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Segunda-feira, 16 de Maio, 2022
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       “A cultura, para sobreviver, tem de ser a erva daninha que nasce no empedrado”

      Para exportar a sua cultura, Macau precisa de símbolos. A ideia foi transmitida por Carlos Marreiros, em entrevista ao PONTO FINAL. “Mostrar sempre as Ruínas de São Paulo é óptimo, mas não chega”, afirmou. O arquitecto defendeu ainda a transformação do Mercado Vermelho num equipamento comercial e cultural, com restaurantes, lojas, galerias e esplanadas. Marreiros urgiu também as autoridades a preservarem o património histórico com mais afinco, dando os exemplos da Torre de Prestamista da Rua de Cinco de Outubro e a Ponte-Cais número 8. No entanto, considera que, ao longo dos anos, o Instituto Cultural (IC) tem sido competente na preservação do património. Na entrevista, o antigo presidente do IC aproveitou para pedir a abertura das fronteiras para que a cultura possa “sobreviver”.

       

      “Naturalmente que não é bom para a cultura estarmos sem visitantes e fechados”. A frase é do arquitecto Carlos Marreiros que, em entrevista ao PONTO FINAL, diz que seria importante a reabertura das fronteiras com o exterior. Até porque “a cultura, para sobreviver, tem de ser a erva daninha que nasce no empedrado”. Marreiros assinala que o Instituto Cultural (IC) tem, ao longo dos anos, feito um bom trabalho na preservação do património local. No entanto, lembra que ainda há trabalho a fazer e dá os exemplos da Torre de Prestamista da Rua de Cinco de Outubro e da Ponte-Cais número 8, que, na sua opinião, deveriam ser preservados. Quanto ao Mercado Vermelho, que está agora a ser reabilitado, diz que deveria ser transformado num equipamento cultural e comercial, com lojas, restaurantes, galerias e esplanadas. Para divulgar melhor a cultura de Macau, Marreiros diz que é necessário combater a “cultura do ‘emoji’” e criar símbolos. “Macau devia promover a figura de Camilo Pessanha como a figura de Macau”, sugere. Até porque “mostrar sempre as Ruínas de São Paulo é óptimo, mas não chega”. Sobre o Plano Director de Macau (2020-2040), aprovado há um mês, o arquitecto diz que cumpre bem o seu papel, dando uma base para que se possa defender o património local.

      De que forma é que este Plano Director pode proteger o património de Macau?

      A defesa e salvaguarda do património cultural e arquitectónico-urbano de Macau está prevista neste Plano Director como um dos pontos de saliência. Felizmente, o Plano Director de Macau foi aprovado agora pelo Chefe do Executivo. Algumas pessoas criticaram – erradamente, na minha opinião – o generalismo do Plano Director. Não concordo, por quanto qualquer Plano Director é um plano de síntese. Um Plano Director tem de agilizar todos os processos técnico-administrativos e burocráticos para que o decisor possa, através de organigramas e organizações mentais esquemáticas e baseado numa lei de solos e obras públicas, tomar decisões. Cabe aos técnicos estudar bem os 18 planos para as unidades operativas de planeamento e gestão. É um Plano Director positivo. O ser sintético é que permite as decisões em tempo real. Macau tem perdido, nos últimos anos, muito investimento local e estrangeiro. Não só por causa da Covid, mas pelos medonhos processos burocráticos que são complexos, confusos e muito morosos. As pessoas não investem e vão para zonas mais fáceis. Também quero recordar aos que criticaram o Plano Director que um Plano Director é um conjunto de normativos, princípios doutrinários para fazer face a uma questão que tem a ver com a vida de todos nós, que é a política de solos, obras públicas e movimentos demográficos. É uma mini-Constituição para gerir o nosso espaço físico. A Constituição norte-americana é constituída por menos de 30 parágrafos. A portuguesa tem 300. O nosso rectângulo à beira-mar plantado não é mais bem gerido do que os EUA. É muito habitual o português gostar de complicar as coisas. Quando o bom senso não chega, há um Plano Director. E quando o Plano Director é sintético, ainda bem, para bem de todos nós.

