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Sexta-feira, 12 de Agosto, 2022
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      Início Opinião A Queda de Macau

      A Queda de Macau

      O rei está morto. Longa vida ao rei”

      Declarada pela primeira vez em 1422 com a morte do Rei francês Carlos VI e a imediata ascensão ao trono do seu filho, o Rei Carlos VII, esta proclamação evocativa cheia de história e tradição é proferida apenas na ocasião extremamente rara e memorável da passagem da coroa de um monarca para outro.

       

      De algum modo, é agora o momento de fazer esta declaração para a indústria mundial do jogo. A dura realidade é que Macau – o rei indiscutível desde que ultrapassou Las Vegas nas receitas brutas do jogo (GGR, na sigla em inglês) em 2007 – já não é rei. Durante os 30 meses desde o início da crise pandémica, a GGR variou, numa base mensal de 3% a 43% dos níveis de receitas atingidas em 2019, com uma média de apenas 24% durante toda a pandemia.

       

      Entretanto, numa recuperação pós-COVID em plena expansão que muitos pensavam ser impossível, o estado do Nevada registou mais de mil milhões de dólares em GGR todos os meses desde Março de 2021 – sendo a parte relativa a Las Vegas a mais significativa, claro. Este valor é aproximadamente 50% superior à média de Macau durante toda a pandemia e cerca do triplo do GGR do último trimestre completo de Macau. Mesmo jurisdições tradicionalmente muito mais pequenas, como as das Filipinas, Singapura e Austrália, estão a bater o último trimestre de Macau, ou então andam lá muito perto.

       

      2004 A 2013

       

      A mais histórica empresa de jogo de Macau, a STDM, fundada pelo lendário Stanley Ho, deteve a concessão do monopólio dos jogos de fortuna e azar no território de 1960 a 2000. Na sequência da transferência de Macau de Portugal para a China em 20 de Dezembro de 1999, a concessão foi prorrogada até 2002, tendo a indústria sido depois liberalizada através da adição de Wynn Macau e Galaxy Entertainment, criando-se assim um triunvirato de concessionários da indústria. Subconcessões subsequentes foram concedidas à Sands China, MGM China e Melco, transformando o triunvirato num sexteto de operadores. Logo a 18 de Maio de 2004 a Sands abriu o seu primeiro casino – o Sands Macau – na península de Macau, perto do terminal de jactoplanadores do Porto Exterior. Dois meses mais tarde, o primeiro casino da Galaxy abriu do outro lado da estrada, no hotel Waldo, e a nova e promissora fase desta indústria arrancava em força.

       

      O que iríamos testemunhar durante a década seguinte foi nada menos do que um milagre. Cada um dos seis operadores abriu unidades de cinco estrelas e classe mundial ora na península de Macau – Grand Lisboa, MGM Macau, Sands Macau, StarWorld e Wynn Macau, ora na ilha da Taipa – Crown Macau (agora Altira). Três desenvolveram depois projectos ainda maiores no Cotai – City of Dreams, Galaxy Macau e The Venetian Macao. As receitas brutas do jogo aumentaram de 29 mil milhões de patacas (3,6 mil milhões de dólares) em 2003, último ano de operações em regime de monopólio, para 361 mil milhões de patacas (45,1 mil milhões de dólares) em 2013, a marca máxima do GGR ainda em vigor em Macau. A taxa de crescimento anual ao longo de uma década (CAGR) foi, por isso, de 28,7% – valor tanto mais notável se nos lembrarmos que a década incluiu a crise financeira global de 2007 e 2008.

       

      2014 A 2019

       

      Os seis anos seguintes anunciaram os primeiros ventos contrários e tiveram mais nuances do que o crescimento desenfreado da década anterior.

       

      O ano de 2014 assistiu à primeira redução do GGR desde a liberalização da indústria em Macau. É certo que foi apenas uma queda de 2,5%, mas ainda assim representou um choque após uma década de crescimento anual sem interrupções, com taxas de crescimento homólogas que variaram de “apenas” 9% (em 2009 pós-crise financeira global) a 58% (em 2010, compensando a “estagnação” de 2009).

