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      Início Sociedade Professor desconstrói crenças surgidas em relação ao aluno chinês em Macau

      Professor desconstrói crenças surgidas em relação ao aluno chinês em Macau

      Numa conferência promovida pela Universidade de São José, o professor João Paulo Pereira vai abordar questões relacionadas com o surgimento de crenças em relação ao aluno chinês de Macau. Crenças essas, acredita o académico, surgiram ao longo dos anos devido ao contexto socioeducativo do território, com a sua segmentação dos espaços educativos e no fundo das comunidades portuguesa e chinesa.

       

      A Universidade de São José (USJ) apresenta a conferência “Visões de Confúcio na aula de Português Língua Estrangeira em Macau: entre tradição e modernidade” que será proferida por João Paulo Pereira, professor do departamento de Línguas e Cultura, Faculdade de Artes e Humanidades. O evento terá lugar, amanhã, dia 29 de Março, das 19h às 20h30, no anfiteatro Dom Bosco do campus da Ilha Verde da USJ.

      Procurámos saber onde cabem as visões de Confúcio numa aula de português. Em conversa com o PONTO FINAL, o professor João Paulo Pereira começou por dizer que a “presença” do pensador e filósofo chinês “tem a ver com a questão da diversidade cultural, que está presente na aula de Português Língua Estrangeira”. “Tendemos sempre a formar imagens ou representações dos nossos alunos, tendo em conta a sua proveniência”, explicou.

      Na conferência procurar-se-á compreender qual o papel das crenças no ensino da língua portuguesa em Macau, na origem de propostas para a adopção de metodologias de ensino específicas para o público aprendente chinês. Na base destas crenças estão as grandes diferenças existentes entre a cultura portuguesa e a cultura chinesa e a herança dos princípios confucionistas na educação do território e da região.  “Comecei a ler sobre o papel das crenças ou representações culturais, que é algo que é estudado em várias áreas como a Sociologia, a Linguística ou a Educação. A abordagem em relação a estas crenças é a de que são construções sociais, e que resultam de lógicas de poder. E que são dinâmicas, devendo ser identificadas e compreendidas à luz do contexto para serem desconstruídas. Isto evita as visões estereotipadas sobre outras culturas”, referiu João Paulo Pereira ao nosso jornal.

      Em Macau, e tomando como ponto de partida a reflexão que o professor deve realizar em relação à sua prática lectiva, considera o académico da USJ, “as crenças que existem sobre o aluno chinês é a de que é passivo, não gosta de se expor, é renitente a manifestar opiniões, preferindo actividades controladas, como fazer exercícios gramaticais ou que apelem à memória”.

      A imagem, nada abonatória do estudante local, será desconstruída pelo professor português durante a conferência desta terça-feira. João Paulo Pereira sugere que é nesta imagem passiva do estudante local que se pode evocar Confúcio, “cujo no seu pensamento a figura da autoridade (como o professor) é vista como um modelo a imitar, sento quase intocável”. “As abordagens actuais de ensino de línguas são opostas, são abordagens comunicativas em que professor e alunos têm papéis activos”, notou.

       

      A importância dos contextos sócio-político e educativo

       

      Perceber a validade dessas crenças implica, igualmente, compreender o contexto sócio-político e educativo de Macau e a influência que os princípios confucianos ainda exercem   no perfil do aprendente chinês. “Fiz um estudo de caso em três estabelecimentos de ensino diferentes para tentar perceber se as crenças que se formaram em relação ao aluno chinês condicionam a prática lectiva”, revelou Pereira, que acrescentou que os estabelecimentos foram a Escola Portuguesa de Macau (EPM), o Instituto Português do Oriente (IPOR) – onde trabalhou por diversos anos – e a Universidade de Macau (UM).

      Na verdade, refere ainda o professor de línguas, a conferência versará, no essencial, sobre a apresentação desse tal estudo de caso. “Vou falar sobre o que contribuiu para o surgimento destas crenças em relação ao aluno chinês em Macau. E que tem a ver com o contexto sócio-educativo do território, que se moldou durante os anos da Administração Portuguesa, bem como à segmentação dos espaços educativos e no fundo das comunidades portuguesa e chinesa”, disse.

      João Paulo Pereira é professor da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade de São José. Com um mestrado em Ensino do Português como Língua Segunda e Estrangeira e um doutoramento em curso pela Universidade Nova de Lisboa, em Didática das Línguas – Multilinguismo e Educação para a Cidadania Global, é investigador no CHAM – Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Para além de Macau, onde trabalhou por diversos anos no Instituto Português do Oriente (IPOR), conta com uma vasta experiência de ensino em vários países da Europa e de África, e nalguns países da Ásia-Pacífico (como o Vietname e a Austrália). A sua investigação centra-se nas áreas da Aquisição de Língua Segunda, do Desenvolvimento de Materiais Didáticos e dos Estudos Interculturais. Tem vários artigos científicos publicados nestas áreas, assim como materiais didáticos para o ensino do Português como Língua Estrangeira.

       

      PONTO FINAL