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Sexta-feira, 12 de Agosto, 2022
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      LUTA DE CLASSES

      Giovanna Madalosso
      Tudo Pode Ser Roubado
      Tinta da China

      O livro de Giovana Madalosso que agora se publica em Portugal antecede, na escrita e na publicação (no Brasil), um outro título, Suite Tóquio, igualmente publicado pela Tinta da China há cerca de um ano. São duas narrativas absolutamente independentes, mas partilham a construção de personagens e protagonistas feministas fortes e, sobretudo, um olhar complexo, feito de muitas camadas e nenhuma simplificação absurda, sobre esse conceito que tantos querem acreditar ultrapassado: a classe social. Nenhum dos livros se arvora em panfleto ou doutrina; pelo contrário, em ambos é notória uma vontade de olhar o mundo assumindo a sua complexidade, querendo investigar-lhe as engrenagens e os tropeções sem ter muita fé na ascensão a uma resposta cabal sobre como raio chegámos até aqui. É isso que os une, mesmo que as narrativas pouco mais tenham em comum, pelo que a referência ao sucessor deste Tudo Pode Ser Roubado faz sentido (até porque foi lido antes deste e é difícil mergulhar num livro em modo tábua rasa).
      A trama deste romance é uma espécie de policial às avessas. Acompanhamos as peripécias de uma empregada de mesa, que dorme com homens e mulheres em encontros de uma noite só e aproveita para furtar das suas casas algumas peças de roupa, acessórios, pequenas coisas. Escolhe os parceiros em função do potencial de terem no guarda-roupa peças que valham algum dinheiro no mercado de segunda mão e conta com a sua amiga Tiana, uma mulher trans que gere uma loja de roupa e acessórios usados, para escoar o produto dos furtos. É uma fonte de rendimento, mais do que um prazer ilícito criado pela adrenalina, que também conta para a história, e a saqueadora planeia dar entrada para a compra de um apartamento com esse extra que junta ao magro salário que o restaurante lhe paga. É também uma forma de justiça social, ou assim se apresenta na mente desta meliante pouco ameaçadora, sempre atenta às desigualdades e às muitas nuances linguísticas de que os mais ricos se socorrem para mitigar a culpa ou simplesmente ignorar a realidade que os rodeia: «Ela nos conta que, nesse vídeo, Marina se queixa de que está cansada de passar a vida em aeroportos, festas, coquetéis, galerias, e que é exatamente assim que ela, Mildred, se sente hoje. Penso em sugerir que ela tente um novo circuito: festa na laje, hospital público, ponto de ônibus, rodoviária, mas claro que não falo nada.» (pg.136) Voltemos ao policial às avessas, porque o gatilho do enredo de Tudo Pode Ser Roubado está num furto particular, uma encomenda que a narradora recebe de um desconhecido e que a levará a seduzir um professor de Letras da universidade local, em São Paulo, na tentativa de tomar posse da primeira e raríssima edição de O Guarani, livro de José de Alencar.
      Acompanhamos o crime, a estratégia prévia, a concretização e a compensação que a sabedoria popular há muito apresenta como inevitável. Acedemos à vida miserável do professor, que tem em O Guarani o único tesouro por que vale a pena viver, e à do coleccionador que o quer comprar, um acumulador de peças antigas e raras que vive da excitação provocada pela caçada seguinte, sem grande interesse real por aquilo que persegue e adquire. E apesar da destreza com que estas peripécias se alinham na estrutura do texto, alternando a progressão do roubo com episódios paralelos da vida da narradora, do seu passado e das digressões que faz à sua própria cabeça, não são os detalhes da operação criminosa o osso desta narrativa. Entre descrições psicológicas exímias e uma propensão quase trágica para notar as manchas de bolor nas paredes disfarçadas de novas que sustentam São Paulo, o Brasil e o mundo, Giovana Madalosso coloca-nos no centro de um furacão, mas a necessidade de nos desviarmos das rajadas e dos objectos em movimento desembestado não decorre do roubo ou das peripécias a ele associadas – algumas delas atravessadas por um humor de fino recorte – e sim do constante confronto com a desigualdade, o engano, as falhas de que também somos feitos.
      O que pode ser roubado, então, não é apenas o livro raro de José de Alencar, nem os tantos objectos que a narradora colecciona em encontros sexuais de uma só noite. É a tranquilidade como projecto mínimo de vida, quando a precariedade do mundo confirma que projectar o futuro é um exercício demasiado arriscado; é o direito a existir, quando Tiana é espancada pelo homem com quem dorme e por um amigo igualmente transfóbico; é a possibilidade de uma vida minimamente digna num país onde impera a corrupção e onde o fosso entre ricos e pobres, sempre bem alimentado por um racismo estrutural amplamente praticado, é uma abissal vala comum. É, em última instância, o direito àquilo a que chamamos felicidade, mesmo que esse estado de espírito seja apenas uma viajem tresloucada a bordo de um táxi onde o motorista cede o seu lugar ao comando da viatura e se instala no branco traseiro, tocando o saxofone que não pode tocar em casa, espalhando as notas de uma canção chamada “La pistola en la boca” enquanto a narradora e o homem que lhe encomendou o roubo apreciam o absurdo do momento: «O motorista desafinava aqui e ali. O Biel não parava de fumar aquela desgraça daquele Derby. Eu me defendia de suas barbeiragens segurando naquela alça também conhecida como pega-caju. E, mesmo assim, tive a sensação de estar fazendo a maior transgressão da minha vida. Estava me sentindo feliz enquanto a cidade suspirava nos escritórios.» (pg.85)
      Entre peripécias quase burlescas, desilusões emocionais e certezas que redundam em enganos, o texto cumpre o seu propósito de narrar o grande roubo e de confrontar quem o lê com outros roubos, menos materiais, mais estruturais. O desenlace deixa no leitor o sabor amargo de um corte e fica suspensa a continuidade de uma das personagens, central nesta narrativa. Não sabemos o que lhe acontece e essa ignorância a que o texto nos condena soa forçada, numa primeira leitura, para logo fazer sentido na respiração global do romance. O título confirma a sua profecia sibilina: afinal, focados