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Quarta-feira, 28 de Fevereiro, 2024
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      Início Opinião As vacas

      As vacas

      O Lisboa era o centro e tudo girava à volta. Havia um lado profundamente decadente naquilo tudo que me chocou e, simultaneamente, me fascinou. Não sabia nada do assunto: até à data, tinha entrado num casino duas vezes para assistir a concertos. A população de jogadores que vira até então era maioritariamente constituída por senhoras de terceira idade que, de dia, seriam avós de muitos netos, mas, depois de o sol se pôr, depositavam a solidão em slots machines e em rostos maquilhados a disfarçar o tempo.

      Ali era tudo diferente. Uma cidade minúscula com um casino de corredores labirínticos, povoado por labirínticos seres, no meio de um labiríntico universo de misteres e ocupações profissionais, muitas delas pouco recomendáveis atendendo à quantidade de igrejas por metro quadrado em geografia tão reduzida. Os paradoxos são assim: devolvem-nos deliciosos prazeres quando contemplados com a curiosidade de quem assume uma orgulhosa ignorância.

      As coisas não tardaram a mudar. Lembro-me perfeitamente do frenesim jornalístico do dia em que se soube que o jogo ia passar a ser controlado por determinados três que, posteriormente multiplicados, passaram a seis. E depois foi tudo muito rápido: baldios transformados em torres com neons, istmos transformados em strips, strips transformadas em muita terra com muitas terras lá dentro, muito pastiche, alguma originalidade.

      Mais uma vez, o choque e, mais uma vez, o paradoxo: a mudança levou com ela a modernidade, o século certo, mas também o desconforto. A culpa não foi de quem aterrou de novo: foi de quem não soube pedir mais ou, pelo menos, pedir diferente. E de quem não soube acautelar o impacto da reviravolta. Em dois ou três anos, as rendas das casas triplicaram, os preços dispararam, o trânsito aumentou. A poluição também cresceu – engordou ao ritmo do porquinho-mealheiro do Governo. E alguém se esqueceu do resto, a cidade que sempre existiu.

      Mas nós, animais como os outros, adaptamo-nos com uma extraordinária facilidade e conseguimos (quase) sempre ver o lado bom do menos bom: a cidade entrou noutro ritmo, criaram-se oportunidades, muitos cresceram profissionalmente, a oferta de tudo aumentou. Diversificou-se o que havia para diversificar. Fez-se dinheiro: o nome do meio de Macau.

      Há muitos anos, as mulheres anglo-saxónicas – que acompanhavam os seus maridos nas suas aventuras profissionais pelo Extremo Oriente – levavam vacas no barco para que não faltasse leite aos filhos. Diz-se que as vacas eram herdadas pelas famílias que, entretanto, chegavam a Macau. Com os novos players do jogo, Macau passou a ter novas vacas. É sempre bom ter pessoas de fora a chegar, que contam histórias de sítios que não conhecemos, que mostram outras formas de ser. De resto, foi sendo esse o destino de Macau: gente a chegar e a partir, a trazer e a deixar vacas, a fazer o que sabe e o que não sabe, a inventar negócios, uns limpinhos e outros nem por isso, a fazer filhos, a levar e a deixar filhos, a fazer a cidade. Não há memória de que Macau tenha sido outra coisa que não isto: uma terra decadentemente encantadora ou, se preferirem, encantadoramente decadente. Sem este encanto e esta decadência, seria uma cidade como outra qualquer.

      Já ninguém imagina o Lisboa, o velho Lisboa, a ser o maior casino da cidade. Com a pandemia e as portas que se fecharam, muitos dos que justificadamente lamentaram não conseguir mexer os pés para irem às Ruínas sentem hoje a falta das ruas cheias de pernas, malas de viagem e chapéus-de-chuva. Macau não é nada sem o caos a que as pessoas se habituaram.

      A diversificação económica – sempre escrita no caderno de boas intenções governamentais – não aconteceu. Aquela que foi aparecendo, aqui e ali, morreu de morte prolongada e não assistida, nos últimos tempos, até porque nunca foi suficiente para ser significativa na contabilidade oficial.

      Vivem-se dias estranhos. No mundo todo, em Macau também, se bem que por outras razões. Sobre as mais recentes movimentações em torno do jogo há quem saiba muito mais do que eu das consequências que poderá ter para a cidade. Daqui, apenas uma certeza: Macau sem pecado não é Macau, assim como também não o é sem as vacas que chegam de longe, as pessoas que chegam de perto e de todos os sítios e as que, estando sempre, sabem que o melhor que a cidade tem é o decadente encanto que vem de tempos de que não há memória.

       

      Isabel Castro
      Jornalista