Edição do dia

Sexta-feira, 24 de Maio, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
chuva fraca
25.8 ° C
25.9 °
25.4 °
94 %
4.1kmh
40 %
Qui
26 °
Sex
26 °
Sáb
26 °
Dom
28 °
Seg
29 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioGrande ChinaChina tenta pôr termo a “crescimento fictício” com combate à especulação...

      China tenta pôr termo a “crescimento fictício” com combate à especulação imobiliária, diz economista

      O abrandamento económico suscitado pela covid-19 vai obrigar a China a alocar capital de forma mais eficiente, pondo termo a décadas de “crescimento fictício”, alimentado pelo setor da construção, explicou o economista Michael Pettis.

       

      O professor de teoria financeira na Faculdade de Gestão Guanghua, da Universidade de Pequim, vê no colapso de algumas das maiores construtoras do país um sinal de que a China se está a afastar do modelo de crescimento assente no investimento em ativos não produtivos. “Há muito crescimento fictício na China”, nota o economista Michael Pettis. “O excesso de investimento em todo o tipo de projetos de construção inflaciona o crescimento há vários anos”, descreve.

      O termo “crescimento fictício” foi usado pela primeira vez pelo Presidente chinês, Xi Jinping, num ensaio publicado em 2021, que frisou a importância de o país alcançar um crescimento “genuíno”. Em entrevista à agência Lusa, Michael Pettis, que vive no país asiático há duas décadas, considera que a campanha para desalavancar o setor imobiliário faz parte dos esforços de Pequim para pôr termo a esse modelo.

      No ano passado, os reguladores chineses passaram a exigir às construtoras um teto de 70% na relação entre passivo e ativos e um limite de 100% da dívida líquida sobre o património, suscitando uma crise de liquidez no setor, que foi agravada pelas medidas de combate à covid-19.

      Este mês, a Sunac tornou-se a mais recente construtora chinesa a entrar em incumprimento. O caso mais emblemático envolve a Evergrande Group, cuja dívida, que supera o Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal, vai ser reestruturada. “A maioria das estimativas coloca a contribuição do setor imobiliário para o PIB [Produtos Interno Bruto] da China entre 25% e 30%. Isto é duas a três vezes superior ao de outros países. O investimento em imobiliário por si só representa cerca entre 13% e 14% do PIB”, observa Pettis.

      O rácio entre o preço dos imóveis e o valor das rendas no país asiático está entre os mais altos do mundo, sugerindo um retorno negativo sobre o capital investido. Em Pequim ou Xangai, o valor médio dos imóveis ascende a cerca de 23 vezes o vencimento médio anual dos residentes.

      Para o economista, a alocação de capital para investimentos não produtivos na China ascende a uma “escala sem precedentes” na História. “Normalmente, quando os economistas querem falar sobre um caso proeminente de grande quantidade de investimento não produtivo, eles apontam para o Japão na década de 1980”, indica. “O meu palpite é que em 10 ou 20 anos vão estar a falar da China”, acrescenta.

      Diferentes analistas estimam existir na China propriedades vazias suficientes para abrigar mais de 90 milhões de pessoas – cerca de nove vezes a população portuguesa. Em muitos casos, as casas são mantidas vazias pelos proprietários, por serem assim mais fáceis de vender a um próximo especulador. A estrutura assemelha-se a um esquema pirâmide, onde o ativo não gera por si fluxo de capital, mas depende antes de um próximo investidor estar disposto a pagar mais pelo bem imóvel.

      A crise no imobiliário tem fortes implicações para a classe média do país. Face a um mercado de capitais exíguo, o setor concentra uma enorme parcela da riqueza das famílias chinesas – cerca de 70%, segundo diferentes estimativas. Michael Pettis aponta para o exemplo de Espanha antes da crise financeira internacional de 2008.

      “O período de rápido crescimento da economia espanhola foi impulsionado pelos fundamentos errados: a construção de imóveis nos quais ainda hoje ninguém mora, e uma enorme quantidade de infraestrutura, que foi além daquilo que o país necessitava”, descreve. “Enquanto isto dura é ótimo”, nota. Mas, quando o aumento da dívida é incapaz de gerar retorno, o modelo torna-se insustentável, suscitando uma “desaceleração económica e potencial aumento do desemprego”.

      Pettis prevê agora o fim de décadas de trepidante crescimento económico do país asiático. “A China poderia ter continuado com o modelo atual por mais três ou quatro anos”, observa. “Mas, com o impacto económico da covid-19, estão a ficar sem tempo”. Lusa

      Ponto Final
      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau