Edição do dia

Terça-feira, 7 de Fevereiro, 2023
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
17.9 ° C
19.9 °
17.9 °
94 %
1kmh
40 %
Seg
20 °
Ter
22 °
Qua
19 °
Qui
20 °
Sex
20 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      Início Categorias do Parágrafo Crítica RELER UM GÉNIO EM BANDA DESENHADA

      RELER UM GÉNIO EM BANDA DESENHADA

      CRÍTICA

      Sara Figueiredo Costa

       

      Adaptar um dos mais importantes romances do século XX para outra linguagem é enfrentar um desafio tremendo, o de respeitar um texto que é património literário reconhecido e, ao mesmo tempo, criar uma obra que valha por si, cumprindo-se sem outras dívidas que não o ponto de partida. O norueguês Martin Ersntein assumiu esse desafio perante Fome, o romance do seu compatriota Knut Hamsun, resultado das deambulações do próprio autor por uma Kristiania (actual Oslo) que vai sendo cada vez mais hostil à medida que a fome do protagonista se torna esmagadora, e o resultado é notável, ainda que não em todos os momentos.

      Ernstein respeita o livro original e a sua estrutura, usando o texto do romance – mesmo que não na sua totalidade, o que seria impraticável – e assegurando a representação dos momentos que permitem estabelecer a linha narrativa à imagem e semelhança do que fez Knut Hamsun. Onde o seu trabalho se estende para lá da mera adaptação entre linguagens é na criação de pranchas que procuram alcançar o mundo interior da personagem principal, Knut, aquilo que se passa nas suas sinapses constantemente perturbadas pela fome e, ao mesmo tempo, comprometidas com o pensamento sobre os textos que vai escrevendo e que são, claramente, a sua âncora no mundo. E neste capítulo, há momentos extraordinários e algumas escorregadelas.

      O traço de Martin Ernstein cruza alguns elementos de realismo com uma ligeira estilização de figuras e cenários. Num preto e branco que tira bom partido da gradação de cinzentos, as pranchas de Fome utilizam diferentes composições em função dos momentos narrativos e do foco que Ernstein cria em cada um desses momentos. Nalguns casos, temos pranchas com uma composição absolutamente tradicional, tiras e vinhetas bem marcadas e alinhadas e a narrativa a fluir entre o conteúdo de cada uma e as imprescindíveis elipses entre elas. Noutros, a prancha é ocupada por uma só imagem, como quando a personagem se vê a dormir num banco de jardim e o negrume do firmamento ocupa boa parte do espaço disponível e se espalha até às margens, revelando o peso daquela noite ao relento e, nas estrelas, as fantasias que desfilam nos sonhos do homem que dorme. Há splash-pages icónicas, como a dupla ocupada pelo rosto de Knut expondo o seu cérebro e um carreiro de formigas que entra por uma orelha e sai pela oposta, agora já com um pequeno pedaço de matéria-cinzenta entre as mandíbulas. O desespero da fome, aliás, é um dos aspectos que Ernstein capta de modo eficaz no edifício visual que constrói, bem como vários outros tipos de desespero – o despeito, a humilhação, a dúvida existencial – que se representam em sequências livres do espartilho das vinhetas e capazes de simularem o movimento do tempo quando ele se impõe.

      Apesar deste cuidado na transposição das linguagens, há escolhas nesta gramática visual que destoam profundamente, não apenas do romance de Hamsun, mas do próprio ritmo gráfico-narrativo que Ernstein soube impor à sua obra. Quando, para assinalar o estado emocional da personagem, aquilo que decorre, digamos assim, no seu mundo interior, muda do traço assente nalgum realismo para um registo abonecado e com traços cómicos, algo se perde da densidade que todo o livro procura encenar. Percebe-se a ideia, mas o contraste entre um Knut de porte realista, marcado pelo peso da sobrevivência diária e consumido pelos textos que vai burilando mentalmente, e um outro em versão cartoon, amarelo, pequeno e arredondado como um daqueles modelos que ensinam a desenhar a partir de formas circulares e ovais, é demasiado pobre como recurso estilístico. Não é que o texto de Hamsun seja intocável, ou que traços abonecados não tenham a sua razão de ser em várias obras, mas a própria unidade desta banda desenhada vê-se abalada por uma solução tão óbvia e tão simplista.

      Quando o autor explora esses momentos disruptivos, esses contrastes entre acção externa e mundo interno da personagem, de um modo mais elaborado e em harmonia com a unidade do livro – tal como faz em tantas pranchas atravessadas por imagens fragmentadas, alterações de ponto de vista visual e elementos claramente simbólicos e não realistas – percebe-se que não há nada de intocável num texto com a grandeza do romance de Knut Hamsun. E que a sua adaptação para a linguagem da banda desenhada é um desafio do qual Martin Ernstein está quase sempre à altura.

      Importa falar de um extra-texto, em destaque na capa desta edição. Por baixo do título do livro lê-se «Novela Gráfica» e a designação coloca-nos imediatamente neste espaço contemporâneo que o mercado editorial generalista, historicamente avesso a qualquer incursão na banda desenhada, criou para se redimir sem precisar de fazer o mea culpa. Para a leitura do livro de Martin Ernstein, esta questão é absolutamente irrelevante, mas não o será para o modo como essa leitura será anunciada, divulgada e promovida. Depois de uns quantos livreiros norte-americanos, lá pelos idos de 70 do século passado, terem adoptado o termo graphic novel (cuja criação tem contornos mais complexos, que não cabem neste texto) para tentarem vender livros de banda desenhada a leitores que desprezavam – obviamente sem conhecimento de causa e eivados de preconceitos – uma linguagem que acreditavam destinar-se às crianças, o mercado editorial dos últimos anos usou a mesmíssima estratégia, com a desvantagem de não saber que o faz. É comum escutar editores jurarem que não editam banda desenhada, mas que têm algumas novelas gráficas (a tradução literal, e ainda por cima mal feita, já que novel seria o correspondente a romance) no catálogo, e isso, sim, é bonecada de valor… Com a publicação deste livro de Ernstein em 2019, que venceu o prémio editorial Brage Prize no seu país natal, coloca-se mais uma pedra nesse muro que mais não faz do que ignorar a história da banda desenhada e a complexidade possível de alcançar através da sua linguagem. Como se só agora, com as tão destacadas Novelas Gráficas, se tivesse criado uma linguagem narrativa que tira partido da relação entre texto e imagem e consegue, com isso, contar todo o tipo de histórias, inclusive histórias densas, ricas em detalhes, com elementos psicológicos complexos e capazes de estarem à altura de obras literárias da envergadura da que escreveu Knut Hamsun.

      Independentemente de equívocos editoriais e mercantis, o que importa registar é o facto de Martin Ernstsen ter alcançado a difícil missão de transmitir a sua própria leitura da obra de Hamsun, num registo que depende profundamente da linguagem visual e do modo como esta se relaciona com o texto, sem prescindir do texto original. Que seja preciso acrescentar-lhe na capa uma etiqueta supostamente moderna para assegurar uma espécie de aval perante a qualidade daquilo que pode ler-se nestas páginas é apenas um equívoco.

       

       

      Martin Ernstein (a partir de Knut Hamsun)

      Fome

      Cavalo de Ferro

      Trad. Liliete Martins