       

      Inicialmente, e de forma um tanto ridícula, o soluço de 2014 foi imputado ao Mundial de Futebol no Brasil desse ano: de acordo com esta tese, os apostadores dos casinos teriam preferido ficar em casa para apostarem nos jogos do Campeonato do Mundo. Esta teoria foi completamente desacreditada em 2015 quando a chamada campanha de “repressão da corrupção” chegou a Macau, causando um colapso de 34% do GGR em termos anuais. A campanha tinha começado uns anos antes, mas demorou algum tempo a ganhar ímpeto e a morder os calcanhares a Macau. O sector VIP foi atingido de forma particularmente dura.

       

      Mas em 2018 a indústria mostrava ter conseguido resistir à tempestade, com o GGR a subir até aos 303 mil milhões de patacas (37,9 mil milhões de dólares), cerca de 84% do pico de 2013. Se é verdade que as receitas em 2019 baixaram para os 292 mil milhões de patacas (36,5 mil milhões de dólares), um declínio de 3,6% em relação ao ano anterior, o sentimento geral era de que a indústria tinha porventura estabilizado, deixando para trás uma fase de crescimento muito rápido para entrar agora numa nova fase de maturidade, caracterizada por taxas de crescimento anual de um único dígito.

      Ninguém poderia ter então previsto a calamidade que nos esperava mesmo ao virar da esquina.

       

      2020 ATÉ HOJE: A CRISE DA COVID

       

      Tantas páginas em jornais, revistas e websites têm sido dedicadas à COVID, que é desnecessário detalhar aqui os mais ínfimos pormenores. Ao fazer a sua entrada em Macau no final de Janeiro do Ano Novo Chinês de 2020, um pouco à imagem do meteoro que dizimou os dinossauros, a COVID-19 deu origem ao surreal e sem precedentes encerramento de todos os casinos de Macau entre 5 e 20 de Fevereiro desse ano. Foi a primeira vez, desde que há memória, que as casas de jogo encerraram em massa. Mas pior do que esses 15 dias de resultado económico-zero foi a série interminável de encerramentos das fronteiras e de restrições em matéria de viagens, que resultaram num quase absoluto arrefecimento das visitas provenientes da China Continental.

       

      Depois dos 292 mil milhões de patacas (36,5 mil milhões de dólares) de receitas de jogo em 2019, Macau caiu 80% em termos anuais, para uns sombrios 60 mil milhões (7,5 mil milhões de dólares) em 2020. Assistiu-se depois a uma ligeira melhoria em 2021 para 87 mil milhões de patacas (10,9 mil milhões de dólares), ainda assim apenas a 30% dos níveis de 2019. Mas a primeira metade de 2022 foi ainda mais desastrosa do que os dois anos anteriores, com um GGR de 26 mil milhões (3,3 mil milhões de dólares), um valor que se ficou apenas pelos 18% dos níveis alcançados em 2019. Foi o pior semestre dos dois anos e meio de pandemia, entre Janeiro de 2020 e Junho de 2022.

       

      E justamente quando se achava que já nada mais podia caminhar para pior, eis que a situação piorou. O trimestre mais recente ficou-se por uns miseráveis 12% dos valores de 2019, e o mês de Julho (ainda não concluído na altura em que este artigo foi escrito) ameaçava tornar-se o pior mês desde o início da pandemia em matéria de receitas do jogo, fruto das severas restrições fronteiriças dos primeiros 10 dias do mês, a que se seguiu um total encerramento dos casinos a partir de 11 de Julho. A minha estimativa é que o mês de Julho possa ter atingido apenas 2% da média mensal de 2019 – ou seja, na prática um resultado económico próximo do zero.

       

      LONGE DA NORMALIZAÇÃO

       

      Há dois anos e meio que se ouve repetidamente a mesma pergunta: “Quando é que as coisas voltarão ao normal?” E a resposta dos chamados “especialistas”, incluindo a nossa, tem sido sempre a mesma, apenas com algumas variações: “no próximo ano”, “daqui a alguns meses” ou “certamente que isto não pode continuar assim”.