       

      Está então salvaguardado o património de Macau com este Plano Director?

      Existe doutrina e atitude política perante o património. O património arquitectónico-urbano-cultural não está salvaguardado, vai-se salvaguardando. É como as tropas patrióticas da Ucrânia que se vão defendendo dos seus invasores, não está terminado. Mesmo com o recuo da Rússia, dizem os especialistas que a guerra vai demorar anos. O património defende-se diariamente, a cada minuto. É como uma relação marital.

       

      Mas um Plano Director deve dar uma base para que possa defender o património. Este dá?

      Dá. Dos 13 pontos estratégicos [do Plano Director], dois claramente falam de património. E a área física de defesa de património em Macau é vastíssima, tendo em vista a exiguidade de terrenos de Macau. O Instituto Cultural tem de fazer muito mais. O Governo de Macau tem de pensar numa coisa: O desfile de carros alegóricos que se faz por ocasião do Ano Novo Chinês custa 30 milhões de patacas e a festa na Torre de Macau custa 30 milhões de patacas. Com 60 milhões de patacas podia-se investir mais no património, nomeadamente o Governo deve atacar coisas mais modernas e com maior envergadura e que têm a ver com a nossa herança. No Porto Interior nomeio a Ponte-Cais número 8, que é uma estrutura fantástica, com modernismo lírico internacional, com veios de chinês e é actualmente um armazém. Foi projectado nos anos 30, no estilo modernista ‘art-deco’, mais concretamente ‘tropical-deco’. Por causa da ocupação japonesa, só foi construída nos anos 40. Uma bela peça e que ainda está impecável. De que é que o Instituto está à espera? Nós também destruímos todas as nossas Torres de Prestamistas, que são peças notáveis de património. Há uma em condições fantásticas com mais de 120 anos de história. É uma das Torres de Prestamista com mais significado e que fica na Rua de Cinco de Outubro. Esta peça tem de ser adquirida sob pena de perdermos um património relevante e historicamente rico. O edifício é bom e tem valor histórico. Aqueles que se dizem patriotas e que gostam muito de se dizerem patriotas, agora têm uma oportunidade para mostrarem o seu patriotismo, não só nas palavras, mas com gestos. Trabalhando a sociedade civil para que, em conjunto com o Governo, possam mostrar o seu patriotismo real, porque aquela é uma peça belíssima de arquitectura chinesa e da história chinesa de Macau.

       

      O Mercado Vermelho também está actualmente a ser reabilitado…

      O Mercado Vermelho foi construído em 1936, com um projecto de um dos arquitectos mais brilhantes de Macau, Júlio Alberto Bastos. Serviu muito bem, mas, neste momento, não serve bem. Sentimentalmente, há pessoas que dizem que o Mercado Vermelho é que é bom. Não é bom. Sou a favor do seu restauro, mas discordo liminarmente de se restaurar o Mercado Vermelho para se fazer dele um mercado molhado. Há, na zona do Patane, terrenos mais indicados para se fazer um novo mercado com as condições funcionais e de salubridade pública moderna. O actual é muito pequeno e tem um conjunto de pilares que complica a sua explanação funcional e, como tal, o Mercado Vermelho devia ser transformado num equipamento comercial ou cultural. Não vejo nada de mal em fazer dele um sítio com restaurantes alternativos, vegetarianos, vegan, de venda de produtos de qualidade. Uma zona para pequenas exposições culturais e comerciais. O terraço poderia ser transformado em esplanadas com muita qualidade. Assim, seria mais um atractivo turístico e para servir os locais.

       

      Essa solução faria justiça à história do Mercado Vermelho?

      Absolutamente. O Mercado Vermelho é muito bem desenhado, é avançado para a época. Em 1983, quando quisemos lassifica-lo, eu era membro da Comissão de Defesa. Até o governador, o contra-almirante Almeida e Costa, foi contra. Foi o doutor Jorge Rangel que nos defendeu. Nós argumentámos que o Mercado Vermelho, ao contrário daquilo que o senhor governador pensava, era uma peça notável e moderníssima para a época. Tem razão para ser restaurado mas devia ser para lhe dar uma utilidade mais nobre do que um mercado molhado. Convent Garden, em Londres, e o Mercado da Ribeira, em Lisboa, são bons exemplo.

