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      InícioOpiniãoNos bastidores da microbiologia

      Nos bastidores da microbiologia

      A maior parte dos microorganismos que conhecemos e que temos estudado e usado nas mais diversas aplicações foram inicialmente recolhidos de algum sítio ou ambiente específico. Muito provavelmente foram isolados de uma amostra de solo, ou água, ou de produtos como comida ou até algum outro ser vivo. Na prática, o que os microbiólogos fazem é pegar numa pequena quantidade de alguma substância ou tecido vivo em que sabem que existem micróbios, e num laboratório tentam crescer e separar os diferentes tipos de micróbios que aí encontram.

      Quando se separam os micróbios por tipo de espécie, considera-se que foi feito o seu isolamento e que esses se encontram em culturas puras (cientificamente designadas de axénicas), nas quais todas as células existentes são similares, quer em termos de espécie, quer de forma, quer em termos de genética. Depois, as culturas dos micróbios isolados são estudadas e os micróbios são caracterizados para que fiquemos a conhecer todas as suas particularidades e tudo o que são capazes de fazer ou produzir. Aí, podemos decidir se conseguimos tirar algum partido das suas características, ou ficar a entender melhor como controlar o seu comportamento para evitar o seu crescimento indesejável e assim prevenir algumas doenças.

       

      O que acontece aos micróbios que vamos estudando?

      Tendo em conta que existe uma imensidão de micróbios no nosso planeta, o que acontece aos micróbios que vamos estudando? Se, por exemplo, descobrimos uma nova espécie de micróbios que produz algum composto muito útil para nós, como podem outros investigadores ter acesso a essa espécie?

      A resposta parece complicada, mas a verdade é que é bem simples. Tal como muitos de nós coleccionamos cromos, moedas, ou selos, também há quem coleccione micróbios. Existem inúmeras colecções, públicas e privadas, governamentais, de universidades, de indústria, e nelas podemos encontrar os microorganismos já descobertos. Estas colecções, também chamadas de centros de recursos biológicos, têm a responsabilidade de juntar os micróbios que vão sendo descobertos, preservam-nos de forma a garantir que estes se mantêm viáveis por muito tempo, e fornecem-nos quando estes são requisitados.

      Assim, quando um investigador descobre um novo micróbio, para além de o descobrir, estuda-o, descreve-o, normalmente publica um artigo científico com todas as informações sobre esse micróbio, e depois deposita-o numa coleção de culturas. A colecção, ao receber uma cultura desse micróbio, confirma e verifica a sua identificação e características gerais, preserva-o, escolhendo para esse fim a técnica mais adequada para o preservar, e cataloga-o (existindo catálogos disponíveis em muito semelhantes aos catálogos de supermercado) para de futuro o poder fornecer (se esse depósito inicial não for confidencial).

       

      Preservar

      Há várias técnicas de preservação. Mas, visto que alguns micróbios não sobrevivem a todas elas, muitas colecções usam pelo menos duas técnicas diferentes para assim garantir que esse micróbio não fica perdido para a ciência. Entre os métodos de preservação microbiana, encontramos a criopreservação (em que as células são geralmente congeladas a -80°C – temperatura bem inferior aos -20°C que costumamos ter nos nossos congeladores em casa), a vitrificação (uma outra forma de criopreservação, comum para preservar embriões nos tratamentos de infertilidade, que se caracteriza pelo congelamento rápido das células em azoto líquido, ficando estas imersas no azoto a -196°C durante toda a preservação), a liofilização (em que é extraída toda a água de uma suspensão microbiana, deixando as células num estado de dormência enquanto estão preservadas, podendo depois ser reavivadas fazendo a sua hidratação), e a dessecação (em que as células ou esporos são secos, misturando-os por exemplo com sílica gel, bastando pô-las nas condições ideais de crescimento para que fiquem fisiologicamente activas e comecem a crescer). Existem mais métodos, mas estes são os mais comuns para preservação a longo prazo, garantindo que os microorganismos estarão viáveis após muitas décadas.

       

      Disseminar e usar

      E se um micróbio for descoberto na China, e um investigador em Portugal o quiser estudar? Isso é possível? Sim, é possível, mas existem algumas regras para que tal aconteça. Cada país tem as suas próprias regras e existem alguns acordos em que vários países se comprometem a seguir um determinado grupo de regras. Essas regras estipulam como se deve receber uma determinada amostra, que condições e infraestruturas são necessárias, assim como descrevem tudo o que é preciso para o envio dessa amostra com segurança. É geralmente necessário garantir e declarar que se tem um laboratório com todos os equipamentos necessários para trabalhar com esse microorganismo específico, e que se têm os conhecimentos necessários para o fazer sem pôr em risco a saúde ou segurança pública e ambiental. Quando alguma transacção não ocorre de acordo com as regras pré-estabelecidas, essa pode ser considerada um acto de bioterrorismo.

       

      Quantas colecções de cultura há no mundo?

      A Federação Mundial de Colecções de Cultura (World Federation for Culture Collections, WFCC) tem registadas 812 colecções de 78 países diferentes. Só na China existem 27 coleções onde se encontram preservadas 156049 culturas microbianas. Já em Portugal, existem 5 colecções registadas na WFCC, com 7035 culturas microbianas. No entanto, é difícil avançar com um número exacto, pois existem várias colecções não registadas, que serão provavelmente colecções de trabalho de projectos de investigação ou até colecções de amostras clínicas recolhidas de pacientes em que, embora seja feita a preservação dos micróbios, estes não ficam disponíveis para a comunidade científica. Muitas vezes isto acontece devido a limitações económicas, pois todo o processo de identificar, caracterizar, autenticar e preservar microorganismos não é barato e existem poucos apoios para garantir estes serviços.

      As entidades financiadoras têm muita dificuldade em atribuir verbas para algo que não veem como rentável, ou associado a grandes descobertas científicas e de lucro rápido. No entanto, sem colecções de cultura, grande parte da indústria biotecnológica não conseguiria existir e muitos dos diagnósticos clínicos, feitos por comparação com amostras biológicas de referência (fornecidas por coleções de culturas), não seriam credíveis ou até viáveis.

       

      Espero que este tenha sido um assunto interessante para vocês. Suponho que os coleccionadores, em geral, ficarão mais entusiasmados com o tópico desta semana. No entanto, como devem imaginar só vos falei um pouquinho sobre este assunto, porque: há muito mais por contar.

       

      Marta Filipa Simões

      Cientista