      Mas estas respostas não passam de banalidades, baseadas unicamente em suposições, presunções ou mera comiseração. A verdade nua e crua é que não há fim à vista para o sofrimento por que Macau está a passar ao nível económico. Já desisti de fazer previsões sobre quando Macau voltará à “normalidade”, seja o que for que isso signifique. E qualquer pessoa que o faça estará a mentir. Ninguém sabe. O Chefe do Executivo de Macau previu em Novembro do ano passado que as receitas globais do jogo em 2022 seriam de 130 mil milhões de patacas. Os resultados estão muito distantes dessa estimativa, e as receitas provavelmente serão inferiores a metade daquele montante.

      Aliás, o resultado final de 2022 poderá facilmente não chegar sequer a um terço do montante previsto pelo Chefe do Executivo – ou até menos! É altura, por isso, de deixar de fingir que tudo está bem quando não está, ou de criar alarme quando não haja razões para isso. Em minha opinião, é provável que nunca mais voltemos à “normalidade”, especialmente se a definição de “normalidade” tiver como referência os níveis de receitas de 2019.

       

      Em meados de Julho, o trio de operadores americanos com interesses em Macau sentou-se lado a lado para uma entrevista no canal de televisão CNBC. O Presidente e CEO da Las Vegas Sands, Rob Goldstein, o CEO da MGM Resorts, Bill Hornbuckle, e o CEO da Wynn Resorts, Craig Billings, foram unânimes na defesa da tese de que Macau acabará por voltar aos seus antigos dias de glória.

       

      “Acho engraçado que as pessoas questionem o regresso de Macau”, disse Goldstein. “Claro que tem sido um par de anos difíceis, sem dúvida … é um período difícil. É preciso basicamente ter paciência e esperar que melhore. Mas a ideia de que tal não aconteça é um pouco difícil de imaginar – vai dar a volta provavelmente este ano ou no próximo. E quando o fizer, Macau estará de regresso. Fizemos no pico 3,5 mil milhões de dólares EBITDA [lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização]. Penso que faremos muito mais do que isso no futuro”.

       

      Hornbuckle acrescentou: “Macau fazia sete, oito vezes [o GGR de] Las Vegas… entretanto, caiu para metade, mas voltará a superá-la. É o maior mercado de jogo do mundo, sem sombra de dúvidas, e será sempre”.

       

      Se o Chefe do Executivo de Macau não consegue prever o que vai acontecer em Macau, e não sabe se a cidade vai estar fechada ou não dentro de uma semana, como é que Goldstein, Hornbuckle e Billings podem saber o que vai acontecer? Com todo o respeito – e tenho muito por este trio –, a verdade é que estão numa situação difícil. Entre eles têm dezenas de biliões de dólares investidos em propriedades amovíveis em Macau. Os concessionários viram a sua dívida aumentar de cerca de 5 mil milhões de dólares para mais de 20 mil milhões de dólares durante a catástrofe da COVID. E o processo de atribuição de novas concessões está a aproximar-se. Nestas circunstâncias, não têm outra escolha senão afirmar publicamente o seu compromisso com Macau e agir como líderes, assegurando que “os bons tempos voltarão”. Adoptar outro tipo de comportamento seria enviar um sinal ao governo de Macau e à comunidade financeira global que podia revelar-se desastroso para as suas empresas.

       

      INIMIGO NÚMERO 1 DE MACAU: COVID-ZERO

       

      Está provado há muito tempo que as consequências da política COVID-zero de Macau se traduzem num estado de economia zero para o território.

       

      Enquanto o resto do mundo aprende a viver com o vírus, a China continental optou por uma abordagem rigorosa de COVID-zero. E onde a China continental lidera, Macau segue no mesmo rumo. Uma boa parte disso deve-se à obsequiosidade política do governo de Macau para com os dirigentes de Pequim, mas há também uma razão prática – Macau depende tradicionalmente da China continental para cerca de 60% dos visitantes e cerca de 90% do seu GGR, pelo que existe uma forte pressão económica para fazer alinhar a sua abordagem com a do seu principal mercado abastecedor.

       

      Com menos de 700.000 habitantes, Macau é apenas uma borbulha em comparação com os 1,4 mil milhões de habitantes da China continental e, além disso, o continente vê Macau como um território que nada em dinheiro devido ao ‘boom’ prolongado das décadas de 2000 e 2010, pelo que a RPC não vai tomar Macau em consideração no seu processo de tomada de decisões quando se trata de relaxar a política de COVID-zero.

