Edição do dia

Segunda-feira, 16 de Maio, 2022
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
19.9 ° C
20.5 °
19.9 °
88 %
6.7kmh
40 %
Seg
21 °
Ter
24 °
Qua
25 °
Qui
25 °
Sex
26 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      Início Parágrafo Parágrafo #75 Investigar o mal para encontrar o bem

      Investigar o mal para encontrar o bem

       

      Rithy Panh com Christophe Bataille

      A Eliminação

      Antígona

      Tradução de Paulo Faria

       

       

      A 17 de Abril de 1975, Rithy Panh e a sua família estavam entre os muitos milhares de cambojanos que convergiram para o centro de Phnom Penh para ver e tentar averiguar ao que vinham os revolucionários Khmers Vermelhos que tomavam a cidade. Sabia-se muito pouco sobre as suas reais intenções e aquelas longas filas de homens armados vestidos de preto e de calças arregaçadas como faziam os camponeses ficaram registadas na memória do pequeno rapaz de 11 anos. Mas houve outra coisa que impactou ainda mais: «O que nos surpreendeu foi o facto de os revolucionários não sorrirem. Mantinham-nos à distância, com frieza. Muito depressa, o meu olhar cruzou-se com o deles, vi os queixos cerrados, os dedos no gatilho das armas. Fiquei apavorado por este primeiro encontro e pela total ausência de alma.» (p.32)

      Panh tinha razões para estar apavorado. Ele ainda não sabia – apesar de o seu pai, até então funcionário do Ministério da Educação, ter recebido e ignorado vários avisos de amigos para deixar o país – mas ele e a sua família estavam prestes a tornar-se a partir desse dia parte do «povo novo», burgueses, intelectuais e proprietários a precisar de reeducação ou a caminho do extermínio.      «Atribuir à classe odiada um nome cheio de esperança: povo novo. Que ideia genial» (p.28), escreve Rithy Panh em A Eliminação, livro publicado originalmente há mais de uma década e escrito com a ajuda do romancista Christophe Bataille, agora publicado em português pela Antígona com tradução de Paulo Faria.

      A Eliminação é um testemunho autobiográfico de um sobrevivente que viu praticamente toda a família morrer às mãos do regime de Pol Pot, que fez mais de 1,7 milhões de vítimas nos anos 1970, dizimando o país e marcando para sempre aqueles que ficaram para contar a história. Ao mesmo tempo, o livro é também uma investigação do mal – e da humanidade do mal – através de fragmentos das entrevistas que Rithy Panh fez a Kaing Guek Eav, o camarada Duch, homem a cargo do centro de tortura e execução Tou Sleng, ou S21, nos arredores de Pnhom Penh, onde foram torturadas e executadas mais de 12 mil pessoas entre 1975 e 1979. Anos antes destas entrevistas com um homem burocrático e intelectualizado que personifica toda a maldade de um regime, Rithy Panh fez uma pesquisa profunda para preparar o filme S21 – A Máquina da Morte dos Khmers Vermelhos. Conversou com guardas, carrascos e pessoal médico que trabalhavam às ordens de Duch e que ficaram quase todos ilesos dos crimes que cometeram ou ajudara a perpetrar. Um deles disse-lhe que os prisioneiros eram «como pedaços de lenha»; outro que se tratavam não de homens mas de «animais sem alma». Duch não está no filme e o cineasta admite o incómodo com essa ausência, sensação que, apesar de tudo, achou ter superado. Até que em 2009 começa o julgamento de Duch, primeiro membro dos Khmer Vermelhos a comparecer diante de um tribunal apoiado pelas Nações Unidas, e Panh não consegue ficar indiferente àquele homem, àquelas imagens, às suas declarações.

      Rithy Panh garante permissão para entrevistar o camarada Duch e descobre um homem educado, familiarizado com o marxismo e o budismo, e no qual encontra «escassa humanidade». São os fragmentos perturbadores dessas conversas que entremeiam a saga familiar que o livro narra, bem como o processo introspectivo do cineasta enquanto vai regressando mentalmente aos lugares do passado durante os seus encontros com Duch.

      Panh não gosta da palavra «trauma» para descrever aquilo que tem carregado toda a vida, preferindo falar de uma grande mágoa. Nos anos de demência ideológica, violência extrema e eliminação de toda e qualquer individualidade que foram os dos Khmers Vermelhos, Rithy Panh sobreviveu quase que por milagre, fenómeno a que não estão alheias valentes doses de sorte e astuta resistência. «A resistência humana é misteriosa; agi como um animal. Lembro-me de ter incendiado grandes florestas com outras crianças, para preparar os campos de milho; depois, esperávamos três dias que a terra deixasse de fumegar. Ao alvorecer, avançávamos descalços, entre as brasas. Esgravatávamos na cinza e na terra queimada, como cães, com os nosso pobres pés. Seguimos o nosso instinto. Não reflectir. Lutar. E encontrámos pequenos animais que o fogo alcançara, esquilos, lagartos e caracóis que devorámos ali mesmo.» (p. 103)

      Em 1979, Panh acaba por conseguir escapar do país, depois da entrada das forças vietnamitas no Camboja. Antes de chegar a França, onde acabaria por fazer a sua vida, passa ainda um período na Tailândia. Toda a sua posterior carreira de cineasta está marcada pelos acontecimentos que atropelaram a sua família e o seu país natal. Além do documentário sobre a prisão S21, o filme A Imagem Que Faltava, que em 2013 venceu a secção Un Certain Regard em Cannes, é um documento extraordinário e inventivo sobre o Camboja e o poder das imagens.

      Rithy Panh rejeita expressões como «suicídio de uma nação» para descrever o que aconteceu no Camboja e lembra que por trás dos crimes havia «um pequeno punhado de intelectuais, um projecto humano». Por isso, este sobrevivente considera que o mundo não é inocente em relação ao que sucedeu no seu país. «Pois bem, nos crimes do Kampuchea Democrático, na intenção destes crimes, está presente o homem, o homem na sua universalidade, o homem em todas as suas facetas, o homem na sua história e na sua política. Ninguém pode encarar estes crimes como um particularismo geográfico ou um pormenor bizarro da história; pelo contrário, é o século XX que se cumpre neste lugar; todo o século XX, bem vistas as coisas.» (p. 101)

      Apesar de escrever estas palavras, e apesar de Duch (que faleceu em 2020 na prisão) e de todos os carrascos e de todas as valas comuns e de todos os cadáveres que povoam a sua memória, Panh declara, ao terminar o livro, que o homem não é intrinsecamente mau. É esta a sua crença, a crença numa «banalidade do bem», expressão que subverte a «banalidade do mal» com que Hannah Arendt descreveu o carrasco nazi Adolf Eichmann.

      A Eliminação convida indirectamente o leitor a visitar a cinematografia de Rithy Panh e a descobrir mais sobre a História e as histórias Sudeste Asiático, das mais belas às mais sanguinolentas. A este propósito, valerá também a pena conhecer os filmes de cineastas como Joshua Oppenheimer (The Act of Killing; The Look of Silence), que lança um olhar sobre a terrível história recente de outro país da região que alguns conhecem apenas por destino turístico de quatro letras chamado Bali: a Indonésia.