Residentes desesperam com proibição de voos internacionais

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FOTOGRAFIA: PEDRO ANDRÉ SANTOS

Surreal, absurda, obsoleta, injusta, exagerada, discriminatória. Estes são alguns dos adjectivos que residentes de Macau referiram ao PONTO FINAL quando instados a comentar a nova proibição de transporte de indivíduos por aviões civis provenientes de regiões fora da China com destino a Macau.

 

A decisão surgiu ao final desta quarta-feira numa mensagem muito clara: “O Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus informa que, a fim de reduzir um eventual risco associado à COVID-19 para a saúde pública em Macau, os Serviços de Saúde determinam que, nos termos do número 2 do artigo 4.o do Decreto-Lei n.º 81/99/M e do artigo 2.o da Lei n.o2/2004, entre as 00h00 do dia 9 de Janeiro e as 23h59 do dia 23 de Janeiro de 2022: é proibido o transporte de indivíduos por aviões civis provenientes de regiões fora da China com destino Macau. Este requisito não exclui outros requisitos antiepidémicos”.

A comunidade local ficou surpresa com o anúncio. Mais uma restrição a adicionar ao rol infindável de restrições criadas pelo Governo da RAEM desde o início da pandemia a 22 de Janeiro de 2020. O PONTO FINAL conversou com alguns residentes de Macau de nacionalidade não chinesa, que se mostram desiludidos.

Sara Santos Silva sugere que “Macau tem vindo a sofrer de uma certa falta de visão no combate à pandemia”. Para a portuguesa, o Governo teima em insistir numa política que se vai tornando cada vez mais “obsoleta”. “Ao fim de dois anos de pandemia, não estaria na altura de se começar a pensar um plano a médio e longo prazo para uma gradual reabertura do território e recuperação económica?”, questiona, admitindo que pouco ou nada se tem visto nesse sentido, pelo contrário.

A China continental, Macau e Hong Kong estão em contraciclo. Enquanto que o mundo se abre gradualmente, mesmo com a variante Ómicron a dominar, o Império do Meio está a fechar-se e a concentrar forças na política de “zeros casos”. Sara Santos Silva não consegue ver caminho por essa via e refere que esta nova proibição deixa os residentes de Macau “mais fechados e isolados”. “A continuar nesta direcção Macau arrisca ficar condenada ao esquecimento e desperdiçar o seu potencial enquanto plataforma de intercâmbio cultural e destino turístico de grande valor”, alvitra.

Pedindo o anonimato, uma residente de Macau de nacionalidade brasileira fala em cenário de “ficção científica”. “São surreais as medidas que aqui estão a ser tomadas”, começou por dizer ao PONTO FINAL.

A brasileira, a viver em Macau há quase 20 anos, afirma que “impedir residentes de voltar a casa é irreal”, principalmente quando “podem entrar turistas da China continental”. “Mesmo sendo chineses, não deixam de ser turistas uma vez que não possuem residência. Se um residente não pode entrar, por que um turista haveria de poder”, questiona, lembrando que a China tem casos, tornando ainda mais a medida “difícil de entender”.

A mulher alude a uma espécie de “experiência científica”, na qual “só falta criar uma cúpula e cercar Macau de vez”. “Isto lembra-me muito as experiências que fizeram, quando colocaram cientistas presos para testar a possibilidade de sobreviver num ‘outro’ planeta.”

 

O caos nas agências de viagens

 

Nélson Moura está em Portugal e tinha viagem de regresso a Macau marcada para o dia 14. A nova directiva veio trocar-lhe as voltas e agora vai tentar encontrar um voo para dia 24 e “rezar para que não estendam a proibição”. “Parece-me um exagero tendo em conta que já teria de completar 21 dias de observação médica”, começou por dizer ao PONTO FINAL.

O jornalista acredita que esta medida surge numa altura em que estamos prestes a comemorar o Ano Novo Chinês. “O risco de contágio aparenta ser baixo e isto parece-me uma tentativa de as autoridades reduzirem o risco antes do Ano Novo para completo zero”.

O português está agora a tratar com a agência de viagens todas as possibilidades, mas as coisas “estão um caos”. “Vim passar as festividades com a família a Portugal, que já não via há mais de dois anos, e agora vou ter de me adaptar e trabalhar à distância”, constata.

Para Válter Ferreira esta suspensão de todo e qualquer voo do estrangeiro, que agora impede a reentrada no território até a residentes permanentes, “é mais um dos vários atropelos actuais à Lei Básica de Macau, onde está escrito no seu Artigo 33.º que ‘Aos residentes de Macau são reconhecidas a liberdade de se deslocarem e fixarem em qualquer parte da Região Administrativa Especial de Macau e a liberdade de emigrarem para outros países ou regiões”’.

Radicado em Macau há diversos anos, também não entende como é que “um turista chinês do continente, onde também há Covid-19, tem agora muito mais liberdade para entrar e sair em Macau do que um residente de Macau que não seja chinês”. “No geral, um turista chinês não precisa sequer de quarentena e, mesmo nos poucos casos em que esta lhe é exigida, o período é bem menor do que o de qualquer residente que venha de outros países, como se o vírus que vem da China continental fosse menos perigoso do que o que vem do estrangeiro”, gracejou

Válter Ferreira acredita que objectivo é “cada vez mais evidente”. “Querem esvaziar Macau de estrangeiros, para que só cá haja ‘patriotas’”. Ao contrário do que querem fazer crer, estas medidas cada vez mais discriminatórias são muito mais políticas do que sanitárias, como qualquer especialista estrangeiro em virologia cujas declarações eu tenha lido o poderá confirmar”.

Um homem residente de Macau, também falou sob anonimato ao nosso jornal. Em Macau há mais de 20 anos, o português acha a nova medida das autoridades locais “absurda e ingénua”. “Passaram dois anos de pandemia e o Governo não aprendeu nada. Quando achamos que chegámos ao limite de restrições, impõem mais”, afirmou.

O residente refere ainda que “vacinação nada tem a ver com abertura”. “O Governo irá apenas abrir quando cumprir com a sua própria agenda”, refere, desabafando que “quando falam na captação de talentos, fazem de tudo para expelir os talentos locais”.

“Os residentes já não podem ir visitar as suas famílias há dois anos”, constata Lola Couto do Rosário ao nosso jornal, referindo que a medida “extrema e radical” agora anunciada “é desnecessária, por terem só surgido dois casos”.

Para a portuguesa de origem damanense, “é muito penoso e doloroso” toda esta situação. “Para além disso é muito complicado não fazer férias fora de Macau, muitos residentes sentem-se deprimidos. Há muito pouco para fazer em Macau ao ar livre e esta é uma situação muito desesperante para a maioria dos portugueses residentes em Macau. Pessoalmente, estou desesperada, porque a minha filha vai ser mãe e eu estou aqui”, desabafa.

O PONTO FINAL tentou o contacto com a presidente da Casa de Portugal em Macau, Maria Amélia António, e com a conselheira das Comunidades Portuguesas, Rita Santos, para recolher uma reacção à situação, mas até ao fecho desta edição não foi possível obter quaisquer comentários.

 

 

 

PONTO FINAL