       

      Enquanto mercados como as Filipinas, Singapura, Austrália e o resto da região Ásia-Pacífico estão todos a abrir as suas fronteiras, colocando a COVID para trás das costas e começando mesmo a ver um ‘boom’ nas chamadas “viagens de desforra”, não há fim à vista para a política COVID-zero da China. A China e as suas duas RAE de Hong Kong e Macau começam a surgir como ‘outsiders’ globais – cada vez mais e de forma desconcertante – aos olhos do resto do mundo.

       

      INIMIGO NÚMERO 2: A POSTURA DA CHINA EM RELAÇÃO A MACAU

       

      Apesar de toda a desgraça e desolação, se fosse apenas a COVID a ameaçar Macau, não seria legítimo destronar a RAEM como rei do universo dos jogos de casino, pois seria razoável supor que Macau recuperaria após a COVID, tal como Las Vegas e muitas outras jurisdições fizeram. Mas há um segundo grupo de factores – actualmente um pouco mascarados pela presença da COVID – que continuarão a estrangular Macau muito depois da COVID.

       

      Nestes outros factores surge o facto de a China continental ter uma grande antipatia em relação à actividade económica predominante em Macau. O jogo em casinos é ilegal em todo o continente, sendo denunciado como um flagelo para a sociedade. É tolerado em Macau pela RPC apenas devido ao seu contexto histórico – que remonta a meados do século XIX como actividade legal e mais alguns séculos antes como uma importante característica cultural de Macau.

       

      Para além de ser alimentada pela ideologia (e não nos esqueçamos que a ideologia prevalece sempre sobre as considerações comerciais na China continental), esta antipatia é ainda impulsionada por uma série de peculiaridades passadas e presentes de Macau, que são certamente objecto de desprezo pela RPC. É bem sabido que a indústria do jogo em Macau foi utilizada pelos milionários chineses, particularmente na década de 2010 e principalmente através dos ‘junkets’, como um veículo importante para a fuga de capitais da China. A expatriação de milhares de milhões de dólares em lucros para os EUA através dos operadores americanos terá sido também uma pílula dura de engolir, que sem dúvida se tornou cada vez mais amarga à medida que a animosidade entre as duas superpotências mundiais cresceu nos últimos cinco a 10 anos. Estes lucros foram gerados à custa do dinheiro jogado pelo povo da China continental – por isso a RPC entende esta realidade como uma forma de transferência de riqueza para o seu inimigo geopolítico. A China cita frequentemente os “crimes relacionados com o jogo” como um mal social, e ressente sem dúvida o aumento de problemas de jogo dentro das fronteiras do continente, exportado de Macau.

       

      Há uma grande variedade de formas de expressar esta antipatia à indústria do jogo de casino de Macau – e de uma forma cada vez mais evidente – pelo continente e, como representante, pelo próprio governo de Macau. A destruição total da indústria VIP de Macau em finais de 2021 é uma delas. A recusa de permitir o processamento electrónico de vistos para os visitantes do continente em Macau é outra. Ainda outra é a repressão das viagens ao jogo por parte da Administração Nacional de Imigração da China, que declarou publicamente o seu objectivo de “manter as pessoas relacionadas com o jogo dentro [da China continental] na medida do possível”. Em tempos recentes, os jogadores do continente que visitam Macau têm sido provavelmente questionados – alguns poderiam dizer assediados – por funcionários do continente relativamente às razões das suas viagens a Macau e à sua fonte de fundos.

       

      Pequim exige incessantemente que Macau diversifique a sua economia, distanciando-se da indústria do jogo. Mas é quase inútil – uma missão impossível para Macau dada a sua história, os seus recursos terrestres (pondo de lado toda a questão da Ilha de Hengqin, que tem o seu próprio conjunto de questões), a sua população e o seu conjunto de competências, bem como a total falta de vantagens económicas comparativas da RAEM em qualquer outra área que não seja o fornecimento de jogos de fortuna e azar na região. A única excepção discutível a esta situação é a ideia de Macau actuar como uma porta de entrada para o comércio lusófono com a China – embora existam problemas de escala e de infraestruturas que tornam o projecto algo problemático. Dito de forma simples, Macau não é Hong Kong.

