A mulher agredida num supermercado do território por dois homens no passado dia 10 de Outubro teve alta quatro dias depois de entrar no hospital público, mas voltou aos cuidados médicos, desta vez no privado, porque não se sentia bem. José Pereira Coutinho e Che Sai Wang questionam quem deu e como foi dada alta a uma pessoa que ainda estava “muito combalida”. Deputados querem ouvir as explicações das autoridades.
Gonçalo Lobo Pinheiro
Os deputados, recentemente eleitos para o novo elenco da Assembleia Legislativa (AL), realizaram ontem uma conferência de imprensa improvisada à porta do Hospital Kiang Wu para pedir explicações ao Governo sobre o caso da mulher “brutalmente” agredida recentemente por dois homens num supermercado do território. “Desde a primeira hora que nós temos acompanhado o caso da senhora Leong, cujo marido está aqui ao meu lado. Foi hospitalizada devido à agressão brutal por parte de dois indivíduos dentro do supermercado Tai Fung”, começou por dizer aos jornalistas José Pereira Coutinho.
Os parlamentares estão preocupados com a forma como o assunto tem vindo a ser tratado pelos Serviços de Saúde. “Eu próprio e o meu colega, também deputado, Che Sai Wang estivemos no Hospital Conde São Januário a visitá-la e ela estava bastante combalida. Para nossa surpresa, no dia em que estivemos lá de manhã, nessa noite pediram que ela saísse, quatro dias depois da agressão”, continuou a explicação.
A alta médica dada à senhora permanece envolta num mistério, porque ninguém sabe quem foi e porque é que foi dada a uma paciente que ainda não estava recuperada, referem os deputados. “A questão é simples. Nunca telefonaram ao marido ou a qualquer membro da família para irem ao hospital para levar a senhora para casa, que estava com ferimentos. Ela praticamente foi ‘obrigada’ a sair do hospital. Quando o marido chegou ao hospital, ela já tinha as roupas e bens pessoais na mão para ir para casa. O problema é que ela voltou a casa e à noite, quando se levantou para ir à casa de banho, sentiu vertigens e imediatamente foi obrigada a voltar ao hospital, mas desta vez, com medo, vieram até ao Hospital Kiang Wu. O patrão do supermercado está a tomar conta das despesas que tem de suportar com o seu internamento. O que nós achamos estranho é que uma pessoa, que não sabemos quem é, desacompanhada de pessoal médico, sozinha, obrigou a senhora a sair do hospital. Estes são os factos. Portanto, exigimos que haja uma averiguação para saber em que condições é que a senhora foi autorizada a deixar o hospital. Que sejam dadas explicações, primeiro, porque é que este senhor, que não sabemos quem é, estava de bata branca, que não se identificou, a obrigou a sair do hospital”, referiu o deputado eleito pela Nova Esperança.
Por outro lado, José Pereira Coutinho, secundado pelo marido da vítima em troca de informações, refere que sendo este um caso que teve um “grande impacto social” face aos vídeos da agressão que circularam nos meios de comunicação social e nas redes sociais, desconhece porque é que o hospital “não chamou a família para explicar o estado clínico desta senhora antes de mandar para casa”. “É o mínimo que se pode exigir de uma sociedade como a de Macau. É estranho que esta situação tenha ocorrido e esperamos que o director dos Serviços de Saúde possa dar uma explicação de como um indivíduo pode decidir que a pessoa está em condições de sair do hospital.”
A condição de saúde da senhora está a evoluir bem, ainda que a família esteja a aguardar por mais resultados de diversos exames. José Pereira Coutinho descreveu que a paciente “tinha partículas de vidro nas costas, que foram retiradas”. “Tem as costas todas doridas e de cor preta. A cabeça é que é o mais grave. Foram feitos no total três CT, dois no hospital público e um aqui [Hospital Kiang Wu] e estamos à espera do resultado final do estado clínico da senhora face aos exames”, notou o também líder da Associação Trabalhadores Função Pública Macau (ATFPM).
O deputado, assim como a família da senhora, ainda aguardam por explicações das autoridades. “Ninguém de nós recebeu até hoje um telefone, uma explicação a dizer quem é esta pessoa. É um médico supostamente. E não há nenhum documento escrito que comprove a saída do hospital. É muito estranho. Não queria especular, mas acho que é uma situação que merece explicações por parte do director dos Serviços de Saúde e inclusivamente a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, que tutela os Serviços de Saúde, para darem explicações”.
O caso remonta ao dia 10 de Outubro quando dois homens entraram num supermercado e a empregada lhes solicitou que usassem correctamente a máscara e apresentassem o código de saúde. Os homens, actualmente em prisão preventiva, ficaram descontentes com o pedido e iniciaram uma discussão, tendo os dois arguidos agredido várias vezes a mulher com uma cadeira metálica até esta cair no chão. “Das agressões resultaram lesões em várias partes do corpo, nomeadamente na cabeça, tendo esta sido transportada ao hospital onde ficou internada. Durante a discussão, os dois arguidos terão também empurrado mercadorias do supermercado para o chão, fazendo com que ficassem danificadas”, escreveu na altura o Ministério Público (MP) em nota de imprensa.
O MP encontrou motivos suficientes da prática do crime de ofensa qualificada à integridade física, do crime de armas proibidas e do crime de dano, previstos e punidos pelo Código Penal da RAEM. A punição pode ir de dois a quatro anos de prisão ou pena de multa.
PONTO FINAL











