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Quarta-feira, 7 de Dezembro, 2022
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      CRÍTICA

      Colin Thubron

      O Rio Amur – entre a Rússia e a China

      Tradução de Ana Reis

      Relógio d’Água

      UM VIAJANTE NAS MARGENS DO RIO AMUR

      Um rio é uma esperança. Quantos povoados e urbes e impérios não foram beber a um ou mais leitos que as atravessaram desde a nascença, porque também pela sua existência ali despontaram? Quantos portos fluviais não fazem a história dos continentes, banhados a mercadorias e a sangue? Quantas cidades a que hoje chegamos sempre e só por ar e terra não foram durante séculos alimentadas pelos cursos de água que as comunicavam com outros lugares e outros povos? Um rio é uma esperança, sim, mas nem sempre. E no caso do rio Amur, que inspira o novo livro de Colin Thubron, o rio que o viajante acompanha é um rio de abandono.

      Desde logo, o Amur é um rio que divide opiniões – sobre o local da sua nascente, sobre a sua extensão, sobre o seu nome, que se transforma quando galga as terras hoje russas e entra em território chinês, deixando de ser Amur para transformar-se em Heilongjiang, Rio do Dragão Negro. E é assim que, no idioma mas também na paisagem, o Amur é um rio que, no lugar de de unir, separa.

      Colin Thubron, veterano escritor de viagens britânico, conhece relativamente bem os países que o grande rio Amur atravessa – acima de tudo a Rússia, mas também a Mongólia e a China. Antes deste O Rio Amur – entre a Rússia e a China, já escrevera outras obras sobre os dois países (Among the Russian, em 1983; e Behind the Wall: a Journey through China, em 1987). Thubron fala russo com alguma fluência e arranha o chinês, tudo vantagens para uma empresa deste género, a de acompanhar todo o curso de um rio, desde as misteriosas e inabitadas montanhas da Mongólia até ao mar de Okhotsk, no Pacífico. Seja como for, um dos aspectos mais fascinantes deste livro é o facto de nem Thubron nem os guias e batedores que o acompanham na viagem saberem ao certo o que os espera nesta incursão por terras inóspitas e raras vezes atravessadas, muito menos por estrangeiros com aspirações literárias.

      O primeiro capítulo de O Rio Amur é dos mais duros e, de certo modo, marca o tom de todo o livro – um tom algo desolador e melancólico que atravessa praticamente cada página, ao menos até à chegada à sempre mais fervilhante China. A cavalo, Thubron, o seu guia e tradutor e mais dois homens mongóis experimentados naquelas andanças atravessam uma paisagem inóspita, difícil, pontuada por lobos e ursos e poucos ou nenhuns humanos, cinzenta e pantanosa, movediça como a história daqueles lugares que ora bem estiveram nas mãos de povos nómadas descendentes de Genghis Khan, ora tiveram de varrer para debaixo do tapete esses episódios de guerra e glória para sobreviverem (os que sobreviveram) às purgas homogeneizadoras da União Soviética.

      Como se não quisesse perder tempo, é logo a abrir a viagem e esta obra que Colin Thubron dá cabo do calcanhar e das costelas, sempre com as melhores saudações da montada que o transporta. Dorido e algo pessimista com o que ainda tem pela frente, o escriba nem por isso perde o lirismo ao aproximar-se novamente das estepes e de pequenas povoações que «parecem ser a presença humana mais leve numa terra antiga. As suas cabanas protegidas por paliçadas são luminosas, com telhados de metal em cores carnavalescas – escarlate, laranja, azul esmaltado – como se fossem pedaços de brinquedos largados sobre a relva» (p.37).

      Numa prosa bela, que apesar de tudo não escapa a alguns lugares comuns – os «olhos geniais» de alguém; as «planícies sonhadoras»; a «estranheza dos corpos chineses» que os russos procuram nos bordéis do outro lado da fronteira) – Thubron vai avançando pela terra e pelas histórias da terra antes pisada por gigantes tão dissemelhantes quanto Khan e Anton Chekhov. Num intercalar inteligente de descrições de ambientes, impressões de viagem e contexto histórico-político, vamo-nos aproximando da fronteira chinesa e daquele que é um dos capítulos mais cintilantes do livro: o que autor dedicada à cidade fronteiriça de Heihe e às povoações que a rodeiam.

      Quando o rio Amur “termina” e o rio Heilongjiang “começa”, tudo se altera. Na margem russa do rio, a cidade de Blagoveshchensk descansa, lúgubre, com o seus carros japoneses usados e uma silhueta que, vista do lado chinês, se afigura «pequena e destroçada» (p.176). Na margem chinesa, tudo respira modernidade e progresso. Ao contrário do que acontece em solo russo, tudo parece também preparado para receber os visitantes do outro lado da fronteira – os letreiros, as placas com direcções e os menus dos restaurantes estão em caracteres chineses, mas igualmente em cirílico. Só que, aponta Thubron, quase não se vêem russos. Os poucos que lhe passam pelos olhos são carregadores de mercadorias «reunidos como gado, [que] fazem fila no edifício da alfândega» (p.171); ou duas jovens russas que se aproximam para lhe falar e atiram sem mais: «Fizemos uma aposta em como não és russo». E quando o escritor lhes pergunta por que não, a resposta é elucidativa: «Porque tens um ar feliz!» (p. 173).

      O ressentimento entre russos e chineses fica bem latente nos vários episódios de época ou contemporâneos que Thubron desfia ao longo das páginas. Mas mais surpreendente ainda é perceber que o rancor em relação à China, e apesar de tudo o que passou com a União Soviética, é qualquer coisa bem viva na Mongólia, muito mais que qualquer parecer negativo face aos russos.

      Por vezes com graça, mas sem tentar ser engraçado, num registo confessional que quase nunca resvala para uma intimidade ou um sentimentalismo desinteressante, Colin Thubron leva-nos a percorrer e a descobrir um bocado de um dos lugares menos explorados da Terra. Sem fogos de artifício ou grandes excitações, apenas com a necessária bravura para percorrer e registar com a sua pena lugares onde «o amanhecer dissemina o brilho fino de outro planeta», lugares onde «o mundo parece ainda imaculado» (p.14)