       

      Outro projecto que gerou algumas críticas foi o da construção de dois edifícios judiciais que poderão afectar o corredor visual para a Colina da Penha. Como é que vê essa questão?

      Com o devido respeito, acho que os colegas fizeram propostas para tornar aquilo escadado. Todos os esforços são importantes para salvar a vista da Penha. Mas, no meio disto, há alguma hipocrisia. Quando se construíram aquelas duas torres que se vêem atrás da Penha, ninguém se indignou contra isso. Eu indignei-me e disse-o nos olhos do engenheiro Lau Si Io [secretário para os Transportes e Obras Públicas à época]. Agora, eles têm de construir as duas “bochechas” anexas ao Tribunal Judicial de Base e, portanto, vão ter alguma altura. O conjunto que vai surgir ao pé do actual Tribunal de Segunda e Última Instância é um edifício com menos de 23 ou 24 metros, é baixinho, não tem problema nenhum.

       Não valoriza as críticas, então?

      Não desvalorizo. Haja colegas e políticos a pensar nesses aspectos. Até aplaudo. Mas não valorizo muito, porque vê-se parcialmente a colina.

       

      Têm surgido alguns projectos que provocam críticas da sociedade, mas esses projectos acabam por avançar. O Governo não tem dado ouvidos às críticas?

      Este Governo tem dado ouvidos. Acho que esta Administração tem dado ouvidos à população. Dá ouvidos, decide e avança. Ao contrário da Administração anterior, quer o Chefe do Executivo quer o engenheiro Lau Si Io, falavam falavam e ficavam todos na masturbação intelectual, como dizia Woody Allen.

       

      No geral, nos últimos anos, como é que o IC tem lidado com a salvaguarda do património de Macau?

      Muito bem. Eu recentemente fui muito crítico em relação às cores aplicadas na Sé Catedral, um cor-de-rosa e um amarelo indignos que não são identitários, bem como alguma decoração. Têm estas falhas, mas no fundo estão a fazer bem o seu papel. Faltam-lhes fiscais para, todos os dias, saírem para as ruas e verem as obras. Também falta maior divulgação, quer através de livros e de vídeos, utilizando o ‘big data’, para divulgar o riquíssimo património cultural tangível e intangível de Macau, a nível da Grande Baía e até mundialmente. No geral, o IC trabalha muito bem, mas a tarefa é difícil. O património cultural e a defesa não dá grande espectacularidade, é morosa e muito onerosa. Os efeitos são a longo prazo. Nos anos 80 e 90, a Administração portuguesa, através do IC, fez um trabalho notável, normativo, legislador e de conservação com parcos meios. Mas não investiu muito na educação. A Administração chinesa tem feito isso, portanto merece o meu aplauso. Em termos gerais, o saldo é francamente positivo na actuação do IC na salvaguarda do património.

       

      E na salvaguarda do património imaterial também?

      Também. Esse é mais fácil, tem a ver com investigação científica aplicada a vários princípios. Ao nível da plataforma económica entre a China e os países de língua oficial portuguesa, podia fazer-se mais nesse aspecto também. Pode não ser a sua prioridade – a sua prioridade é a economia – mas poder-se-ia fazer muito mais e melhor ao nível de protocolos e permutas de estudantes, etc.

       

      Recentemente, Mok Ian Ian saiu da presidência do IC. Tendo em conta que também já foi presidente do IC, como classificaria o trabalho dela à frente do instituto?

      Ui, eu fui presidente no tempo da Dinastia Tang [risos]. A doutora Mok Ian Ian fez um bom trabalho. Discreto, mas bom. A direcção de serviços que mais mexe nos seus responsáveis tem sido sempre o IC. E porquê? A cultura é uma coisa muito complicada, mexe muito com a política. No que diz respeito à preservação do património, mexe com muitos interesses instalados e as cabeças rolam. Destes últimos, quem fez mais trabalho pelo património foi o Guilherme Ung Vai Meng, e mesmo assim ele não durou muito tempo. Ele é uma pessoa honesta, de peito aberto. Veja quanto património discretamente ele conseguiu preservar.

