Há uma semana, Ho Iat Seng confessou que os casos de Covid-19 detectados no final de Setembro iriam causar “um grande impacto” na economia de Macau. O Chefe do Executivo indicou, na altura, que o Governo iria ter de rever o orçamento para este ano, uma vez que o documento tinha sido elaborado tendo por base a meta de 130 mil milhões de patacas de receitas de jogo até ao final de 2021. Até Setembro, a receita bruta acumulada era de apenas 67,8 mil milhões. A este cenário, junta-se agora o facto de terem sido detectados mais quatro casos de infecção pelo SARS-CoV-2 no início desta semana.
A lentidão na recuperação económica é culpa da política de “zero casos”, apontam os economistas ouvidos pelo PONTO FINAL. “Se, no início da pandemia, se justificavam certas medidas drásticas, baseadas no desconhecimento quase total que então se tinha do vírus, hoje, com as informações que se tem do mesmo e sendo já possível a vacinação como medida eficaz de prevenção, não se pode nem deve continuar a adoptar acções similares às primeiras”, afirma António Félix Pontes, ex-presidente do Instituto de Formação Financeira.
A Covid-19 “não vai ser erradicada, veio para ficar, por conseguinte, temos de nos adaptar a essa crua realidade, presente e futura, e actuar em conformidade”, aponta o economista, sugerindo que o Governo deve ser mais assertivo na promoção da vacinação em vez de se fazerem testes em massa sempre que surjam novos casos, o que “cria um ambiente geral de pânico, para além dos custos envolvidos”. Além disso, gera “um sentimento de injustiça” para as pessoas vacinadas, diz.
O Governo anunciou em Setembro que os trabalhadores de algumas profissões que teriam de apresentar testes de ácido nucleico com resultado negativo de sete em sete dias, caso não estivessem vacinados. Félix Pontes sugere que o mesmo deveria ser aplicado à totalidade da população de Macau. “Não faz sentido Macau ter a taxa de vacinação mais baixa na China, recaindo a maior responsabilidade desta caricata situação nos indivíduos que insistem em não se vacinarem”, aponta. “Não podemos continuar a sujeitar toda a população – incluindo bebés – a novos testes. Isto começa a cansar e indicia um certo desnorte, diria mesmo, fundamentalismo das autoridades responsáveis no combate à Covid-19”, nota.
Por outro lado, o economista também sugere a dispensa ou redução da quarentena para as pessoas vacinadas que chegam a Macau e a autorização de saída apenas para quem está inoculado.
Para o antigo responsável do Instituto de Formação Financeira, os efeitos destas medidas para a economia local são “adversos e em cascata”. “Registaremos uma redução exponencial no número de visitantes, consequente diminuição na taxa de ocupação dos hotéis, colapso nas receitas dos casinos e no imposto do jogo para os cofres do Governo, a maior fonte de riqueza para este, e impacto negativo no produto interno bruto”, alerta, frisando também que, mantendo-se estas normas, a taxa de desemprego tenderá também a aumentar.
Ho Iat Seng anunciou uma revisão orçamental e Félix Pontes diz que a alteração deverá contemplar medidas de apoio à população: “o Governo terá de continuar a apoiar os cidadãos, as empresas e os trabalhadores por conta própria, prosseguindo a política que delineou em 2020, pois as suas razões permanecem as mesmas”. No entanto, “a factura será sempre muito elevada” e a fonte terá de ser a reserva financeira da RAEM.
O economista conclui dizendo que “o orçamento para o ano de 2021 assentou em pressupostos muito optimistas que não se concretizaram”, pelo que terá de se fazer uma “revisão orçamental mais realista e actual”.
A FALTA DE UMA ESTRATÉGIA ECONÓMICA E A “TIRANIA” DOS SERVIÇOS DE SAÚDE
Diana Massada começa por dizer que não são os casos de Covid-19 detectados recentemente que põem em causa a recuperação económica, mas sim as políticas do Governo para lidar com novos casos: “À luz daquilo que tem acontecido nos últimos dois anos no resto do mundo, [dez casos diagnosticados em uma semana] não é nada, continuamos a ser uma região seguríssima. Como o Governo aborda a existência de casos é que traz obviamente efeitos muito negativos para a economia”.
“Esta política de aparecem dois casos e fechar-se a economia toda durante 15 dias, se continuarmos assim vai ser um desastre autêntico”, diz a economista, afirmando mesmo que “não há uma estratégia económica para Macau desde o início da pandemia”. “O que temos tido é uma tirania dos Serviços de Saúde em termos de como é que a economia anda”, atira.
Para Diana Massada, o sector dos casinos e hotelaria está “pela rua da amargura” e as pequenas e médias empresas “estão completamente estranguladas”. Por isso, diz a economista, “é preciso o Governo aceitar a realidade em que vivemos e não subjugar o planeamento da economia à prevenção epidémica”.
“Temos de abandonar a política de ‘casos zero’”, sublinha, justificando: “Se isso fazia sentido no início da pandemia em que não havia vacinas e em que não se conhecia tanto do ponto de vista científico, neste momento não faz. O vírus veio para ficar, temos de aprender a lidar com ele no dia-a-dia e a única arma que temos para garantir que os seus efeitos são menores é a alta taxa de vacinação”.
Na opinião de Diana Massada, “as políticas de promoção da vacinação não foram suficientemente fortes para que a população percebesse a necessidade” e explica que “aquilo que se pretende com a vacinação não é não ter casos, mas sim que as consequências das pessoas infectadas não sejam tão graves”.
Massada também diz que o Governo terá de se socorrer das reservas financeiras para alterar o orçamento, uma vez que no final do terceiro trimestre do ano só se chegou a metade das receitas previamente estabelecidas para 2021. Cortes na despesa “são o caminho errado”, porque “quando uma economia está em recessão, não são os cortes que vão fazer a economia recuperar, é o contrário”. “Tem de ser o Governo a aumentar a sua despesa para dar rendimento aos agentes económicos e ajudar até que a própria economia ganhe o dinamismo necessário para se autosustentar”, refere a economista.
UMA POLÍTICA “ESTÚPIDA”
“A política de ‘zero casos’ é estúpida”, atira Albano Martins. Isto porque, explica, “lança instabilidade na actividade económica”. “Não faz muito sentido parar a economia toda apenas porque há um ou dois casos”, assinala. O economista também diz que a chave tem de ser a vacinação: “As pessoas têm de ser responsáveis, porque assim quem vai ser valorizado é quem trabalha; essas são as pessoas que [se a economia não recuperar] vão ficar desempregadas ou em ‘lay-off’”.
O economista constata que “a situação está muito complicada do ponto de vista económico” e que, “a quebra destas receitas todas vai afectar profundamente o PIB”. Albano Martins estava mais pessimista que o Governo e inicialmente previa que as receitas fossem de apenas 93,8 mil milhões de patacas, no entanto, os casos recentes fazem o economista duvidar que seja possível alcançar esse valor. Agora, o economista aponta para 86 mil milhões de patacas. Albano Martins fez as contas e diz que o Governo vai ter de injectar na economia 20 mil milhões de patacas provenientes da reserva.
Tal como Félix Pontes, Albano Martins pede que o Executivo seja “prudente” na revisão ao orçamento, porque tem apresentado “orçamentos com receitas sobreavaliadas, quando uma das técnicas orçamentais é as receitas estarem sempre subavaliadas e as despesas sobreavaliadas”.
Albano Martins concorda com Diana Massada, dizendo que mais cortes na despesa seriam prejudiciais para a economia: “Quando uma economia se contrai, o Governo tem de ser o primeiro a dar o exemplo expandindo, para contrapor o ciclo. O Governo tem de ter uma atitude positiva para puxar pela economia. Se o Governo tem uma atitude negativa, contraindo, faz a economia crescer ainda menos”.











