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      Gastronomia russa adoptada deverá continuar a figurar em alguns cardápios de Macau  

      Estrogonofe ou salada russa, quem nunca comeu? Os dois pratos de origem russa estão popularizados em todo o mundo e, em muitos casos, completamente enraizados, apenas se diferenciando da receita original devido às variantes criadas pelos países que os acolheram. Apesar de começarem a surgir boicotes à culinária russa em diversos países e regiões do mundo, em Macau há restaurantes que admitem que vão continuar a confeccioná-los, outros que vão aproveitar a ocasião para mudar cardápios e outros que nem sequer os idealizam nas suas cozinhas. Produtos russos em Macau são muito poucos – vodka, marisco congelado e caviar foi o que encontrámos à venda – e os distribuidores revelaram ao PONTO FINAL que não ocorreu qualquer quebra nas vendas nos últimos quinze dias.

       

      No Brasil, mais propriamente em São Paulo, o famoso restaurante Bar da Dona Onça, deixou de confeccionar o seu não menos famoso estrogonofe de carne bovina. A chef Janaína Rueda explicou à Folha de São Paulo que, em forma de protesto, o prato só voltará ao cardápio “quando a guerra acabar”.

      Em Portugal, o mais antigo restaurante russo da capital Lisboa está às moscas. Os clientes têm boicotado o espaço aberto ao público desde 1995. O insólito da situação é que todos os cozinheiros d’A Tapadinha são ucranianos. A proprietária, apesar de respeitar a decisão dos clientes, referiu à Lusa não entender a razão para as pessoas fugirem espaço. “Levámos com uma pandemia e agora levamos com uma guerra”, desabafou.

      Por Macau, não se vislumbram grandes boicotes à gastronomia russa, talvez porque para além do vodka e de uma outra situação pontual, não há, ao pontapé, produtos russos nas prateleiras dos supermercados do território.

      O estrogonofe, apesar de ter sido inventado na Rússia em pleno século XIX, popularizou-se um pouco por todo o mundo. É fácil, mesmo com variações consideráveis da receita original, ver nos menus de diferentes restaurantes o prato disponível para confecção. Em Macau haverá algum tipo de boicote? Fomos saber junto de alguns chefs e proprietários de restaurantes no território o que pensam sobre o assunto.

      “Penso que não é o caso aqui, pelo contrário, é um prato que os locais gostam muito. Pessoalmente não tenho, mas ainda ontem estive com a malta ligada à restauração e ninguém comentou nada sobre isso”, disse Fernando Sousa Marques, gerente do espaço Macau Gourmet ao PONTO FINAL.

      FOTOGRAFIA: SHUTTERSTOCK

      O chef Cristiano Tavares, antigo responsável pela cozinha da cervejaria Paulaner, na Taipa, também acha que não haverá qualquer impedimento à confecção da iguaria russa. “Não conheço ninguém, mas também não deve haver assim tantos restaurantes que façam comida russa”, apontou.

      Numa breve resposta ao nosso jornal, Marco Policarpo, um dos proprietários do grupo que gere os restaurantes Boa Mesa e Banza, referiu que “para já não” está nos planos retirar dos cardápios dos dois espaços o prato russo.

      Herlander Fernandes, chef do restaurante D’Ouro do Hotel Roosevelt, também afirmou ao PONTO FINAL que “não há na carta um prato de influência russa”.

      Já o chef do Tromba Rija, Telmo Gongó, admitiu que só faz os pratos a pedido e para grupos. O restaurante situado na Torre de Macau “não tem” a iguaria no menu, mas não descarta a sua confecção. “Não deixo de cozinhar para fazer um boicote, contudo no Tromba Rija só cozinhamos o tradicional português e um pouco de macaense.”

      Criada em 1860 por Lucien Olivier, chef do famoso restaurante Hermitage situado na Praça Trubnaia, em Moscovo, a salada Olivier, comumente conhecida como salada russa, também não será retirada dos menus, garantiu-nos a maioria dos que connosco partilharam ideias.

      Ainda assim, Nélson Rocha, do restaurante A Mariazinha, referiu que, apesar de não haver lugar para o estrogonofe no menu do restaurante português, a salada russa costuma acompanhar os filetes de garoupa nos almoços das terças-feiras. “É uma boa oportunidade para variar e mudar isso, tendo em conta os eventos recentes”, admitiu o responsável ao PONTO FINAL.

       

      Produtos russos continuam a ser vendidos normalmente

       Quase que me arriscaria a dizer que, em Macau, são poucos, mas bons. Um dos produtos russos mais conhecidos é a vodka. A bebida nacional da Rússia e da Polónia, não é exclusiva daqueles dois países. Bielorrússia, Geórgia, Lituânia, Estónia, os países nórdicos e a própria Ucrânia produzem a bebida branca, entre muitos outros. Em Macau, chega para “alimentar” essencialmente os bares dos casinos do território, mas também se pode encontrar em pequenos negócios de venda de bebidas alcoólicas como garrafeiras e em algumas prateleiras de supermercados.

