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      InícioSociedadeUm conflito sem fim à vista  

      Um conflito sem fim à vista  

       Seis meses depois do início da guerra na Ucrânia e precisamente no dia em que se comemora o Dia da Independência do país, três mulheres ucranianas radicadas em Macau falam-nos sobre o presente e o futuro, os medos e anseios, e temem pelo tempo que passa. A guerra parece não ter fim à vista, dizem. No entanto, a esperança é a última a morrer.

       

      A guerra na Ucrânia iniciou-se há seis meses. Hoje comemora-se o Dia da Independência. Ontem comemorou-se o Dia Nacional da Bandeira. Entretanto, o Governo liderado por Volodymyr Zelensky proibiu qualquer acto de comemoração por temer ataques russos.

      A pouco mais de 7500 quilómetros de distância, três ucranianas radicadas em Macau falaram com o PONTO FINAL. Ao nosso jornal mostraram-se incomodadas com o facto de não conseguirem ver uma luz ao fim do túnel para o conflito.

      Esperançosa, e crente em Deus, Ivanka Koval, natural da região de Lugansk, tem “esperança de que todo o mundo ajude” o seu país. No entanto, admite, “o conflito não se vai resolver rapidamente”. “Não vejo um fim para ele e a minha família acha o mesmo. Nós só queremos que aconteça o melhor”, desejou.

      A jovem mulher acredita que o que está a acontecer “não é culpa de ninguém”. Ainda assim, atira que “talvez alguém tenha culpa”, acrescentando que tem muita dificuldade em atribuí-la a alguém. “Só quero manter o meu coração limpo de raiva e ódio. Não culpo ninguém, nem me queixo. Continuo viva. Enquanto continuarmos vivos temos de ter esperança por um futuro melhor para todos nós”, disse.

      Durante todo este tempo, Ivanka não teve qualquer intenção de regressar ao seu país. As notícias não são as melhores, concorda. “Conheço pessoas que morreram, outras que ficaram feridas. Outras ainda que perderam o seu quotidiano, outras que perderam casas e tudo o que tinham. Neste momento, os meus planos estão nas mãos de Deus. Confio plenamente nele que nunca me abandonou. Ele dirá quais serão os meus passos no futuro. Deus sabe o que está a fazer. Confio”.

       

      UM CONFLITO “MAIS PESSOAL”

      Nascida na bela cidade de Odessa, Tetiana Dovzhanska está mais fria a falar do conflito desde a última vez que conversámos há precisamente três meses. “Depois da reportagem que vocês fizeram com a comunidade ucraniana em Macau muita coisa mudou”, começou por dizer.

      A ucraniana revelou que, entretanto, o primo e o cunhado foram para a guerra. “O meu cunhado tem estado na linha da frente em posições muito complicadas. Nenhum deles se feriu e felizmente estão vivos, mas não estão bem. A situação é muito má na linha da frente. Não consigo dizer concretamente onde é que ele está. Sei que ele está num lugar muito perigoso, isso eu sei. Depois há alturas em que ele está sem contactar por mais de oito dias e nós ficamos sem saber se está vivo ou não. É muito stressante para a nossa família”, contou, admitindo que a guerra “tornou-se mais pessoal”, com toda a situação a “alterar-se para pior”.

      Tetiana continua convicta que só há um culpado nesta guerra: a Rússia. “É a minha opinião. Sei que há pessoas que defendem que há culpas dos dois lados, que não se pode culpar apenas um lado, mas eu não penso assim. Esta guerra era inevitável. Se não acontecesse este ano, aconteceria em qualquer ano que viesse”, explicou.

      Para a mulher não há dúvidas: a Ucrânia “vai vencer”. Um entusiasmo e a convicção esbarram, no entanto, nas suas previsões para o conflito, no médio e longo prazo. “A Rússia não vai desistir. Vais sempre haver tensão naquela zona. É um pouco como Israel, se assim posso comparar. Os dois países vão estar sempre em tensão. E não importa se é com Putin ou não. A situação vai continuar a acontecer, venha quem vier a seguir. A Ucrânia tem de se concentrar em si mesma, isso sim”, sugere.

