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      Bailarinos do Crazy Paris Show lamentam fim do espectáculo

      Mais de 40 anos depois, a produção anunciou esta quarta-feira, nas redes sociais, o seu encerramento. Posteriormente, já ontem, retirou o anúncio feito, mas o PONTO FINAL sabe que não haverá lugar a mais cabaré ao estilo de Paris no Grand Lisboa. Actuais e antigos performers lamentam o fim de um espectáculo “único” em Macau.

      Em cartaz há mais de 40 anos, o espectáculo Crazy Paris Show realizou a sua última aparição na passada segunda-feira no Grand Lisboa. Dois dias depois, a produção anunciou, através de uma publicação nas redes sociais, que chegou o fim. “Estamos devastados por anunciar que o Crazy Paris Show terminou hoje”, começou por escrever, a acrescentando que o encerramento é “devido às restrições da pandemia”.

      Contudo, ontem, a publicação no Facebook foi removida e a conta no Instagram passou a privada sem possibilidade de serem visualizados os conteúdos. Contactada a assessoria de imprensa da SJM, a mesma não respondeu às nossas questões até ao fecho desta edição. De igual modo, nenhum dos bailarinos do último elenco se mostrou disponível para comentar. O PONTO FINAL sabe, no entanto, que o fim do espectáculo de cabaré é uma realidade.

      O Crazy Paris Show chegou a Macau no final dos anos de 1970 pela mão de Stanley Ho. O magnata do jogo pretendia causar algum impacto com o novo espectáculo em que mulheres dançavam em topless, ao jeito cabaré, em cima do palco. Responsável pela lufada de ar fresco no entretenimento local ficou Guy Lesquoy, francês de Marselha que chegou a Macau com Maite Alonso para dançar um par de coreografia de Jacques Fabre. Devido a compromissos pessoais e profissionais, Lesquoy referiu ao PONTO FINAL que não seria possível falar connosco até ao fecho desta edição, ficando a promessa de uma conversa em tempo oportuno.

      A chegada do show à imagem do famoso Crazy Horse Show causou algum impacto na conservadora sociedade da época no território. Chineses e portugueses mostraram-se reticentes à novidade, mas isso foi sol de pouca dura. O sucesso foi tanto que as bailarinas e todo o ‘staff’ da produção eram “muito bem tratados” em Macau. O Crazy Paris Show chegou até a ter honras de destaque com espectáculo no Teatro Dom Pedro V.

      No início dos anos de 1990, Lesquoy abandona o projecto que ajudou a construir em discordância com a SJM, que defendia trajes mais reveladores e danças sexualmente sugestivas no espectáculo.

      Outros tempos. Agora o “reboliço e a loucura” transforma-se num vazio. Anastassia Uhlova esteve envolvida no Crazy Paris Show durante 11 anos e, por isso, é como se algo saísse de dentro de si, se despegasse. “É realmente triste e de partir o coração porque um espectáculo tão bonito e significativo que todos nós pensamos que seria para sempre, não é. Nada é permanente”, desabafou a bielorrussa, radicada em Macau há muitos anos, acrescentando que “não é fácil perceber que tudo acabou”.

      A bailarina, natural de Minsk, permanece tranquila e confiante quanto ao futuro. “Agora é esperar por novas oportunidades. Sou profissional com formação em balé e escola olímpica de ginástica rítmica. Tenho muitas coisas em mente que gostaria de fazer, tal como usar os meus conhecimentos e experiência para, muito provavelmente, começar a ensinar adultos e crianças”, admitiu ao nosso jornal.

      Anastassia considera ainda que os anos passados “em família” no Crazy Paris Show “são memórias felizes” e por ali fez “amigos maravilhosos” com origens em diversas partes do mundo. “Agradeço ao Crazy Paris Show e a todos os que fizeram parte da minha vida nestes 11 anos.”

       

      Tristeza sem surpresa

      Zuleika Greganyck foi parte integrante do espectáculo do Crazy Paris Show nos anos de 1990. É com “uma certa tristeza no ar” que assiste ao fim de algo “único em Macau”. “O seu encerramento certamente deixa o território mais pobre de entretenimento”, refere a brasileira.

      Recuando no tempo, e durante o tempo que fez parte do elenco, Zuleika guarda boas memórias. Pedimos que escolhesse algumas, mas “são tantas” e difíceis de escolher. “Fiz parte do elenco do Crazy Paris Show durante a década de 1990. Acho que foi a melhor fase do show. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que pisei o palco do Monalisa Hall do Hotel Lisboa e, também, lembro-me do primeiro lugar que ocupei nos camarins do teatro. Foram cinco anos inesquecíveis. Uma experiência singular. E as amizades que fiz no período em que trabalhei lá perduram até hoje”, recorda a antiga bailarina, hoje instrutora de pilates.

      Lisa Souissa tem uma ligação a Macau de anos. Actualmente reside na vizinha Hong Kong, mas muitos anos da sua vida foram dedicados ao território e alguns ao Crazy Paris Show. “Foram tempos únicos e loucos”, lembra a francesa.

      O fim do Crazy Paris Show não é totalmente surpreendente, até porque a pandemia de Covid-19 “tem vindo a prejudicar os negócios de entretenimento em Macau e Hong Kong”. Ainda assim, refere a coreógrafa, estamos perante “um momento importante”. “Consigo entender isso, mas na verdade não sinto qualquer sentimento particular porque actualmente o Crazy Paris Show nada tem a ver com o que era no meu tempo”, admitiu.

      Tal e qual Zuleika, Lisa também pisou o palco do Monalisa Hall, no velhinho Lisboa. “E isso faz toda a diferença”, porque actualmente o espectáculo é “muito diferente” do que era antes. “Na verdade, o espectáculo que tive oportunidade de fazer é um dos períodos de maior felicidade que senti em Macau e, também, na minha carreira”, refere a francesa. “Macau era único. Todas as pessoas eram unidas. Era muito especial. Todos éramos amigos”, acrescenta.

      Lisa chegou a Macau com 22 anos e permaneceu no elenco do Crazy Paris Show durante sete anos. “Com o tempo, penso que o espectáculo foi perdendo encanto”, atira, reiterando que não está “particularmente triste”, até porque as “coisas mudam”. “Ficam as boas memórias, as boas amizades.”

      Prestes a comemorar 49 anos, a coreógrafa sofreu com a destruição do teatro no Hotel Lisboa para se usar o espaço para o jogo. Ao mesmo tempo, afirma, “foi um privilégio fazer parte deste show”. Apesar de Macau ter mudando muito com o passar dos últimos anos, o território “perde, com certeza, alguma coisa com o fim do Crazy Paris Show”.