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      As almas da ilha de Moraes

      CRÍTICA

      Hélder Beja

      Nenhum autor português – e, com risco moderado, será mesmo possível afirmar nenhum português – passou por um processo tão acentuado de “japonização” como Wenceslau de Moraes (1854-1929). Moraes viveu mais de três décadas no Japão, depois de, no virar do século, trocar Macau pelo fascínio que aquelas terras lhe imprimiram desde a primeira visita. Moraes é ainda hoje (e com justiça) figura revestida de uma densa mitologia e algum exotismo, estudado nas academias, reverenciado por viajantes e literatos, inspirador de poetas, cineastas e outros artistas. Deixou para as calendas uma extensa obra que, se toca as coisas da China, se debruça muito mais profundamente sobre os mais diversos aspectos da sociedade nipónica.

      Relance da Alma Japonesa é um dos últimos livros escritos por Moraes e publicado em 1928, pouco antes da sua morte, em Tokushima. Resulta, então, de um longuíssimo processo de aculturação, observação e vivência do ser japonês. A nova e bela edição desta obra é da Livros de Bordo e tem na capa a reprodução de uma pintura do artista nipónico Kawase Hasui, contemporâneo de Moraes, revelando um templo e alguém que caminha delicadamente na neve.

      Dedicada aos «amigos desconhecidos», essa espécie de sociedade secreta de homens que escrevem livros e que, sem se conhecerem, «pressentem-nos, adivinham-nos», a obra propõe-se a um exercício ambicioso, explicitado pelo autor numa breve nota introdutória. A saber: «(…) reunir em resumo tudo o que o povo japonês me havia ensinado pelo contacto de longos anos, e assim obter maior soma de probabilidades para atingir quanto possível meu propósito.»

      Lida à distância de quase um século, e atentando ao contexto, cabe dizer que o livro atinge os seus propósitos. Continua a ser um texto revelador das particularidades de um povo que, se está hoje muito mais próximo do resto do mundo, não carece todavia de mistério. É, como só podia ser, um livro que sofre o desgaste do tempo nas considerações que faz, ao falar repetidas vezes do «homem branco» por oposição ao japonês ou ao discorrer em tom patriarcal sobre a condição secundária e servil da mulher nipónica. Revela-se, também, o testemunho de um homem enamorado do país que tomou por casa, tomado pela beleza da língua japonesa, pela cortesia do povo, por uma certa maneira de viver que mesmo assim não deixa de criticar a espaços. Isto faz de Relance da Alma Japonesa um relato datado, mas cândido, repleto de minúcia e generosidade, curiosidade e saber acumulado.

      Alinhavadas as «Primeiras Ideias» – capítulo no qual Moraes cita alguns viajantes ocidentais que o precederam, repassa a proveniência mongol das gentes e das almas japonesas e aponta as belezas e agruras naturais do território, um éden com «sopros do inferno» – , o autor organiza os restantes capítulos por temas, da linguagem à religião e à história, da vida familiar e tribal ao amor e à morte, sem deixar de fora a arte e a literatura.

      As generalizações são sempre vãs ou perigosas, quando não cometem o feito de serem as duas coisas. Mas no pensamento de Moraes existe uma característica que não só define o povo japonês como impregna todas as divisões do seu ser: aquilo que o autor descreve como «impersonalidade humana perante os fenómenos da vida, o que quer que seja, que o reduz a simples comparsa de somenos importância, em presença do grandioso drama da natureza criadora» (p.35). Na linguagem, nas relações sociais, nos afectos, no inevitável fim, «a individualidade do japonês dissolve-se, dilui-se, desaparece; o japonês sente-se não participante no drama mundial, perde a consciência de si próprio» (p.42). Moraes defende esta interessante tese por via de uma comparação com o individualismo do «homem branco». Este teria separado a ideia da divindade e a ideia de natureza criadora. O nipónico, por sua vez, não concebeu tal distinção, divindade e natureza concorrem para um fim comum: «(…) no seu amoroso animismo panteísta, o nipónico vê a divindade em toda a parte, nos aspectos do universo – no sol, na lua, nas estrelas, nas montanhas, nos rios, nos bosques, nos relâmpagos, no insecto, na flor» (p.45).

      Moraes, não podendo prever o futuro infame manchado a sangue que o século japonês e mundial estava ainda por trazer, bendiz o «supremo orgulho» que anima o povo nipónico, «fazendo do Japão a nação mais patriota do inteiro mundo civilizado». Por outra, condena-lhes a irritabilidade, que diz «herdada dos avós» e «sobreexcitada pela irritabilidade geológica e climatérica do meio».

      As suas considerações sobre o amor são curiosas, revelando-se um verdadeiro céptico das coisas do coração, notando que «se tem exagerado um tanto a importância do amor nas sociedades europeias» (p.131), dando ao amor «uma importância muito medíocre», considerando o casamento «o último capítulo do dramazinho íntimo» e não tremendo ao declarar que os poetas românticos mentem, fingindo cantar os amores puros quando (estava-se mesmo a ver) são os mais impuros aqueles que incendeiam corações e almas. Moraes, empolgado com um tema que lhe é caro, ou não tivesse a sua vida suficientes episódios de alcova, oferece uma das mais inauditas definições desse sentimento indecifrável de que por aqui há memória: «Aceitemos que, para aqui, o amor seja a simpatia que se manifesta entre dois indivíduos de sexos diferentes».

      Os japoneses, esses, são mais comedidos nas marés do coração, começa por dizer Wenceslau de Moraes. Mas logo se contradiz. Depois de explicar que por aquelas bandas ninguém casa(va) por amor, mas por descendência, logo chega a um elemento decisivo da sociedade japonesa: o suicídio. O autor, que ao longo da obra denota um forte conhecimento do idioma nipónico, descreve então o shinjû, suicídio duplo dos amantes que vêem proibida a sua união e acto que Moraes despreza, apelidando-os de «louquinhos (…), crentes de que renascerão para uma nova vida, limpa de impurezas humilhantes e então unidos para sempre» (p.145).

      Moraes ocupa-se da morte em todo um capítulo, para concluir, citando o seu contemporâneo e grande poeta indiano Rabindranath Tagore, que indianos e japoneses souberam encontrar um sorriso para receber a morte, embora de maneira diferente. Já bem avançado no livro, e antes de rematar com laudas à alma japonesa – que «irá longe, bem longe (…), provida como está de características étnicas excepcionalmente grandiosas» (p.225) – Wenceslau de Moraes volta ao temas da limitações que encontra na tarefa a que se propôs: «Faltam-me termos para exprimir ideias e, pior ainda, faltam-me ideias; o homem branco não pode compreender, não pode sentir essa delicadíssima feição da alma nipónica (…)» (p.151). Talvez, de facto, o ocidental não pudesse, ou não possa, arrogar-se a tal empreitada. Mas poucos tentado tão bem quanto Moraes, desterrado na sua ilha.

       

       

      Wenceslau de Moraes

      Relance da Alma Japonesa

      Livros de Bordo