João Pimenta,
agência Lusa
Em entrevista à Lusa, o jornalista da agência Bloomberg explica que, para os diplomatas chineses, a política interna é a “prioridade”, já que o sistema político chinês favorece a lealdade à liderança e obriga-os a “estarem atentos para saber de onde podem vir os próximos riscos” políticos. “Os diplomatas chineses olham, em primeiro lugar, para o público em Pequim, antes de pensar nos seus homólogos estrangeiros”, resume.
Nos últimos anos, sob a liderança do atual Presidente Xi Jinping, a diplomacia chinesa abdicou de um “perfil discreto”, para adoptar uma postura mais assertiva, o que abalou as relações entre Pequim e vários países.
Observadores passaram a designar os diplomatas chineses como Lobos Guerreiros, numa referência ao filme de acção chinês “Wolf Warrior”, que conta a história de um soldado chinês numa zona de guerra em África, onde salva centenas de pessoas de uma chacina conduzida por mercenários ocidentais que tentam apoderar-se do país.
O filme, um dos mais vistos de sempre na China, parece ilustrar a nova visão do país asiático sobre si mesmo: uma potência global, pronta a defender os seus interesses além-fronteiras. “Quem ofender a nação chinesa será punido, não importa o quão longe está” é, de resto, uma das mais emblemáticas frases do filme. No entanto, o novo perfil da política externa chinesa contribuiu para o isolamento internacional do país, a um nível inédito em várias décadas, apesar de a China ser hoje a segunda maior economia mundial.
Na Suécia, o embaixador Gui Congyou foi já convocado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros por mais de 40 vezes, no espaço de dois anos. Numa ocasião, ele comparou a Suécia a um pugilista de 48 quilogramas e a China a um de 86 quilogramas. “O pugilista leve não escuta, ele continua a provocar (…) que escolha é que o pugilista de 86 quilos tem”, questionou.
No Brasil, o embaixador da China considerou a família do Presidente Jair Bolsonaro como o “veneno” do país, depois de o filho Eduardo Bolsonaro culpar a “ditadura chinesa” pela pandemia de covid-19.
A imposição de sanções contra eurodeputados e instituições europeias, em represália às sanções impostas pela União Europeia a Pequim por violações dos direitos humanos dos uigures, na região autónoma de Xinjiang, levou o Parlamento Europeu a rejeitar a retificação de um acordo de investimento com o país asiático.
No seu livro, Peter Martin recupera a história do corpo diplomático da China desde a sua criação, sob a orientação do antigo primeiro-ministro Zhou Enlai. “Os enviados chineses não se conseguem libertar das restrições de um sistema político secreto e paranoico”, resume Martin. “Eles vão continuar a ser limitados por instituições forjadas por meio da luta revolucionária clandestina e que amadureceram no auge da guerra fria”, descreve.
A centralidade da narrativa da humilhação nacional, referente às guerras do ópio e ocupação estrangeira, nos séculos XIX e XX, como fonte de legitimidade do regime, contribuiu também para formar a concepção e prática da diplomacia na China, observa Martin. “Julgo que também moldou a cultura institucional da diplomacia chinesa”, diz. “Esta ideia de que tens que estar constantemente vigilante contra até mesmo as menores ofensas, suscetíveis de afetar o estatuto da China, tem sido realmente crucial”, acrescenta.
Mas o jornalista refere também a “frustração” dos diplomatas chineses, face às dificuldades em melhorar o estatuto e imagem do país, apesar das conquistas das últimas décadas. “Eles vêem todo o progresso que a China fez, em termos de redução da pobreza, e em outras áreas, como o controlo da pandemia do coronavírus, e sentem que não têm o respeito que merecem”, observa.
Uma ordem mundial assente nos valores democráticos liberais dão também ao Governo chinês e às suas políticas uma presunção de ilegitimidade. “Os diplomatas só podem ser tão eficazes quão o poder da mensagem que têm para vender”, nota Martin. “É muito difícil persuadir o público ocidental dos méritos da campanha de detenção arbitrária de muçulmanos em Xinjiang, a militarização do mar do Sul da China ou a emenda constitucional que eliminou o limite dos mandatos presidenciais”, exemplifica. “Esse é o trabalho com o qual eles estão confrontados”, diz.













