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      Banda desenhada de “Os Lusíadas” de Fido Nesti procura aproximar o público jovem dos clássicos

      Partilhando o seu método de trabalho “hercúleo” de desenho à mão das pranchas das suas obras de banda desenhada, o ilustrador Fido Nesti esteve na Casa Garden para uma apresentação do processo de adaptação de “Os Lusíadas”, de Camões, ou “1984”, de Orwell.

       

      Fido Nesti trabalha desde os anos 80 na área de ilustração, colaborando regularmente com o Folha de São Paulo e com a revista New Yorker, para além de ter também sido responsável pela ilustração das capas de livros para a editora Penguin. Em Macau a convite do Festival Literário, trás à cidade a sua primeira banda desenhada, que foi publicada em 2006 – “Os Lusíadas em quadrinhos”.

      Na sessão de ontem, e com orientação de Sara Figueiredo Costa, o autor começou por partilhar com os presentes a evolução inicial da sua carreira. Porque o pai era publicitário, em pequeno teve a liberdade de “desenhar até nas paredes, sem parar”. Depois de trabalhar em animação para publicidade televisiva, trabalho que não lhe agradava porque “para um segundo de vídeo era preciso tantas pranchas”, passou para o desenho de publicações editoriais, entre elas com editora brasileira Abril, entretanto extinta.

      A ilustração de capa ou “miolo” de livros foi para si uma transição “interessante”, tendo colaborado com editora Kalinka na obra “Contos Russos Juvenis”, e também com editora Penguin nas capas para “Mansfield Park” e “Emma”, de Jane Austen. Um apreciador de clássicos, Fido Nesti confessou que lê os livros “de cabo a rabo” antes de conceber a ideia para a capa. “Por um lado, o livro exige mais do que a ilustração para um artigo de uma revista, mas por outro não, já que é sempre um exercício de síntese de uma história”.

      Quanto às ilustrações para o Folha de São Paulo, que é um trabalho que realiza de forma regular há mais de vinte anos, diz que já perdeu a conta da quantidade de desenhos que fez para o jornal brasileiro. Uma vez por mês, o texto chega a uma sexta-feira, e em três a quatro horas tem de construir a ideia e fazer o desenho, explicou.

      A colaboração com a revista New Yorker ao longo de uma década também foi destacada durante a sessão do festival, com o ilustrador a apresentar imagens de algumas dessas ilustrações em que foi “interessante fazer ilustração para artistas que não conhecia”, confessou, indicando que em um desses trabalhos teve de fazer um desenho do músico português António Zambujo a tocar viola.

      A oportunidade de trabalhar em banda desenhada surgiu em 2006, sendo a sua adaptação de “Os Lusíadas” o primeiro passo numa fase diferente da sua carreira, que depois prosseguiu com “A Máquina Goldberg” em 2012, e adaptação de “1984”, de George Orwell, em 2020. A adaptação deste tipo de clássicos, confessa, tem sido para si “um trabalho hercúleo”, que começa com a leitura, releitura e anotações. “Costumo colocar no meu escritório um painel de cortiça com as etapas que tenho de fazer. Na verdade, o que faço é intuitivo: faço umas ‘story boards’ em forma de rascunho”, explicou. Por outro lado, quando projecta as suas criações pensa sempre “em duplas, em duas páginas de um livro que vão ter um formato X ou Y”.

      Uma particularidade em concreto da adaptação de Fido Nesti de “Os Lusíadas” é a de se ter mantido o texto original de Camões. O autor referiu que há uma tentativa de injectar algum humor através das ilustrações, um pouco em contraponto ao texto clássico, que “para uma criança de 13 anos pode ser um pouco intimidador”, argumentou. De resto, por diversas vezes Fido Nesti quis frisar que gostaria que o seu livro de banda desenhada fosse visto como “um objecto de estudo, que deve ser acompanhado por professores”. Também numa tentativa de aproximar os jovens leitores ao clássico português, o ilustrador decidiu colocar o próprio Camões a “falar com o leitor”, para ajudar a “suavizar”. A orientadora da sessão acrescentou, nesse sentido, que embora o texto esteja intocado, a camada visual ganha uma vida muito própria. Dando como exemplo o momento do Canto do Adamastor, Fido Nesti recordou o momento em que “Vasco da Gama e toda a equipa entram dentro do corpo do Adamastor como se fosse no corpo de Moby Dick”. A obra vinha também acompanhada de um pequeno livro com sonetos de Camões – “Versos de Amor e Morte” – , colectânea de versos seleccionada por Nelly Novaes Coelho e ilustrados por si que, entretanto, esgotou.

       

      CLÁSSICO DISTÓPICO

       

      O autor dedicou ainda parte da sessão a abordar o processo que levou à readaptação do clássico distópico “1984”, que foi lançada há quatro anos em vinte países, da Coreia do Sul ao Egipto, Grécia, Japão, Polónia ou Rússia. Fido Nesti partilhou que vários leitores jovens desses locais lhe escreveram a transmitir a mensagem que Orwell teria acertado no que estes jovens estão a viver no seu país. Uma obra que demorou dois anos a ser concebida, foi inteiramente feita à mão, com uma primeira etapa a lápis, seguida da etapa a tinta da china preta e “aguada”. Só depois é colocada cor no computador. “Eu sou um dinossauro”, confessou o ilustrador, admitindo que não consegue trabalhar de outra forma, mas reconhecendo que o suporte digital é válido, porque tem uma “praticalidade incrível. Mas tem uma desvantagem: nunca temos o original em papel”, lembrou.

      Este seu segundo livro de banda desenhada ganhou o prémio Eisner em 2021, distinção que é considerada como os prémios Óscar da banda desenhada. Na sessão foi ainda referido que a obra lhe exigiu um extenso trabalho de pesquisa, com cores cinza e tons escuros a reflectir a ambiência distópica. “Vivi em Londres e aquela ausência de cor por causa da bruma, e da arquitectura brutalista dos ministérios, inspirou-me”.

      Em 2012 saía a “Máquina Goldberg”, que pega nas variações Goldberg de Bach e nas geringonças de Rube Golberg, cartoonista norte americano, esclareceu a orientadora da sessão. Sara Figueiredo Costa louvou o humor sofisticado, com traços de ironia e sarcasmo da obra, que o autor esclareceu ter sido feita em colaboração com outra pessoa. Esta foi a primeira que tinha trabalhado neste formato a dois, de escritor e ilustrador. “Na Europa trabalha-se muito assim, mas eu sou solitário”.

      De momento, o ilustrador está a trabalhar num projecto sobre o bairro da liberdade nos anos 70, bairro onde residia comunidade japonesa e que também está ligado à comunidade chinesa, projecto que o autor revelou que possivelmente será “apimentado” com referências da visita a Macau. “O que vejo aqui pode servir de ajuda para compor os cenários”.

      Reflectindo sobre o caminho percorrido no seu país na área, diz que a ilustração tem muita variedade, e muito conteúdo adulto, e que já há muito se perdeu o preconceito de a ilustração ser uma literatura menor e apenas infantil. “No Brasil o mercado de editoras cresceu muito em 20 anos, com coisas a serem publicadas de fora também”. Recordando nomes como Angeli ou Laerte, da revista “Chiclete com Banana”, considera o trabalho da colega “genial e que devia ser conhecido no mundo inteiro”. Apreciador de cores menos saturadas, “que cansam menos os olhos”, relembrou aos presentes que o mais difícil é muitas vezes o mais simples. “Agora procuro uma forma mais simples, com uma quantidade menor de traços. Vejo trabalhos que resolvem o assunto com o mínimo de traços e tento seguir esse exemplo”.