       

      Parecendo ignorar o facto de ser a mão que a alimenta, o conjunto de mudanças na nova lei do jogo introduzidas pelo governo de Macau em finais de 2021 e princípios de 2022, e posteriormente aprovada pela Assembleia Legislativa de Macau em Junho, foram apresentadas como “necessárias para o desenvolvimento saudável e sustentável da indústria”. As numerosas alterações foram todas negativas para os concessionários, com uma pequena excepção discutível – as alterações aos casinos-satélite. O espaço impede uma explicação detalhada, mas os leitores ávidos estarão familiarizados com as dezenas de milhares de palavras que o Inside Asia Gaming publicou sobre a nova lei e as suas consequências negativas para os seis operadores.

       

      É possível que as coisas venham a piorar com o passar dos anos, na segunda metade dos 50 anos do regime “Um País, Dois Sistemas”. Por exemplo, alguns comentadores sugeriram que a China continental pode desenvolver um RMB digital centralizado e controlado pelo governo, e forçar os apostadores a utilizar nos casinos de Macau uma moeda desse tipo. Se isso vier a acontecer, o que parece provável mais cedo ou mais tarde, a fonte dos fundos de cada aposta em Macau seria submetida a registo governamental. Um artigo publicado na edição de Junho de 2008 da Inside Asian Gaming continha uma passagem que me foi recentemente recordada. Escrito por Andrew MacDonald e pelo falecido Bill Eadington, dizia o seguinte:

       

      “Ninguém sabe ao certo o que Pequim pode estar a pensar a longo prazo, ou que alavancas podem querer puxar para controlar o crescimento e a dinâmica económica de Macau em fuga”.

       

      Como essas palavras se revelaram proféticas!

       

      PODERÁ MACAU ALGUMA VEZ RECUPERAR A SUA COROA?

       

      Apesar deste anúncio de que Macau terá sido destronada do título de rei da indústria global dos jogos de casino, o território pode recuperar a coroa uma vez mais. Se a COVID finalmente for uma questão do passado, isso será o fim do primeiro inimigo público de Macau. Mas o segundo – a postura da China em relação a Macau – conviverá connosco nos próximos anos, a menos que a RPC tenha uma súbita e improvável mudança de atitude. Com a destruição da indústria VIP, uma forte supervisão sobre os jogadores da China em geral e a aplicação muito mais rigorosa do limite máximo anual de 50.000 dólares da China sobre os fundos que podem ser anualmente retirados do continente pelos seus cidadãos, a única opção de Macau é a evoluir para uma oferta centrada no mercado de massas – muito na linha do que acontece em Las Vegas.

       

      Nestas circunstâncias, as infraestruturas de Macau em termos de quartos de hotel, transportes públicos e processamento de imigração são insuficientes para poder conduzir o GGR a níveis próximos dos alcançados em 2013 ou 2019. Claro, Hengqin pode ajudar em matéria de oferta hoteleira, mas esta experiência de cooperação Guangdong-Macau está ainda a muitos anos de uma plena maturação, se é que isso alguma vez será conseguido. Dado este cenário, estimaria que Macau poderia – nas circunstâncias mais favoráveis e sem vírus à vista – gerar um GGR de talvez mil milhões de dólares por mês, na melhor das hipóteses, um total de 12 mil milhões de dólares por ano (apenas um terço dos níveis de 2019). Isto colocaria Macau em pé de igualdade com Las Vegas, que está constantemente a atingir um nível semelhante de GGR. Claro que o EBITDA não cairia tanto, dada as margens muito mais baixas do jogo VIP agora perdido, e neste cenário o EBITDA poderia eventualmente recuperar para cerca de dois terços dos níveis de 2019 –uma estimativa ainda assim muito optimista.

       

      Se Macau o vai ou não fazer saber-se-á nos próximos anos, mas o meu conselho é que o melhor é esperar sentado!

       

      Andrew Scott

      Vice-presidente e CEO da empresa O Media