      O futuro passará, quase de certeza, por voltar para a Ucrânia. “Estou a pensar em voltar, confesso. Tive planos para o fazer este ano, mas depois começou a guerra e estou a adiar. A verdade é que situação está a mudar a todo o momento. Se algo acontecer à minha família, a qualquer momento posso voltar para a Ucrânia. Uma coisa é certa, voltarei”, revelou de forma peremptória.

      Para hoje os receios são muitos. Na Ucrânia todos acreditam que o Kremlin vai atacar com tudo, para tornar um dia de festa num dia para esquecer. Tetiana é adepta dessa linha de pensamento. “Amanhã [hoje] comemora-se o Dia da Independência da Ucrânia e correm rumores de que a Rússia vai atacar forte. É sabido que a Rússia vai executar os nossos soldados prisioneiros em Mariupol, no teatro onde ocorreram as explosões em Abril. Estão a preparar uma espécie de jaulas para colocar os combatentes sobreviventes do Batalhão de Azov e vão executá-los como se fosse um espectáculo”.

      O Supremo Tribunal russo, recorde-se, classificou há três semanas o Batalhão Azov como “um grupo terrorista”. O Batalhão de Azov destacou-se na defesa de Mariupol, cidade portuária estratégica no sudeste da Ucrânia. Após semanas de cerco e resistência na siderúrgica Azovstal, em Maio, cerca de 2.500 combatentes ucranianos foram forçados a render-se ao exército russo.

       

      “MACAU É UM LUGAR SEGURO”

      Nascida também em Lugansk, uma das cidades que as forças russas consideram não ser ucraniana, Yana Afonicheva também concorda com a compatriota Tetiana. “Tudo está diferente”, admitiu, referindo que o conflito tem sido uma surpresa a cada dia que passa. “Na verdade, nunca pensei que este conflito durasse tanto tempo. No início, pensei que duraria algumas semanas e alguém apareceria para por um fim nisto, mas enganei-me. Nunca terminou e agora, seis meses depois, vejo que a situação muda a qualquer momento. Há dias em que parece que as coisas melhoram, mas noutro dia a seguir é desesperante olhar para a situação”.

      Para a mulher, “ninguém deveria querer esta guerra”. Yana não entende como é que ainda ninguém conseguiu parar o conflito. “Acho que os países aliados da Ucrânia deveriam implementar mais sanções à Rússia e ajudar de forma mais célere, enviando armamento. Muitas vezes adiam o envio de ajuda, o que me faz acreditar que alguém precisa desta guerra. Porque se ninguém precisasse desta guerra, já a teriam terminado. É totalmente culpa da Rússia, eles precisam desta guerra. Alguns países do Ocidente estão com medo de alguma coisa, outros, simplesmente, pensam que não é uma situação que lhes diga respeito. Ainda assim, esta guerra está a afectar toda a Europa, África e outros países. Porque a Ucrânia exporta muitos alimentos, como trigo, e petróleo também”, sugeriu.

      Yana também tinha planos para regressar à Ucrânia na Primavera passada, mas tudo caiu por terra com a invasão perpetrada pela Rússia a 24 de Fevereiro. “Decidi ficar em Macau o maior tempo que consiga, porque Macau é um lugar seguro. Se não conseguir ficar aqui irei para outro país, mas, para já, não será para a Ucrânia. É muito perigoso”, admitiu, lembrando que a sua situação neste momento, tal como a de Ivanka e de Tetiana, “não é fácil”. “Tenho ‘bluecard’ e, neste momento, devido às restrições pandémicas, se sair não posso voltar. Ficar aqui dá-me estabilidade. A minha família aconselha-me a que fique aqui por mais tempo, porque assim não precisam de se preocupar comigo”, contou.

      Na Ucrânia todos esperam um dia particularmente difícil, longe de grandes festejos. Já esta semana, Zelensky pediu ao país para se preparar para um possível ataque russo “particularmente forte e cruel”. O presidente ucraniano alertou que um dos principais objectivos da Rússia para hoje será o de “humilhar” o país, criando “desânimo, medo e conflito”. Algumas cidades, como Kharkiv, anunciaram um recolher obrigatório desde a meia-noite de dia 23 até ao dia 25, com vigilância militar redobrada face a possíveis ataques das forças russas.

       

      PONTO FINAL

      Ponto Final
      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau