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      Início Opinião O óbvio

      O óbvio

      É óbvio que alguma coisa não correu bem. Se tivesse corrido tudo como planeado, um hotel não seria evacuado durante a noite e as pessoas que se encontram trancadas há semanas saberiam a quantas andam e o que podem esperar da vida. Alguma coisa correu mal e, digo-vos, faz parte: no mundo em que hoje respiramos, não há forma de fugirmos ao que é inevitável. O vírus veio para ficar e, até prova em contrário, a vacinação é a única forma de ir dando a volta ao texto com alguma sanidade mental. Por ser incontornável, convém ter um plano B na secretária, para que, quando o plano A descamba, a situação não seja ainda pior.

      Os erros fazem parte do processo. Algumas das pessoas que me lêem lembrar-se-ão de que, no início disto tudo, houve quem tivesse, confortavelmente e ao longe, ridicularizado quem vive em Portugal e que, entre um confinamento e outro, passou muitos meses sem sair de casa, sem comparticipação pecuniária, nem empregada para lavar a louça e aturar os miúdos.

      Fazem parte do processo, os erros. Hoje num sítio, amanhã noutro. Não vale a pena encontrar bodes expiatórios para quem transmite o vírus, um manhoso que hoje não acusa presença e amanhã já se mostra pronto para o milagre da multiplicação. Um sacana que ataca uns, mas deixa outros de fora. O tempo em que se apontava o dedo aos leprosos já lá vai – e, se ainda não foi, já devia ter ido, que é má rês quem estica o indicador.

      Vale a pena, isso sim, pensarmos na responsabilidade colectiva: entrámos nas florestas onde nunca devíamos ter estado, demos cabo da biodiversidade, deixámo-nos iludir pela rapidez das coisas, por tudo o que queremos e podemos comprar mesmo que o tudo seja perfeitamente dispensável. Vale a pena pensarmos na responsabilidade colectiva, mas isso não vai acontecer: é tão utópico quanto imaginar que, se enfiar quem viaja de avião num quarto de hotel, me protejo, mesmo abrindo a outra porta, mediante um papel que diz que hoje – só hoje, não se sabe se amanhã – está tudo bem.

      As atrapalhações são normais nesta história, porque nunca ninguém viveu isto. Mas a humildade também deve fazer parte do processo: se fosse eu, não faria melhor. Os vizinhos do lado estão a fazer melhor do que eu. Os vizinhos de longe estão a fazer ainda melhor do que os vizinhos do lado. E muito longe, mas mesmo muito longe, há quem já tenha chegado a conclusões científicas que fazem com que eu, afinal, me tenha perdido algures no tempo, atrapalhada que estou nas muralhas que tento erguer, todas elas cheias de buracos.

      É também nestas alturas que vale a pena pensar na nossa existência: para que servimos, quem servimos, o que andamos a fazer. Se o que fazemos basta para justificar o cargo que ostentamos nos cartões-de-visita, no papel timbrado, na vida que levamos e na folha salarial.

      Esta semana houve mais de uma centena e meia de pessoas que, trancadas em quartos, impossibilitadas de sair por estarem a cumprir quarentena, passaram por uma experiência difícil de qualificar. Entre elas, mais de uma dezena de portugueses (que eu saiba) de regresso a casa, numa volta agoniada pela incerteza. Não se saber com o que se pode contar quando se está privado de liberdade para decidir e agir está na lista das piores sensações. Sobretudo quando não se está só. E sobretudo quando se está só.

      À hora a que escrevo, algumas horas antes de este texto saltar para uma página de jornal, desconheço que a representação consular em Macau tenha agido no sentido de dar algum apoio – emocional, por impossibilidade de ser de ordem prática – aos seus compatriotas que se viram em apuros e que, depois de já longas quarentenas, viram a clausura ser prolongada sem data certa para terminar. Não é difícil reunir os números de telefone, mandar uma mensagem de texto e desejar que tudo corra pelo melhor. E é ainda mais fácil ir a uma rede social contar que se está em contacto com quem precisa de sentir apoio.

      Sei bem que a diplomacia é silenciosa – mas não devia ser. É bom que, quando se está longe, se sinta que existe apoio. Que quem tem a obrigação de estar presente não se encontra alheado. E isso só acontece quando é feito e quando as outras pessoas vêem que está a ser feito.

      De vez em quando, a diplomacia deixa escapar uma frase para dizer que está atenta – o que não tem qualquer utilidade, porque atentos estão os cidadãos que compreendem os princípios da cidadania, apesar de não serem renumerados pelo Estado para estarem atentos aos outros. Mas, em Macau, se essa atenção existe é bem camuflada pelo bem maior do silêncio: basta pensar que, em Julho passado, a representação consular ainda não tinha dado conta de um maior fluxo de portugueses a deixar a cidade, apesar de todos termos dado conta de um maior fluxo de portugueses a deixar a cidade. Acredito – mas posso estar enganada, ressalvo desde já – que uma representação consular servirá para mais do que renovar documentos.

      É óbvio que alguma coisa não correu bem, que os erros fazem parte do processo, que as atrapalhações são normais e que vale a pena pensarmos no que andamos a fazer. Mas uns mais do que outros, como é óbvio também.

       

      Isabel Castro
      Jornalista