Edição do dia

Domingo, 21 de Abril, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
chuva moderada
25.9 ° C
26.9 °
25.9 °
94 %
5.7kmh
40 %
Dom
25 °
Seg
25 °
Ter
25 °
Qua
25 °
Qui
29 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More

      EDITORIAL #70

       

      Bem podemos separar as águas e afirmar sem vacilar que à literatura o que é da literatura, à realidade o que a ela pertence. Se assim fosse, o que faríamos das figuras historicamente comprovadas que povoam textos como a Eneida, esse monumento da história literária universal? E o que diríamos dos dramas familiares criados por Tolstoi, dos movimentos torrenciais na cabeça das personagens de Virginia Woolf, da descida aos infernos de Dante? Que nunca neles reconhecemos nada da nossa vida e do mundo em que vivemos? As fronteiras só fazem sentido quando as podemos atravessar muitas vezes, mesmo que desordenadamente, mesmo que sem visto prévio. O mais recente romance de Tatiana Salem Levy é um questionamento permanente sobre essas fronteiras, não tanto por ter nascido de um acontecimento factual, mas sobretudo pela capacidade de duvidar permanentemente de arrumações tão cabais sobre o que foi e o que poderia ter sido, sobre o que lembramos como acontecimento e as marcas que essa lembrança em nós deixou. Vista Chinesa conta a história de uma violação e cria, a partir desse acontecimento, uma intensa deambulação pelos territórios da memória, do trauma, da herança e da literatura, temas sobre os quais conversámos com a autora para esta edição.

      No Brasil, João Paulo Cuenca acaba de publicar um novo livro, um conjunto de relatos de viagem que passam pela Ásia e chegam a Macau. E também aqui a literatura é um modo possível de transformar o mundo a que chamamos real, umas vezes confrontando-o, outras procurando nele o conforto de assumir que nem tudo nos é apreensível, por mais que caminhemos.

      Um mês depois da morte de Hu Xudong, acolhemos nas páginas do Parágrafo uma homenagem feita pelo sinólogo e tradutor Giorgio Sinedino que, a partir de Macau, recorda como conheceu o escritor chinês em Brasília, onde se iniciou uma relação de amizade que haveria de prolongar-se no tempo, mesmo que pouco tenha coincidido no espaço. A morte interrompeu a possibilidade de novos reencontros, lembrando implacavelmente que há sempre um momento em que o que vamos adiando já não volta a ser possível. E no entanto, sabemo-lo muito antes da morte e muito antes de disso sermos implacavelmente recordados, porque a literatura já o havia contado de tantas maneiras possíveis.

      Ponto Final
      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau