma filhinha. Perguntado sobre o “apelido familiar”, nome íntimo que os pais usam para chamar os filhos, citou um locus classicus, um poema antigo. Não conhecia. Mas percebia. A paternidade havia o apresentado à mortalidade. A sobrançaria da mocidade dá lugar ao realismo da maturidade.

      Sempre chega o momento em que os olhos miram afora, para a carne de nossa carne, e daí vêm o sentimento de impotência, o medo de tombar sob a responsabilidade – de não estar lá. Hu havia me apresentado a minha esposa. Sem filhos, eu, de repente entendia aquele coração de pai, dele.  “Por que vocês nunca me disseram que decidiram se casar?”; “não fui eu quem apresentou vocês, um ao outro?”. Olhava-nos, não com olhos de inquisidor, mas com olhos de quem fez o bem, sem esperar recompensa maior do que boas notícias – e até um “obrigado”. Baixei a minha cabeça, pois somente então eu compreendera algo que talvez todos entendam.

      Aquela foi a última vez em que o vi com os meus olhos. Ainda ouvi de seus problemas, dos desencontros que têm os que querem(os) algo diferente da vida. Mas não merecem menção. Hu adotou um gatinho e alimentava a bichanada abandonada naquele imenso campus – do próprio bolso, sem alarde, por caridade. Amava, ilimitadamente, à sua filhinha e à companheira da vida inteira, que se revelou demasiada curta. No caminho canseiroso do comezinho, Hu tropeçou e ergueu-se no Céu. Muito obrigado por tudo, Xudong.

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