      A conhecida Stolichnaya – que alterou o nome para simplesmente Stoli, precisamente “para se distanciar de Vladimir Putin” – é uma das marcas que circula por Macau. “Os três factores impulsionadores da decisão de mudar o nome são a posição clara do nosso fundador sobre o regime de Putin, a determinação dos empregados de Stoli em agir e o desejo de representar com precisão as raízes de Stoli na Letónia”, referiu a empresa numa declaração.

      A Stolichnaya começou como uma marca na ex-União Soviética. Mas nos últimos anos, a vodka tem sido produzida na Letónia pelo Grupo Stoli, sediado no Luxemburgo. A empresa foi fundada pelo bilionário russo exilado Yuri Shefler, um crítico acérrimo de Vladimir Putin, que fugiu da Rússia em 2002.

      FOTOGRAFIA: GONÇALO LOBO PINHEIRO

      Em protesto contra a invasão da Ucrânia, supermercados e garrafeiras espalhadas pelo mundo também estão a boicotar a vodka, retirando-a das prateleiras. E vai tudo a eito. Não escapam, por exemplo, as famosas Absolut (da Suécia) e Eristoff (da Geórgia). Em Macau, até agora, nada disso sucedeu. Fomos a quatro diferentes supermercados do território: Sanmiu, Park & Shop, New Yaohan e Royal. Todos eles tinham nas suas prateleiras exemplares da bebida branca.

      Ao PONTO FINAL, a Telford International Company Limited, que distribui vodka em Hong Kong e em Macau, revelou que, apesar do conflito na Ucrânia, a bebida “está a ser vendida como habitualmente”, sem grandes oscilações. A companhia com sede em Hong Kong representa a Stolichnaya e a Eristoff, entre outras marcas de vodka como a Barska Vodka, da Lituânia, ou a Finlandia Vodka, originária daquele país nórdico.

      Bastante apreciado é também o caviar e o marisco russo. Macau não foge à regra. O caviar russo é colhido de diferentes esturjões nativos do Mar Cáspio e em rios siberianos, explicou ao nosso jornal a Caviar King, uma empresa sediada RAE vizinha, que fornece os restaurantes e espaços comerciais de Macau. A Caviar King, originária de Astrakhan, disponibiliza quatro produtos frescos com a mínima quantidade de sal (malossol): caviar de Beluga, caviar premium Osetra, caviar de esturjão da Sibéria e ainda caviar de Sevruga. A empresa também representa três marcas russas de vodka: Russian Standard, a Stolichnaya Elit e a Beluga Noble. Todas elas surgem em Macau. “Trabalhávamos com diversos restaurantes em Macau, principalmente aqueles que estão em casinos, mas desde há alguns meses, muito por culpa da pandemia, que o negócio tem estado fraco. Não posso dizer concretamente se há uma quebra abrupta neste momento”, explicou-nos uma responsável da empresa por telefone.

      Para nos explicar o que se passa com o caviar russo, contactámos Alex Gaspar, chef executivo da Sands China, que referiu ao nosso jornal que os restaurantes das propriedades do grupo não consomem muito produtos de origem russa como outrora. “O caviar, por exemplo, vem maioritariamente do norte da China. Talvez apenas o caranguejo-real que vem congelado da Rússia, e do Canadá”, considera o português.

      FOTOGRAFIA: GONÇALO LOBO PINHEIRO

      A Goodees.market, uma plataforma online de venda de produtos maioritariamente alimentares que opera há mais de quatro anos, também disponibiliza três versões do Legend of Kremlin Vodka, considerado um dos vodkas mais antigos da Rússia, com uma receita que remonta ao século XV. Num e-mail enviado à nossa redacção, a empresa referiu que “não importam o produto, adquirindo-o localmente em distribuidores no território”, mas como lançaram um programa de suporte ao comércio local em Março de 2020, para combater a pandemia, a empresa não vai retirar os produtos russos do seu stock. “O que temos vindo a fazer é apoiar os importadores, distribuidores locais e ainda mais os produtores locais, dando-lhes outro ponto de venda para eles mostrarem e venderem os seus produtos”, explicou ao nosso jornal o director Herris Kocibelli, reiterando que a decisão “é simplesmente empresarial e não política”, “uma decisão que pode até ser sobre se o negócio pode sobreviver mais um dia na situação actual”, uma vez que ainda estamos a viver tempos pandémicos.

      O responsável observa ainda que tem uma “relação pessoal com a Ucrânia”, país que visitou por duas vezes. “Tenho um afilhado meio ucraniano, por isso não é preciso dizer que os nossos pensamentos e corações estão com o povo ucraniano que está a passar por este momento difícil”, notou Kocibelli.

      Dados mais recentes do Observatório da Complexidade Económica (OEC, na sigla inglesa) revelam que em 2019, Macau exportou 6,7 milhões de patacas para a Rússia. Os principais produtos que Macau exportou foram peças de veículos, antibióticos e vestuário feminino. Durante os últimos 25 anos, as exportações de Macau para a Rússia aumentaram a uma taxa anual de 9,24%. Em sentido contrário, a Rússia exportou 13 milhões de patacas para Macau. Os principais produtos que a Rússia exportou para a RAEM foram crustáceos transformados, peixe não congelado em filetes e crustáceos. Durante os últimos 25 anos as exportações da Rússia para Macau diminuíram a uma taxa anual de 4,86%.

       

      PONTO FINAL