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      Viajar de olhos abertos

       

      Hélder Beja

       

      No texto «Mensagens de Toda a Parte», que abre Lugares Distantes, Andrew Solomon começa por abordar a sua condição de judeu, recordando uma história de quando tinha sete anos, uma viagem de carro em pediu ao pai que lhe explicasse o que tinha acontecido durante a II Guerra Mundial. Naquele momento, confrontado pela primeira vez com uma narrativa de “puro mal”, o pequeno Andrew tomou numa resolução: «Naquele instante, decidi que sempre teria algum lugar aonde ir. Nunca me sentiria desamparado, dependente ou confiante.» A peça que abre o livro é uma das mais pessoais que Solomon, formado em História da Arte e Psicologia, reúne nesta obra. Acontece que a tradução do excerto que uso atrás é do escritor Paulo Henriques Britto e da edição brasileira da Companhia das Letras. Em Portugal, a edição agora publicada pela Quetzal amputa inexplicavelmente o livro deste e de outros textos, sem qualquer justificação e, mais surpreendente ainda, sem que qualquer menção seja feita a esse facto.

      Se «Mensagens de Toda a Parte» – que consta das duas edições em língua inglesa e da edição brasileira a que tive acesso – é um texto belo e fundamental para compreender o lugar de Andrew Solomon no mundo, os outros artigos deixados de fora da edição portuguesa não são menos interessantes e incluem peças sobre Taiwan, África do Sul, EUA, Zâmbia, Senegal, Afeganistão e Japão, Ruanda, Antárctica, Indonésia, Gana, Roménia e Myanmar. É escusado gastar mais linhas com o que falta do livro de Solomon nesta edição portuguesa. Fica, ainda assim, a nota de estupefacção perante esta decisão tomada pela Quetzal.

      Lugares Distantes, este Lugares Distantes possível editado no mercado português, abre um com um prefácio colorido do editor Francisco José Viegas, que nos transporta de imediato para a sua Pequim, cidade por onde tem passado regularmente, e para a Pequim de Andrew Solomon – a capital e o território chinês merecem grande atenção nesta antologia de reportagens publicadas no New York Times e noutras publicações ao longo de 30 anos, durante os quais Andrew Solomon visitou 83 países.

      Nos textos de viagem de Solomon encontramos os temas recorrentes da sua obra: a saúde mental e a indagação interior, os direitos LGBT, a arte, a família e outras formas de laços sociais entre humanos. Fazendo uso das suas grandes faculdades de observador, bem como de uma bagagem académica e cultural impecável, Solomon tem a inteligência e a humildade dos grandes viajantes. «Não há visão do mundo tão perigosa como a visão do mundo daqueles que não viram o mundo», escreve, citando o clássico naturalista Alexander von Humboldt. A frase é como um mantra que leva Solomon a percorrer grande parte do mundo em busca da diferença, nunca para lhe apontar o dedo e denunciá-la como se de uma infâmia ou de uma ameaça se tratasse, mas para vê-la de olhos abertos, para experimentá-la, para vivê-la. Solomon sabe, como sabia Virginia Woolf e assim declarou no ensaio The Leaning Tower, que «os livros descendem dos livros como as famílias descendem das famílias… parecem-se aos seus pais, tal como os filhos humanos se parecem aos seus pais; e no entanto diferem deles tal como os filhos diferem, e rebelam-se tal como os filhos se rebelam». É neste acto de humildade que a escrita e a leitura proporcionam que Solomon constrói a sua obra. Em vez de andar por aí a despejar banalidades sobre os sítios que visita, como se de um pioneiro se tratasse, vendo e reportando tudo desde o seu lugar de conforto – o de um ocidental branco, com uma educação de excelência e meios de subsistência acima da média –, Solomon retira-se ou atira-se para o lugar do outro, calça os seus sapatos, esforça-se por perceber e auscultar o mundo a partir daí. A essa capacidade de se identificar com outra pessoa e de partilhar os seus sentimentos e motivações, de identificação emocional com o eu de outro, chama-se empatia, conceito hoje tão esquecido em atoardas despejadas nas redes sociais e até em páginas de jornais e revistas.

      E é assim, viajante dos que merece a pena ler, que Solomon atravessa a Rússia dos anos 1990, a sua corrente artística e musical, a vida nocturna e a cena gay, os grandes centros urbanos, a máfia e a política – pena que também tenham sido obliteradas duas peças anteriores sobre a União Soviética, uma delas em 1988, quando a revista mensal britânica Harpers & Queen o enviou à URSS para cobrir a venda de obras de arte soviéticas contemporâneas pela Sotheby’s.

      Em 1993, Solomon vai à China escrever para o New York Times sobre os movimentos artísticos de vanguarda. Acompanhar as peripécias da sua viagem e tentar organizar os muitos nomes de artistas que vai atirando é um desafio entusiasmante para quem se interesse pela China, ainda que hoje uma China bem distante daquela encontrada pelo escritor anglófono nos anos 1990. As categorizações artísticas, a questão do individualismo, o humor e a subversão artística, e as necessárias subtilezas pós-Tiananmen são alguns dos aspectos abordados nos textos de Solomon, confrontado com artistas da vanguarda que «são reservados, elípticos ao ponto da obscuridade e emocionalmente inacessíveis». O saudosismo de Mao e paradoxalmente a contaminação da China pelo Ocidente são igualmente dissecados, com o escriba a referir que «os chineses divertem-se com a incapacidade ocidental de entender os seus padrões culturais».

      Depois de passagens pela Turquia, Camboja, Ilhas Salomão e Líbia, o livro regressa à China em 2005, para o festim gastronómico que valeu ao autor sérios problemas com a balança. Em «Todas as comidas da China», Solomon, regressado ao país, mostra-se muito impressionado com as mudanças e o desenvolvimento que encontra. Faz um périplo gastronómico na companhia de Han Feng, uma estilista sofisticada – e não nos enganemos, Solomon adora elegância e sofisticação, ao mesmo tempo que consegue perceber que «onde se come melhor na China não é necessariamente nos sítios mais espalhafatosos». Noutro texto, Solomon escreve ainda sobre a arquitectura e a simbologia de poder da Cidade Proibida, construção que consegue impressionar e intimidar, tanto quanto mimar e acarinhar, nas palavras do autor.

      Lugares Distantes, versão decepada, avança para o fim com um texto sobre o Rio de Janeiro em 2010, com a cidade a preparar-se para o Mundial de Futebol e outro, mais pessoal, onde o narrador conta como foi aprender mergulho na Austrália. Finalmente, fecha-o um último e extenso ensaio publicado por ocasião da reedição do livro em 2016. Em «Uma Última Palavra sobre “a América Primeiro”», Solomon pinta um cenário pouco optimista do mundo de hoje, assume as suas derrotas pessoais com as vitórias de Donald Trump e do Brexit (ele tem dupla nacionalidade), enumera quase à náusea uma lista de crimes de ódio, de ofensas verbais e físicas que se seguiram à eleição de Trump e ao voto no Brexit. São páginas difíceis, inquietantes. Solomon, porém, deixa uma nota de esperança: «Este livro é sobre fronteiras: sobre a beleza das nossas diferenças e as surpreendentes simetrias entre nós, que persistem apesar dessas diferenças. É sobre a diversidade e a intimidade da experiência humana.» Para o autor, «testemunhar um mundo global é uma maneira de tornar o mundo global. A abertura salva-nos.»

       

      Lugares Distantes

      Andrew Solomon

      Quetzal

      Trad. Telma Costa