       

      Então que pressões é que um presidente do IC sente para não conseguir desenvolver o seu trabalho?

      É armadilhado por várias pressões. O nosso parlamento, que tem força, é constituído por muitos ‘developers’. A opinião deles conta e não é fácil. Quem não cede e é sério, como o Guilherme Ung Vai Meng, tem os dias contados.

       

      Também sentiu isso quando foi presidente do IC?

      Não, porque eu sou um homem livre e de bons costumes [risos]. Não estava minimamente preocupado. Foram anos de muita luta, mas anos muito felizes.

       

      A cultura de Macau tem sido bem divulgada fora de portas?

      Não, infelizmente. Há uma coisa que temos de combater, que é a cultura do ‘emoji’. Quedamo-nos por avatares quase infantis. Temos investigadores da China que podem ajudar-nos, porque são artesãos que vão deixando de existir. [Devemos] renovar esta riqueza patrimonial, que é a conjugação de dois mundos fundamentais, a chinesa e portuguesa.

       

      As iniciativas culturais dentro de Macau têm sido satisfatórias, na sua opinião?

      Macau tem muitas associações e vive da actividade destas estruturas associativas que têm um programa normalmente vasto e ambicioso para servir o seu público. Entre estas actividades muito válidas também gastam milhões a pedir subsídios para jantaradas. Acho um erro a Administração financiar jantaradas – e são vastos milhões. O Governo devia dar dinheiro para eles fazerem um trabalho mais sério. Querem conviver, comer e arrotar? Paguem do próprio bolso. Lisboa agarrou-se à ideia de Fernando Pessoa e hoje é um produto, para além de cultural, turístico. As pessoas vão a Lisboa à procura de Fernando Pessoa. Macau devia promover a figura de Camilo Pessanha como a figura de Macau. Praga fez do seu grande escritor, Kafka, a figura da sua cidade. Precisávamos de um Camilo Pessanha não apresentado como ‘emoji’. Portugal tem o Galo de Barcelos e nós devíamos fazer um concurso para inventar o Galo de Macau. Em Macau não há sardinhas, mas há peixe salgado. Por que não um peixe salgado colorido? Por que não o Santo António? Santo António merecia uma apropriação cultural e turística.

       

      Isso seria dar símbolos à cidade. Acha que faltam símbolos a Macau?

      Faltam símbolos a Macau. Mostrar sempre as Ruínas de São Paulo é óptimo, mas não chega. A Flor de Lótus é falta de imaginação, sempre a Flor de Lótus.

       

      A cultura de Macau tem sido afectada por esta política de portas fechadas ao longo dos últimos dois anos?

      Naturalmente. A cultura, para sobreviver, tem de ser a erva daninha que nasce no empedrado, como dizia Bertolt Brecht. É preciso erva daninha porque a cultura institucional é importante, o Governo da RAEM tem financiado associações e outros agentes culturais para que possa desenvolver estas ervinhas. A cultura, para poder ter vida, tem de comunicar com os de dentro e com os de fora. Naturalmente que não é bom para a cultura estarmos sem visitantes e fechados. Para além de uma série de cancelamentos de eventos importantes. É mau.

       

      Era então importante que se abrissem as fronteiras.

      Absolutamente. Mas acho que Macau está a abrir-se a pouco e pouco. Já baixou para 14 dias de quarentena. Dois anos sem viajar é demais. Acho que esta Administração tem um Chefe do Executivo que é corajoso e decide. Ele tem um conjunto de secretários onde eu realçaria dois. O doutor André Cheong é tecnicamente bom e vai conseguir fazer coisas num período difícil em que a lei de defesa nacional, por contaminação negativa de Hong Kong, levanta problemas. Realçaria também o engenheiro Raimundo do Rosário, que é um rematador à baliza, pode o guarda-redes defender, ir ao poste ou à trave ou até matar um pássaro, mas quem não remata não tem possibilidades de marcar golo. O futebol lateralizado que era praticado pelo engenheiro Lau Si Io é um futebol inútil, de empatas.